O envelhecimento modifica a forma como o organismo administra o oxigênio durante a atividade física. É o que aponta um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade Estadual Paulista (Unesp), que identificou diferenças na oxigenação do cérebro e dos músculos entre idosos e adultos jovens durante exercícios de intensidade moderada.
Publicado no Translational Journal of the American College of Sports Medicine, o trabalho foi conduzido durante o pós-doutorado do pesquisador Diego Orcioli-Silva, sob supervisão da professora Fúlvia de Barros Manchado-Gobatto, no Laboratório de Fisiologia Aplicada ao Esporte (Lafae), com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
Como a pesquisa foi feita
A pesquisa avaliou 40 pessoas fisicamente ativas: 20 adultos jovens, com idades entre 18 e 30 anos, e 20 idosos, com 60 anos ou mais, segundo o Jornal da Unicamp. Os dois grupos tinham dez mulheres e dez homens. Os participantes realizaram dez minutos de caminhada em intensidade moderada em uma esteira e, depois, passaram por 15 minutos de recuperação.
Para acompanhar a oxigenação em tempo real, os pesquisadores utilizaram a espectroscopia no infravermelho próximo, conhecida como NIRS. O método não invasivo permite medir os níveis de oxiemoglobina e desoxihemoglobina e, assim, avaliar a relação entre a oferta e o consumo de oxigênio no cérebro e nos músculos.
Diferenças na resposta ao exercício
Durante a atividade, os adultos jovens apresentaram aumento contínuo da oxigenação no córtex pré-frontal até o sétimo minuto de exercício. A região está relacionada ao controle executivo, à atenção e ao planejamento motor. Entre os idosos, não houve alteração significativa nessa oxigenação.
Segundo os pesquisadores, esse resultado pode estar relacionado a uma redução no fluxo sanguíneo cerebral ou ao desvio de sangue para os músculos mais envolvidos na atividade. A alteração pode comprometer o controle central do movimento em pessoas mais velhas.
Nos músculos, também foram observadas diferenças. Os jovens apresentaram aumento da desoxihemoglobina no vasto lateral, músculo localizado na coxa, indicando captação de oxigênio para a produção de energia. Esse ajuste não foi observado entre os idosos.
O estudo sugere que o envelhecimento prejudica a relação entre a entrega de oxigênio e sua utilização pelas mitocôndrias, estruturas responsáveis pela produção de energia para as células durante o esforço físico.
Outro resultado observado foi a diferença nos níveis de lactato sanguíneo após o exercício. Os idosos apresentaram concentrações mais baixas do composto, o que, segundo o estudo, sugere menor capacidade dos músculos de ativar esse sistema energético.
Na recuperação, os participantes mais velhos também apresentaram menor saturação de oxigênio periférico e uma reoxigenação cerebral mais lenta em comparação aos jovens. Os resultados indicam, portanto, uma recuperação fisiológica menos eficiente após o esforço.
Impactos para treinamento e reabilitação
Para os pesquisadores, os achados ajudam a compreender a redução da capacidade aeróbia máxima com o avanço da idade. Essa capacidade está relacionada à habilidade do organismo de captar, transportar e utilizar oxigênio para produzir energia durante esforços prolongados.
A pesquisa também aponta para a necessidade de estratégias de exercício voltadas especificamente à dinâmica de oferta e utilização de oxigênio em pessoas idosas. Segundo Diego Orcioli-Silva, compreender essas limitações pode contribuir para o aprimoramento de programas de prevenção e reabilitação.
“Compreender essas limitações hemodinâmicas é um passo fundamental para otimizar programas de prevenção e reabilitação, os quais devem ir além do controle da frequência cardíaca ou da intensidade medida por carga externa”, afirma o pesquisador.
Entre as possibilidades levantadas pelo estudo está o desenvolvimento de estratégias capazes de favorecer adaptações cardiovasculares e metabólicas que sustentem simultaneamente a função física e cognitiva durante o envelhecimento.
Os pesquisadores também apontam novas questões para investigação, como os efeitos da redução da oxigenação cerebral sobre o controle motor, a atenção e o risco de quedas. Outra frente envolve avaliar se diferentes modalidades de treinamento, incluindo programas que combinam atividade física e desafios cognitivos ou protocolos intervalados de maior intensidade, podem melhorar simultaneamente as respostas musculares e cerebrais.
A oxigenação cerebral e muscular também é apontada como uma possível ferramenta para individualizar programas de treinamento e reabilitação de acordo com as necessidades de cada idoso.
Para Fúlvia de Barros Manchado-Gobatto, ainda são necessários estudos mais integrativos e específicos para diferentes populações. “Este é um campo que, apesar de sua relevância clínica e social, ainda é pouco explorado na literatura científica”, observa.
O trabalho integra as pesquisas do Lafae sobre hipóxia, condição caracterizada pela redução da oferta de oxigênio ao organismo, e suas relações com a fisiologia do exercício. O laboratório investiga o tema tanto no contexto esportivo quanto na área da saúde, incluindo estudos sobre as adaptações provocadas pela exposição a altitudes elevadas.
