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 No rumo certo

Traduzindo bem o que é uma pessoa multifacetada, Saulo Alexandre Picanço Sisnando – mais conhecido como o escritor, dramaturgo, ator,mestre em artes, funcionário público e diretor teatral Saulo Sisnando – não escolheu ou sonhou ser uma coisa só na vida. Para ele, tudo aconteceu meio ao contrário: foi a vida quem o escolheu, e para representar vários papéis com a naturalidade e consciência que lhe são características.

Nascido em Juazeiro do Norte, no Ceará, veio para Belém ainda pequeno com a família, de onde fez sua casa e palco para os mais diversos trabalhos que viria a desenvolver na capital do estado. Mesmo sendo ainda bem jovem, aos 35 anos, Saulo tem um currículo extenso e acumula vários trabalhos para o teatro, produção audiovisual, atuação e criatividade artística. Entre eles, quatro contos premiados e publicados pela Universidade Federal do Pará ("Lembranças de Paris", "Colares de Contas", "Cai o Pano", "Horas Silenciosas"); o romance fantástico infanto-juvenil "Puzzle - Tenha fôlego para chegar ao fim!"; e vários espetáculos roteirizados e dirigidos por ele – como “Útero – Fragmentos românticos da vida feminina”, “popPORN – Sete vidas e infinitas possibilidades de corações partidos”, “Cartas para ninguém” e “Quatro versus Cadáver”.

Já seria o suficiente para qualquer um estar orgulhoso de seus feitos, desacelerar e curtir os louros. Para Sisnando, ainda era pouco. Por isso, decidiu se aventurar em terrenos novos, como “O misterioso desaparecimento de Deborah Rope” (2011) – um espetáculo teatral que mistura teatro e vídeo no palco, o que foi chamado pelo autor de “peça-filme” – e, mais recentemente, a divertida websérie “A Solteirona: como sobreviver ao maior pé na bunda do século”, onde ele interpretou o personagem Guto, sobre seu próprio roteiro e direção.

Saulo afirma que tem paixão por tudo que faz, e que não se divide em suas várias funções – e sim se multiplica para dar vazão às muitas vozes que possui. O site da Revista Leal Moreira lhe apresenta uma das mentes mais criativas de Belém, dentre aquelas que movem a produção artística da atualidade. Confira:

 

Revista Leal Moreira - Quando você decidiu que deveria se dedicar a dramaturgia? Desde quando começou esse interesse pelas artes?

Saulo Sisnando - Eu sempre fui muito apaixonado pela literatura. Antes de escrever dramaturgias, eu já tinha escrito vários contos e um romance infanto-juvenil. Num outro polo da minha vida estava o teatro, que eu fazia desde a minha adolescência. Assim, a dramaturgia surgiu como um caminho natural de junção destas duas paixões: a literatura e o teatro. A literatura é linda, mas às vezes é muito solitária. A dramaturgia, como precede uma montagem, envolve atores, técnicos... Várias outras vidas que, com mais ou menos intensidade, influenciam na construção do texto. Ademais, considerando que todos os meus atores e técnicos são, antes de tudo, meus grandes amigos, escrever dramaturgia é saber que em breve estarei ao lado de pessoas que amo.

 

Revista Leal Moreira – Você é escritor, dramaturgo, ator, diretor e funcionário público. Com tantos papéis a assumir, como se dividir ou ter dedicação especial a algum deles?

Saulo Sisnando - Não me divido, sou tudo ao mesmo tempo e o tempo todo. Para mim, essa divisão é impossível e muito cartesiana. Sou um funcionário melhor no Tribunal exatamente por ser escritor/ator e o grande diferencial de meus espetáculos reside no fato do autor ser um funcionário público.

 

Revista Leal Moreira - Qual dessas atividades é sua preferida?

Saulo Sisnando - Quando estou preenchendo formulários sempre escrevo que sou “escritor”. Escrever é minha atividade preferida, embora seja a mais difícil. Mas eu só amo coisas e pessoas difíceis.

 

Revista Leal Moreira - Chama atenção a sua proposta de “Peças-Filmes”. Como seria exatamente isso, e por que investir nesta ideia?

Saulo Sisnando – “Peças-filme” são obras de arte que misturam teatro e cinema por meio de vídeos, cortes, abstrações, referências etc. Na atualidade, as fronteiras entre as artes estão cada vez mais frágeis, nesse entendimento não há nada de revolucionário no diálogo entre as artes; é apenas um caminho natural.

 

Revista Leal Moreira - As pessoas gostam dessa, relativamente, nova proposta?

Saulo Sisnando - O público gosta do que é bom. Não importa se é peça-filme, melodrama, comédia... Se tiver verossimilhança, o público vai gostar, independente da formatação da obra. Mas percebo um grande interesse das pessoas nesse formato, afinal o audiovisual faz parte de nossas vidas, seja em filmes, novelas ou internet... Então inserir a linguagem audiovisual no palco aproxima a peça do cotidiano do público.

Revista Leal Moreira - E as webséries? "A Solteirona" foi um sucesso. Você pretende continuar investindo nesta categoria?

Saulo Sisnando - Sim! Espero fazer muitas outras webséries. Me diverti muito escrevendo, filmando e acompanhando a repercussão da obra. Vejo a internet não apenas como o futuro das obras audiovisuais, mas um como caminho fértil para a arte em geral. A internet acaba com a figura (muitas vezes censora) do mediador. Você não precisa de uma editora para publicar um livro; você simplesmente transforma seu livro em e-pub e lança o livro virtualmente sem precisar que uma editora diga que seu livro tem potencial. O público torna-se teu primeiro e único critico. A internet revela escritores, atores, fotógrafos etc.

 

Revista Leal Moreira - Na série você também interpreta. O que é melhor? Escrever e dirigir ou atuar?
Saulo Sisnando - As três coisas são super divertidas. É ótimo participar de todas as etapas da construção da obra de arte. Cada atividade foi interessante em um momento.

 

Revista Leal Moreira - Como é a aceitação das pessoas? Existe uma faixa etária que se identifica mais e outra menos?

Saulo Sisnando - Ao longo da minha carreira descobri que não há uma faixa etária, nem um público certo. Quando escrevi “A Solteirona”, achei que apenas as jovens mulheres e os gays curtiriam. Mas durante o processo - já nas filmagens - percebi que todos se divertiam muito. Todos tiveram um João Ricardo na vida. E depois de pronta, já na web, foi visível como a série ultrapassou o publico inicial. Recebi depoimentos calorosos de donas de casa, pais de família, vovôs, mulheres de 40, 50 anos. Enfim, todos que já sofreram desilusões amorosas pareceram curtir muito a websérie.

 

Revista Leal Moreira - Quais são seus próximos projetos? O que vem por aí?

Saulo Sisnando - Tantos que não caberiam neste espaço... Virão novas webséries, livros e espetáculos teatrais em breve.

 

Revista Leal Moreira - Quais as sua inspirações no universo cinematográfico, teatral e até mesmo das webséries? Quais são seus referenciais?

Saulo Sisnando - Minha pesquisa envolve a influencia do cinema americano na arte. Então, naturalmente minha maior influência é o cinema americano, mesmo que tantos o considerem esquemático e cheio de clichês. Minhas obras são cheias referências a comédias românticas, filmes de terror, ação e blockbusters em geral. Cinéfilos, sem dúvida, se divertem com minhas obras, buscando as pistas/pegadinhas fílmicas escondidas no palco. Sou muito apaixonado também por melodramas hollywoodianos antigos e filmes noir. A importância da trilha sonora em “A Solteirona” vem, por exemplo, desta referência aos melodramas americanos.

Revista Leal Moreira - Revista Leal Moreira - O que os que sonham com este universo têm que fazer para ganhar um lugar ao sol? O que você aconselharia?

Saulo Sisnando - Faça. Simples assim. Fale menos, reclame menos e faça mais.
Não se preocupe com o que os outros estão fazendo, se há pessoas melhores do que você, se outros artistas gostam do que você faz... Se preocupe apenas com o público, com as pessoas que você gostaria de tocar com sua obra... E trabalhe muito. Tenha muitos projetos na manga, porque a maioria deles nunca vai sair do papel. Então se meta em vários projetos, porque um deles, por Deus, vai ter de dar certo.

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