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Saúde mental na terceira idade exige atenção

O Brasil está envelhecendo. Entre 2012 e 2024, o número de pessoas com 60 anos ou mais passou de 22 milhões para 34,1 milhões, um crescimento de 53,3%, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O avanço da população idosa amplia também a necessidade de discutir qualidade de vida, autonomia, vínculos sociais e saúde mental na terceira idade.

Uma pesquisa desenvolvida na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) identificou sintomas depressivos em 34,09% dos adultos mais velhos participantes que viviam em áreas urbanas. Entre as mulheres, o percentual chegou a 43,8%, enquanto entre os homens foi de 24,5%.

O estudo faz parte de uma tese defendida em agosto de 2025 e utilizou informações da linha de base do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (Elsi-Brasil). Foram analisados dados de mais de 7 mil moradores de áreas urbanas brasileiras com 50 anos ou mais, entrevistados entre 2015 e 2016.

É importante destacar que os resultados apontam a presença de sintomas depressivos identificados pelo estudo e não significam que todos os participantes tivessem diagnóstico clínico de depressão.

O ambiente onde o idoso vive também importa

Além de investigar a ocorrência de sintomas depressivos, a pesquisa avaliou a relação entre saúde mental e características físicas e sociais das vizinhanças. Fatores como desordem urbana, ruído, insegurança, ausência de espaços agradáveis e baixa coesão social apareceram associados a uma maior presença de sintomas depressivos.

O levantamento também identificou diferenças relacionadas às condições socioeconômicas. Pessoas negras, pardas e com menor renda per capita relataram com maior frequência viver em bairros marcados por insegurança, desordem física, menor agradabilidade e menor confiança ou apoio entre vizinhos.

Entre as mulheres, a percepção de problemas relacionados à mobilidade e à ausência de coesão social também apareceu com maior frequência.

A relação entre o ambiente e o bem-estar pode ganhar importância durante o envelhecimento. Com limitações físicas, redução da renda, problemas de saúde ou menor acesso ao transporte, o bairro tende a ocupar um espaço maior na rotina. Calçadas irregulares, falta de acessibilidade, medo de quedas e insegurança podem dificultar até atividades simples, como caminhar, fazer compras ou encontrar outras pessoas.

Solidão e isolamento social também entram nessa discussão

A conexão social é outro aspecto que vem sendo estudado em relação à saúde mental das pessoas idosas. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o isolamento social pode atingir até uma em cada três pessoas idosas.

Isolamento social e solidão, porém, não são sinônimos. O isolamento está relacionado à ausência objetiva de contatos e interações sociais, enquanto a solidão corresponde à percepção de não ter os vínculos ou a companhia desejados. Assim, uma pessoa pode morar sozinha e não se sentir solitária, enquanto outra pode viver acompanhada e ainda experimentar sentimentos de solidão.

A OMS também aponta que pessoas que vivenciam solidão apresentam maior probabilidade de desenvolver depressão. Uma meta-análise publicada em 2026, que reuniu 11 estudos sobre isolamento social e exclusão digital entre idosos, encontrou associação entre essas condições e uma probabilidade 60% maior de apresentar sintomas depressivos, além de resultados menos favoráveis relacionados à capacidade física.

Convivência faz parte da qualidade de vida

O afastamento da vida social nem sempre acontece de forma repentina. Muitas vezes, começa com pequenas mudanças na rotina.

“O idoso começa recusando um passeio porque está cansado ou sente medo de cair. Depois deixa de ir à igreja, de visitar amigos e até de acompanhar a família em compromissos simples. Quando ninguém observa essa mudança ao longo do tempo, permanecer dentro de casa pode acabar se tornando a rotina”, afirma Bruno Butenas, fundador da Geração de Saúde.

Nesse contexto, manter atividades de convivência não significa necessariamente participar de grandes eventos ou fazer viagens. Caminhar em uma praça, visitar um familiar, frequentar um grupo comunitário, ir a uma feira, participar de uma celebração religiosa ou simplesmente tomar um café fora de casa podem fazer parte de uma rotina mais ativa e conectada.

A escolha das atividades, no entanto, deve considerar os interesses, a condição física e o grau de autonomia de cada pessoa. Um passeio que exige longos deslocamentos pode ser inadequado para quem se cansa facilmente, enquanto uma atividade próxima de casa, com pausas e apoio para caminhar, pode ser mais confortável.

Mais do que criar uma agenda de compromissos, o objetivo é preservar a autonomia e respeitar as preferências da pessoa idosa.

Quando o acompanhamento pode ajudar

Quando familiares não conseguem acompanhar todas as atividades, profissionais de cuidado podem auxiliar em deslocamentos, consultas, exames, passeios e outras situações da rotina. O apoio pode incluir preparação para a saída, auxílio na mobilidade, hidratação e observação de sinais de cansaço ou desconforto.

“A presença profissional deve ampliar as possibilidades do idoso, e não decidir por ele. Antes de organizar uma saída, é necessário conhecer suas preferências, entender suas limitações e avaliar o tipo de apoio necessário. Para algumas pessoas, o objetivo pode ser voltar a caminhar no bairro. Para outras, participar de um encontro familiar ou retomar uma atividade que fazia parte de sua história”, explica Butenas.

Esse acompanhamento, entretanto, não substitui avaliação médica ou psicológica e não tem função de diagnosticar ou tratar depressão.

Mudanças de comportamento merecem atenção

Alterações persistentes na rotina também podem indicar que algo não vai bem. Perda de interesse por atividades antes apreciadas, isolamento crescente, mudanças no sono ou no apetite, irritabilidade, falta de energia, desesperança e comentários recorrentes sobre morte são sinais que precisam ser observados.

Quando essas mudanças aparecem de forma persistente, especialmente acompanhadas de sofrimento intenso ou risco para a própria pessoa, é importante buscar avaliação de profissionais de saúde.

A saúde mental dos idosos é influenciada por diferentes fatores, como luto, dor crônica, perda de capacidade funcional, doenças, redução da renda, violência, solidão e dificuldade de acesso aos serviços de saúde. Por isso, convivência, autonomia e participação social fazem parte de uma rede de cuidado, mas não substituem diagnóstico e tratamento quando necessários.

Envelhecer com autonomia também passa pela vida social

O crescimento da população idosa coloca o envelhecimento saudável no centro das discussões sobre saúde e qualidade de vida no Brasil. Mais do que ampliar a longevidade, o desafio envolve criar condições para que as pessoas continuem participando da comunidade, mantendo vínculos e exercendo sua autonomia.

Nesse cenário, observar mudanças de comportamento, estimular a convivência de maneira respeitosa e garantir acesso a espaços seguros e acessíveis são medidas que podem contribuir para uma rotina mais ativa. O cuidado, porém, precisa considerar cada história, cada limite e, principalmente, a vontade da própria pessoa idosa.