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Antes de virar ícone do design brasileiro, Poltrona Mole foi comparada a “cama de cachorro”

Hoje, a Poltrona Mole é considerada uma das criações mais emblemáticas do design brasileiro. Mas quem olha para o móvel e conhece o prestígio conquistado ao longo das décadas talvez não imagine que sua estreia esteve longe de ser unanimidade.

Quando a peça criada pelo arquiteto e designer carioca Sérgio Rodrigues surgiu, em 1957, suas proporções generosas e o visual bastante diferente do mobiliário da época causaram estranhamento. Uma das reações atribuídas ao público foi nada gentil:

 “Para uma cama de cachorro, está muito cara”.

A Poltrona Mole nasceu do desejo de romper com o rigor estético, a rigidez e os traços finos e frios do design europeu que dominavam a época. (Foto: Divulgação)

A história, recuperada pelo Instituto Sergio Rodrigues, parece ainda mais curiosa quando se conhece o destino da poltrona. Apenas quatro anos depois, a Mole conquistaria reconhecimento internacional e, mais tarde, chegaria ao acervo do Museum of Modern Art (MoMA), em Nova York, consolidando seu lugar na história do design.

A trajetória entre a rejeição e o reconhecimento ajuda a contar também um capítulo da história do design brasileiro.

Por que a Poltrona Mole causou estranhamento?

Para entender a reação inicial, é preciso voltar ao final dos anos 1950. O mobiliário moderno daquele período era marcado, em grande parte, por linhas mais rígidas e racionalistas, sob forte influência europeia.

O projeto de Sérgio Rodrigues privilegiava o conforto e a criação de linguagem brasileira para o mobiliário. (Foto: Divulgação)

A Mole parecia seguir na direção oposta.

Baixa, larga e com grandes almofadas apoiadas sobre uma estrutura de madeira, a poltrona privilegiava uma postura relaxada. De acordo com registros do Instituto Sergio Rodrigues, pessoas que observavam a peça na vitrine chegaram a chamá-la também de “pastelão de couro”.

Aquilo que inicialmente parecia exagerado, porém, fazia parte da proposta.

Uma poltrona criada pa a "se esparramar"

A origem da Mole ajuda a explicar seu desenho. A peça nasceu a partir de um pedido do fotógrafo Otto Stupakoff, que procurava um sofá confortável e “preguiçoso”, no qual fosse possível se esparramar.

Otto Stupakoff e Sergio Rodrigues no sofá criado pelo arquiteto. (Foto: Divulgação)

Sérgio Rodrigues levou a ideia adiante e desenvolveu um móvel que colocava o conforto no centro do projeto. A estrutura de madeira, as grandes almofadas e as tiras de couro criavam uma aparência muito diferente das peças de linhas mais contidas que predominavam naquele momento.

O móvel também traduzia uma preocupação que atravessaria a obra do designer: a construção de uma linguagem brasileira para o mobiliário, tanto pela forma quanto pelo emprego de materiais associados ao país.

O visual podia parecer despojado, mas a execução não era simples. Cada peça exigia trabalho preciso de marcenaria antes de receber as tiras de couro que se tornariam uma das características mais reconhecíveis da Mole.

Da rejeição no Brasil ao reconhecimento internacional

A grande virada aconteceu em 1961, quando a Poltrona Mole conquistou o primeiro prêmio no Concorso Internazionale del Mobile, realizado em Cantù, na Itália. A premiação ajudou a projetar internacionalmente não apenas o móvel, mas também o trabalho de Sérgio Rodrigues.

Anos depois, a Mole alcançaria outro importante reconhecimento ao integrar o acervo do Museum of Modern Art (MoMA), em Nova York.

Produzidas no alto padrão original, as Poltronas Moles de Sérgio Rodrigues custam entre R$ 60.000 e R$ 100.000 em lojas autorizadas de design. (Foto: Divulgação)

Em 1998, a peça era apontada como a única criação brasileira de design presente na coleção do museu.

O sucesso também teve um efeito menos desejado: a Poltrona Mole passou a ser copiada fora do Brasil. Mais de 2 mil reproduções teriam sido comercializadas no Peru, e o próprio Sérgio Rodrigues chegou a encontrar uma cópia de sua criação à venda na Dinamarca.

De "cama de cachorro" a símbolo do designe brasileiro

O que provocou estranhamento em 1957 acabou se tornando justamente parte da identidade da Poltrona Mole.

Seu desenho volumoso, a maneira descontraída de sentar e a combinação entre madeira e couro romperam com padrões predominantes na época e ajudaram a construir uma linguagem própria para o mobiliário brasileiro.

A estrutura de madeira, as grandes almofadas e as tiras de couro da peça criam uma aparência muito diferente dos móveis convencionais. (Foto: Divulgação)

A trajetória também mostra como a percepção sobre o design pode mudar com o tempo. Uma peça inicialmente rejeitada conquistou um dos principais concursos internacionais de mobiliário poucos anos depois e alcançou espaço em uma das instituições de arte moderna mais conhecidas do mundo.

Quase sete décadas depois de sua criação, a história deixa uma curiosidade difícil de ignorar: a poltrona que já foi comparada a uma “cama de cachorro” acabou se tornando um dos grandes ícones do design brasileiro.