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A busca pelo paraíso

Uma espécie de loucura mansa, prazerosa e incurável. Era assim que José Mindlin, o maior bibliófilo brasileiro, definia a paixão pelos livros. Curiosamente, um dos maiores romances da literatura universal conta justamente a saga de um homem que enlouqueceu por ter lido livros em demasia – todos eles sobre cavalaria. Não tardou para que, alguns capítulos depois, o insaciável leitor se tornasse, ele mesmo, um cavaleiro errante e destemido que travava lutas contra moinhos de vento. E foi desta forma que o cinquentão Alonso Quijana autointitulou-se fidalgo Dom Quixote de La Mancha, pelas mãos do espanhol Miguel de Cervantes, em 1605. Já o escritor francês Gustave Flaubert, em seu primeiro conto, Bibliomania (publicado em 1836, quando ele tinha apenas 15 anos), relata a história de um homem que, de tão louco pelos livros, chega a assassinar um rival na disputa pela posse de uma obra rara.

Falecido em 2010, Mindlin formou, ao lado de sua mulher, Guita, a mais impressionante biblioteca colecionada por uma pessoa física no Brasil, com cerca de 40 mil volumes. Os livros hoje fazem parte do acervo da Universidade de São Paulo, sob o nome de “Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin”. Mas o casal é apenas um dos representantes mais famosos de uma tribo universal e antiga: a dos devoradores de livros. O nascimento de uma legítima representante desse grupo de obcecados é retratado no conto “Felicidade Clandestina”, de Clarice Lispector: uma menina que, ao conseguir um exemplar de “Reinações de Narizinho”, clássico infantil assinado por Monteiro Lobato, passa a comportar-se não mais como “uma menina e seu livro”, e sim como “uma mulher e seu amante”.

É comum que os apaixonados pela leitura, como a personagem de Clarice, tenham uma fascinação pelo livro como objeto. De volume em volume, formam-se bibliotecas que muitas vezes se tornam maiores que a casa de seus proprietários. É o caso do economista Carlos Lessa, ex-presidente do Banco Central. Ao perceber que os 20 mil livros da coleção que mantém ao longo de toda sua vida já ocupavam um andar inteiro da casa onde mora com a família no bairro do Cosme Velho, no Rio de Janeiro, ele então decidiu alugar um sobrado exclusivamente para guardar sua biblioteca particular.

Outro leitor convicto, o jornalista e escritor Ruy Castro, tem as paredes de seu apartamento quase totalmente ocupadas por dez estantes “temáticas”, organizadas a partir de seus maiores interesses, entre eles a cidade do Rio de Janeiro, Cinema, Literatura e Música. Numa tentativa de explicar essa paixão em uma de suas recentes colunas para o jornal Folha de São Paulo, Ruy afirma que a fascinação de folhear volumes que têm décadas ou séculos de existência é resultado da oposição entre a finitude do homem e a eternidade dos livros.

O poeta Carlos Drummond de Andrade – ele mesmo um apaixonado por livros que chegou a sofrer, muitas vezes, com a insuficiência de recursos para comprar todos os volumes que gostaria – descreve os frequentadores crônicos de livrarias de livros usados, os famosos sebos, como peculiares: “falam baixo, andam devagar. Uns têm a ponta dos dedos ressecada e gretada devido à alergia à poeira, mas, que remédio, se a poeira é o preço de uma alegria bibliográfica?”. Para Drummond, o sebo era uma verdadeira democracia. “Saio deles com a sensação de que visitei não um cemitério de papel, mas o território livre do espírito contra o qual não prevalecerá nenhuma forma de opressão”.

Não é preciso voltar muito no tempo ou ir mais longe para encontrar outros exemplos. Em Belém, um lendário devorador de livros em torno do qual se juntavam diversos outros, foi o escritor Haroldo Maranhão, que, ao longo da vida, organizou uma biblioteca de preciosidades das literaturas brasileira e portuguesa e um acervo excepcional de documentos raros e obras de arte. Proprietário da livraria extinta Dom Quixote, localizada na Avenida Presidente Vargas, logo abaixo do famoso Palácio do Rádio, Haroldo a transformou num ponto de encontro de intelectuais, nos idos da década de 1940, chegando a receber a visita de ilustres como o filósofo francês Jean Paul Sartre. Entre os viciados em livros que por lá circulavam estavam o poeta Mário Faustino e o filósofo Benedito Nunes. Benedito, por sua vez, juntamente com sua esposa, Maria Sylvia, formou uma espetacular biblioteca – ou melhor, bibliotecas, no plural – em sua casa na travessa Estrela (hoje, Mariz e Barros), no bairro do Marco, onde recebiam generosamente quem os procurasse até a morte de Benedito, em 2011.

A tribo de adoradores de livros é, no entanto, formada em sua maioria por anônimos. Pessoas que passam a vida orbitando em torno de bibliotecas e livrarias – com exemplares novos ou usados – ou qualquer outro ambiente onde haja livros à vista. Gente que, ao ser recebida na casa de alguém, já na entrada inevitavelmente lança um longo e analítico olhar para as estantes em busca de títulos familiares, desconhecidos, surpresas e descobertas. Ou que, caminhando despretensiosamente na rua, é capaz até de sentir o “cheiro dos livros” antes de, na esquina mais próxima, dar de cara com uma livraria – um lugar considerado pelos amantes dos livros como uma espécie de “paraíso”, conforme definiu Jorge Luis Borges.

É bom lembrar, todavia, que a maioria dos apaixonados por livros está longe de ter a destreza de um José Mindlin ou Benedito Nunes. A livreira Lilian Dorea reuniu no blog(e depois no livro de mesmo nome) “Manual Prático de Bons Modos em Livrarias”, uma série de histórias anedóticas e curiosas sobre as trapalhadas de leitores distraídos, esquecidos ou apenas muito teimosos. São casos de obras com nomes trocados e enredos de livros que não existem, entre outras situações engraçadíssimas, que ajudam a reforçar a ideia de que essa é, realmente, uma tribo de loucos. Mas, também é fato, um dos maiores prazeres que um devorador de livros pode ter é exatamente o de contagiar o maior número possível de pessoas com essa encantadora obsessão e com suas, na maioria das vezes, divertidas consequências. Transmitir, como disse José Mindlin, essa “loucura mansa” e torná-las também parte desse bando de loucos.

 

Templo dos adoradores de livros

Fundação Cultural Tancredo Neves

Sede da biblioteca Arthur Vianna, com um acervo de mais de 700 mil itens e que, no setor de obras raras, abriga a biblioteca do escritor Haroldo Maranhão. Também conta com uma excepcional coleção de obras sobre o Pará. A coleção de jornais é considerada uma das mais completas do Brasil.

 

BibliotecaNacional

A Biblioteca Nacional do Brasil é uma das dez maiores bibliotecas nacionais do mundo e também a maior da América Latina. Seu acervo é calculado, atualmente, em cerca de nove milhões de itens. O núcleo inicial da biblioteca chegou ao Brasil juntamente com a família real portuguesa, em 1808.

 

Real Gabinete Português de Leitura

O Real Gabinete Português de Leitura, com acervo de 350 mil volumes, possui a maior e a mais valiosa biblioteca de obras de autores portugueses fora de Portugal. Destaca-se pela beleza do prédio, que remete a uma verdadeira viagem no tempo e pelo empréstimo de livros.

 

Biblioteca Mário de Andrade

Fundada em 1925, é a maior biblioteca pública da cidade de São Paulo e a segunda maior biblioteca pública do país, superada, apenas, pela Biblioteca Nacional.  A Biblioteca Mário de Andrade possui um dos maiores acervos do país, formado por livros, periódicos, mapas e multimeios.

 

Universidade de Coimbra

Considerada uma maravilha arquitetônica, a biblioteca da Universidade de Coimbra completou 500 anos de fundação em fevereiro deste ano. No seu acervo de mais de um milhão de livros, especialmente em português e latim, um dos maiores tesouros é um dos exemplares da primeira edição de Os Lusíadas.

 

Boekhandel Selexyz Dominicanen e El Ateneo

Tidas como as duas mais belas livrarias do mundo. A primeira se localiza em Maastricht, na Holanda, dentro de uma igreja dominicana do século XII que teve a estrutura gótica conservada, e estantes adicionadas para acomodar os milhares de livros. A outra, em Buenos Aires, foi construída no Teatro Grand Splendid, famoso pelas apresentações de tango.

 

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