Recente atração do Festival de Cinema de Cannes, Gaby Amarantos está em franco avanço no caminho que foi previsto e hoje se anuncia inevitável: conquistar o mundo. Segundo a assessoria da cantora, as próximas paradas serão Londres e em Nova York, onde ela irá se apresentar. O convite mais recente veio diretamente da Cidade-Luz, Paris. Felizes com o sucesso da cantora e na torcida por degraus cada vez mais altos, a Revista Leal Moreira aproveita para lembrar que já trouxe, nas páginas de sua edição nº 32, uma ótima entrevista com a estrela do momento. Em um papo intimista e descontraido, ela contou tudo sobre carreira, música e o amor pelo que faz. Confira:
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Tinha tudo para ter a carga dramática de uma ópera italiana: ao centro do palco, a cantora negra, pobre e nascida na periferia viveria a própria trajetória ao largo dos olhos da sociedade até o último agudo – que, tal qual a árvore do dilema de George Berkeley, jamais saberíamos se fez barulho ou não. Mas aqui, a protagonista é autora da sua própria história, e soube escolher que palco seria sua casa.
Gabriela Amaral dos Santos comprimiu seus sobrenomes e virou Gaby Amarantos, reescrevendo não só seus rumos pessoais, mas também os de uma música que, ora marginalizada, revolucionou a produção fonográfica e ganhou o país. No palco do Theatro da Paz, o maior templo da cultura paraense, Gaby conversou com a Revista Leal Moreira. De discurso sólido e muito consciente do papel que escolheu para si, a cantora vive seu melhor momento – queridinha de Nelson Motta, do produtor Carlos Eduardo Miranda e eleita “artista da semana” pelo jornal inglês The Guardian, em meados de fevereiro – de um jeito muito tranquilo. Aos 33 anos, com 10 de carreira e um filho de 2, Gaby faz barulho sim, e está visivelmente em paz. No palco e consigo.
Revista Leal Moreira: Você começou a cantar na igreja e foi afastada pelos padres por usar roupa curta e ser animada demais. Olhando pra trás, você acha que já era artista desde pequena?
Gaby Amarantos: Já. Minha mãe era meio mãe de miss e eu era cobaia dela. Eu usava umas botas de croché, e até onde lembro eu era a única criança que usava. Ela fazia de lã rosa. Imagina isso no nosso clima? Quente pra caramba e eu com essas botas até o joelho (risos). Eu tinha um caderno de desenho, só com figuras que eu dividia como estilista, criava vários figurinos... Sempre tive esse pezinho na arte. Na escola, quando tinha encenação ou dança, eu queria sair na apresentação de todas as salas. Eu sempre fui muito “apresentada”.
RLM: Qual a primeira recordação que você tem do desejo de transformar a música em uma profissão? Como tudo começou?
GA: Cantando na igreja. Acabava a missa, a gente pegava os instrumentos e ia pra pracinha tocar música popular. Eu queria fazer isso da vida, mas não pensava em sair da igreja. Talvez se não tivessem me afastado, nada disso tivesse acontecido. Um dia eu fiquei triste e fui com uma amiga a um bar, que nem existe mais no Jurunas (bairro de Belém). Lá encontrei um conhecido tocando violão. Dei uma canja e ele me convidou pra tocar com ele: “Eu toco todo dia, eles dão comida, 30 reais...”. Fiquei toda empolgada (risos). Meu primeiro cachê foi um prato de sopa. Foi aí que começaram a dizer: “Devias cantar em festival” ou “ah, se o Nilson Chaves (cantor paraense) produzisse um disco teu...”. Queriam me colocar com flor no cabelo e vestidão, mas eu não era aquilo. Foi quando montei a minha primeira banda de tecnobrega, a Tecnoshow.
RLM: Como você chegou à identidade visual que tem hoje?
GA: Levou tempo. Quando eu cantei na Pororoca (casa de show, em Belém) pela primeira vez,
pensei: “vou já fazer uns figurinos pro povo me olhar”. Fiz minha primeira bota de papel camurça. Costurei num sapato de cano alto, coloquei o zíper... Quando eu entrei de bota, todo mundo estranhou. Aí vi o que o figurino causava nas pessoas e comecei a inventar um look novo toda semana. Fazia peruca de cabelo de boneca, passava glitter na boca. O Hermano Vianna me conheceu na casa de uma das bailarinas da minha banda. Eu estava sentada no chão com todos os meus figurinos espalhados. Ele sentou do meu lado e disse que eu era meio super-herói misturada com não-sei-o-quê de asteca e eu não sabia que isso seria alguma referência. Hoje eu já posso ter mais acesso à moda, então posso dialogar com pessoas do quilate do Valério Araújo, André Lima... Enfim, descobrir novos estilistas... Hoje é mais consciente.

RLM: Você exalta seu bairro, o Jurunas, aonde quer que vá. É sua maneira de manter os pés no chão?
GA: Quem nasce no Jurunas cresce no meio da feira, da caixa de som anunciando a festa de brega, do bar tocando música regional o dia inteiro... Você cresce sem preconceito musical algum. É multicultural. Teve um show meu lá e na plateia tinha pai de família com esposa e filho, criança junto com homossexual, playboyzinho junto com vigia... As pessoas são muito livres na periferia. As mulheres não estão preocupadas se não entram na calça 36 ou se a raiz do cabelo tá escura e o resto tá loiro. Não têm medo de ir pra aparelhagem, depois sair na escola de samba e dançar quadrilha no mês de junho. Eu quero que meu filho cresça lá. Aquele lugar me formou, junto com a educação que a minha mãe me deu, com a igreja que eu frequentei.
Recentemente, recebi uma equipe da BBC de Londres, e eles ficaram encantados com o que viram. Só o belenense que não vê isso. A gente tem mania de depreciar nossa cultura e só valorizar quando ela é valorizada por alguém de fora. O tecnobrega está nos festivais independentes, nas festas de aparelhagem e nos programas de TV.
RLM: Que fronteiras ainda falta romper?
GA: Ganhar o país. O Brasil tá começando a compreender esse movimento, porque ele traz muita novidade. Eu, como representante que já carrega isso há dez anos, também causo estranheza. Sou uma artista nova, com um figurino e um timbre de voz diferentes, que tem um discurso, traz um movimento... É muita informação. Eu sei que é um processo lento, mas que está sendo solidificado. Lá fora estão começando a entender que não somos só carnaval, então é um momento muito especial para música paraense estar em evidência.
RLM: Como o Brasil entende o tecnobrega?
GA: O Brasil entende que é uma cena nova e que é diferente de todas as fases que a música paraense já protagonizou. Teve aquele momento muito forte da Fafá (de Belém), teve a Leila (Pinheiro), depois veio o momento da banda Calypso, que foi muito importante porque veio avisando: “Isso e muito mais você só vai encontrar no Pará”. Fez com que as pessoas tivessem essa curiosidade. Eu sei que hoje sou a ponta de lança desse movimento, então eu procuro falar de outros artistas aonde eu vou, porque eu acredito que precisa haver continuidade.
RLM: Qual era a primeira coisa que você pensava antes de subir ao palco no início da carreira, e qual a primeira coisa que você pensa hoje?
GA: Era diversão e um negócio que me completava. Hoje a paixão continua, mas agora tem o compromisso de ser uma agente divulgadora dessa cultura. Eu me vejo como alguém que tem uma missão: a de fazer com que as pessoas entendam essa sonoridade, que tenham vários festivais e a gente consiga entrar no mercado de verdade, independente de iniciativas do governo. Que a gente consiga ser independente e fazer as pessoas curtirem esse movimento.
RLM: Novas conquistas trazem novas responsabilidades. Quais são as suas?
GA: Eu tenho uma voz muito forte que me diz que essa é a minha missão: difundir minha cultura. Me sinto meio predestinada. É como se eu tivesse que fazer isso. Quando eu viajo pra participar de programas e apresentações, eu levo discos dos artistas daqui, quero que as pessoas conheçam. Aí tem um lado de mim que diz “mas, Gaby, ninguém nunca fez isso por ti”. E o outro responde “mas você vai fazer. Porque você simplesmente tem que fazer”.
RLM: Hoje você está em festas high society, amanhã na aparelhagem. Como é pra você transitar entre tantos ambientes diferentes?
GA: Pra mim é tranquilo, por eu tratar as pessoas de um jeito só. Se eu vou almoçar peixe frito
com açaí no Ver-o-Peso ou se eu vou à noite num restaurante chique, isso não muda quem eu sou. Do jeito que eu vou tocar num festival, vou a uma feira agropecuária. Hoje canto no show do Zezé di Camargo e do Luciano, amanhã canto com a Orquestra Imperial, no show da Tulipa Ruiz, do Móveis Coloniais de Acaju... O respeito que eu tenho por todos eles é igual. Eu gosto de transitar, pra mostrar pras pessoas que a gente tem que acabar com essa segregação de música. É música brasileira. Todos nós fazemos música brasileira, cada um do seu jeito.
RLM: O tecnobrega começa a ser apontado por alguns como música cult. A que se deve essa nova visão?
GA: A uma série de fatores muito complexos. Por isso eu digo que o tecnobrega é um fenômeno. Ele consegue transitar de um jeito que eu não vejo acontecer com nenhum outro estilo. Eu sou uma dos que mantêm a palavra “brega”, porque não tenho preconceito com ela. As pessoas vão compreender que, pra gente, não é um adjetivo pejorativo, e sim uma ramificação da nossa música. A maneira de você falar do seu sentimento sem frescura, sem vergonha.
RLM: Além dos efeitos profissionais, como você lida emocionalmente com a ideia de cair nas graças de nomes como Nelson Motta e Miranda?
GA: Fico tranquila, não sou de ficar deslumbrada. Hoje em dia eu vou pro Rio e almoço junto com o Nelson, tomo café na casa dele. A Marília Gabriela fez uma entrevista comigo, eu sou fã dela e de repente eu estava ali e pensei “que legal”. Mas era isso, era legal. É muito tranquilo esse momento que eu estou vivendo. Eu sei que é uma fase, e não vou ficar me preocupando. Pra mim, o mais importante é mostrar a arte. Tudo é sobre a arte, sobre a música. Não é sobre quanto tempo eu vou estar na mídia, se vou ter que disputar com a cantora tal ou matar um leão por dia pra continuar aparecendo. É sobre a cultura paraense, que é tão incrível e da qual eu tenho tanto orgulho. Ela é que é importante e é ela que tem que aparecer.
Agradecimentos: Secretaria de Estado de Cultura

Comentários
Neal Adams
July 21, 2022 at 8:24 pmGeeza show off show off pick your nose and blow off the BBC lavatory a blinding shot cack spend a penny bugger all mate brolly.
ReplyJim Séchen
July 21, 2022 at 10:44 pmThe little rotter my good sir faff about Charles bamboozled I such a fibber tomfoolery at public school.
ReplyJustin Case
July 21, 2022 at 17:44 pmThe little rotter my good sir faff about Charles bamboozled I such a fibber tomfoolery at public school.
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