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A persistência da memória
Dois aspectos chamam a atenção quando nos deparamos com a literatura de Milton Hatoum, o romancista amazonense de ascendência libanesa, cuja obra foi traduzida para diversos países, em mais de uma dezena de idiomas – do sueco ao alemão, incluindo o árabe, língua paterna que ele lamenta nunca ter aprendido a falar. O primeiro aspecto é a ambientação de suas histórias, passadas em uma Amazônia de outrora. Nesse cenário, se dá a encruzilhada de dois mundos, notadamente exóticos: o dos habitantes locais e o dos imigrantes árabes. Mas, diferentemente do que possam sugerir de imediato, suas tramas não exploram temas como os mistérios da floresta exuberante, os confrontos envolvendo seringueiros ou o genocídio de comunidades indígenas.

A prosa lírica de Hatoum rompe com uma tradição temática marcada por disputas pelo poder e lendas da tradição ribeirinha. Vai além do regionalismo amazônida e do processo de adaptação do imigrante árabe para dar lugar à diversidade brasileira e sua cultura miscigenada, abordando dramas humanos e questões de caráter intimista, com abrangência universal e apelo atemporal.
 
A segunda particularidade de sua obra é a utilização da memória na construção da narrativa, especialmente quando nos referimos a Relato de um certo Oriente, seu romance de estreia, que este ano completa um quarto de século. O “relato” a que se refere o título é de uma mulher que volta a sua terra natal, Manaus, após longa ausência e se depara com uma paisagem decadente: a cidade que antes conhecia está em ruínas e a família, desintegrada. Encravada em plena floresta amazônica, a capital tem no rio um símbolo que, no livro, serve como metáfora para o ir e vir da memória.
 
Ao revisitar a cidade de sua infância, a narradora é absorvida por lembranças e, como uma espécie de “Sherazade da Amazônia”, segundo definição do próprio autor em alusão ao clássico Livro das Mil e uma Noites, ela conduz a narrativa em que o encontro com os personagens desencadeia histórias sucessivas. Por vezes, as passagens são despertadas por reminiscências sensoriais, como a visão e o olfato. Mas, em meio aos vãos deixados pelo esquecimento, a linguagem também influencia sua memória afetiva. Não se trata exatamente de uma memória nítida, mas estilhaçada.
 
“Escrever uma ficção significa, muitas vezes, procurar lacunas do passado e, nessa busca, procuramos entender um pouco mais do presente e de nós mesmos”, define o romancista, que cita ainda Jorge Luis Borges, uma de suas influências: “O esquecimento é uma das formas da memória”. Na criação literária, acredita Hatoum, a memória caminha lado a lado com a imaginação. Por isso, o esquecimento é tão indispensável, já que é graças a ele que se abre espaço para a invenção.
 
Amazônia para sempre

A infância e a adolescência do escritor se passaram na capital do Amazonas, em um período que antecedeu a Zona Franca. Suas recordações guardam os hábitos e a rotina de uma cidade portuária vibrante e miscigenada, a começar pelo próprio seio familiar: em sua casa, as conversas eram em árabe e em português; e as rezas, voltadas para Meca ou para a igreja católica. Inevitavelmente, esse hibridismo cultural tanto enriqueceu suas referências quanto despertou sentimentos como o de deslocamento e a busca por uma identidade própria – os mesmos que acompanham a maioria de seus personagens. O manuscrito (ainda hoje, Hatoum escreve à mão e evita o computador) de Relato de um certo Oriente percorreu, com seu autor, diversas cidades enquanto ele morava na Europa, até seu regresso a Manaus, onde o livro foi finalizado.


 
Após passar parte da juventude em Brasília e São Paulo para depois se fixar em diferentes cidades do velho continente – num período que considera essencial e determinante em sua formação –, ele hoje reside na capital paulista, de onde não planeja sair. Mas toda sua produção literária, garante Hatoum, estará para sempre imersa em sua memória e nos relatos de uma certa Amazônia.     
 
Um dos aspectos que mais me encantam em sua obra é o fato dela ser pontuada pela memória. Em Relato de um certo Oriente, podemos dizer que ela é o fio condutor. Poderia falar sobre o uso da memória em sua narrativa?
 
Como tudo na literatura, a memória tem uma relação com o tempo. Está relacionada com a passagem do tempo, que é um dos pilares do romance. O romance fala, basicamente, da passagem do tempo. Para um escritor, quanto mais distante [temporalmente] estiver da sua experiência, melhor. A distância temporal ajuda. E é nesse sentido que a memória tem mais liberdade para ser “acionada”, ser usada como um vetor da imaginação. Minhas memórias, assim como minhas origens, estão refletidas nos meus romances.  Mas a memória é também aquilo que a gente esquece. Todo escritor trabalha com as contradições do tempo. Relato é movido pela memória dos narradores: conta a história de uma família árabe em versões diferentes, a partir da memória.
 
A linguagem é outro aspecto importante. Em Relato, ela é farta em significados e também desencadeia a rememoração nos personagens, quando estes voltam a vivenciar experiências do passado por meio de lembranças, trazidas inclusive por palavras. Qual o peso da linguagem em sua obra?
 
A linguagem significa muitas coisas. Ela não é só a sintaxe, é também o som e o movimento da frase. O que dá forma a um romance, conto ou poema é a linguagem. No romance, ela significa toda a estrutura da narrativa. A questão do narrador, o tom do narrador, sua posição, como as personagens falam, qual a relação do narrador com esses personagens... Isso é importantíssimo para o romance, que tem que manter uma unidade, uma coerção interna. E tudo isso faz parte de uma estratégia narrativa.
 
Seu primeiro romance, Relato de um Certo Oriente [Companhia das Letras, 1989], foi prontamente premiado e os livros seguintes também ganharam reconhecimento, foram relançados e traduzidos para vários idiomas. Mas nem todos sabem que Relato não foi sua primeira investida literária e que, antes, você teve alguns insucessos.
 
Sim, claro! Eu já fracassei muito. Não coleciono só prêmios de literatura. Sou um verdadeiro colecionador de fracassos (risos). Tentei escrever poesia e cheguei a escrever alguns contos, na década de 1970. Mas não deu muito certo. Uma de minhas maiores frustrações é não ter conseguido ser um bom poeta.
 
Na década de 1980, você fixou residência na Europa e morou, ao longo de quatro anos, entre Madri, Barcelona e Paris. Essas experiências também se refletiram na sua criação. Fale sobre a importância dessa vivência.
 
Eu queria muito deixar o Brasil naquele momento e ganhei uma bolsa de estudos. Foi uma experiência muito importante. Você sente outro tipo de estranhamento ao ver o país de longe, os amigos, a família... É bom para a imaginação e para o intelecto, para a forma como você pensa e reflete sobre o seu país. Aprendi muita coisa, não apenas com os estudos e as leituras que fiz, mas também com as aventuras, com as pessoas que conheci, com os amores que tive (risos)... As línguas: aprendi um pouco de catalão, em Barcelona, além de espanhol e francês, que já falava um pouco, mas pude aprimorar. Acho que o Relato não teria sido escrito sem o distanciamento possibilitado por essa experiência.
 
Até que você quis voltar para Manaus. Em que momento percebeu que precisava regressar ao país?
 
Quando comecei a sonhar em francês, achei que era o momento de voltar. Achei aquilo muito absurdo e quase afetado... Sonhar em outro idioma!(risos). Senti falta da língua e de muitas outras coisas do Brasil; uma necessidade quase física de voltar. Há escritores que nunca voltaram... Mas eu senti que aquele era o meu momento.
 
Ao retornar, se deparou com uma Manaus desfigurada pela Zona Franca. Qual foi a impressão que teve de sua cidade natal?
 
Manaus era outra cidade. Vi muita destruição e aquilo me marcou profundamente. Era uma cidade que já não era mais minha, não era mais a cidade que eu tinha na memória, era outra coisa... Ainda fiquei bastante tempo lá, 14 anos. Esse contato, digamos, “epidérmico” com a cidade foi importante para mim e para as obras que escrevi depois, Dois irmãos e Cinzas do Norte. Mas já estou fora há muito tempo, tenho minha vida aqui [em São Paulo] e, hoje, não voltaria mais.
 
Você costuma falar muito sobre Graciliano Ramos, que é uma de suas maiores influências. Sua criação está ligada à obra dele?
 
Graciliano foi um dos escritores da minha vida. Tive sorte de ter lido seus romances ainda muito jovem, em Manaus. É meu escritor preferido, com quem mais me identifico. Sobretudo, por ele ter dado um salto do regionalismo para uma literatura universal. Ele me comove por várias coisas: o modo como trata as relações e contradições sociais; a linguagem, que é sempre muito tensa e que diz apenas o essencial. E, do ponto de vista político, quando falamos no homem Graciliano, acho ele admirável. Ele fez críticas contundentes, tanto à direita quanto à esquerda, e reivindicava uma literatura que falasse dos nossos problemas...
 
Você, que também atuou como professor, não hesita em destacar que estudou em escola pública e o quanto o ensino básico que teve, com a leitura, ainda garoto, de autores como Graciliano, contribuiu para sua formação como escritor e cidadão. Certa vez, declarou que considera o aniquilamento do ensino público no país um dos maiores crimes da Ditadura brasileira.
 
Sim. Um dos maiores crimes – e um dos menos comentados – já cometidos pela Ditadura foi a desmontagem de um ensino público razoável.  Isso afetou diretamente várias gerações. A minha é uma espécie de “elo perdido” entre o ensino público promissor de qualidade e o ensino privado. Escolas e universidades particulares se reproduziram em escala exponencial a partir da década de 1970. E o descaso intencional com o ensino público repercute até hoje, de Norte a Sul. Criou uma segregação social no país: os filhos da classe média e elite estudam em boas escolas particulares, enquanto a imensa maioria, de jovens pobres, estuda em escolas públicas, quase sempre precárias. E isso não é democrático. Não temos hoje um estímulo à leitura que venha da escola [na rede pública]. Todo o vazio político do regime militar, a ausência da prática política democrática, gerou esse enorme contingente de políticos malfeitores e irresponsáveis.
 
A quatro mãos, você escreveu com o professor Benedito Nunes o livro Crônica de duas cidades: Belém e Manaus (Secult/PA-2006). Como foi o contato com ele nesse período? Vocês já mantinham uma relação, certo?

Surgiu o convite do Benedito, mas não conversamos durante a escrita dos ensaios. Mas houve outras conversas, em outros momentos, sobre outros assuntos. Mantínhamos um diálogo sobre literatura e filosofia. Ele sempre foi muito generoso com o meu trabalho. Extremamente generoso, escreveu um belo ensaio sobre o Dois irmãos no seu último livro, A clave do poético. Era um crítico literário admirável e uma pessoa importante na minha interlocução. Um grande conversador e intelectual, sem nenhuma pompa, nenhuma arrogância, o que o torna ainda mais admirável. O “Bené” faz muita falta para o mundo intelectual e para a crítica literária e filosófica.
 
Em uma de suas crônicas para o Estadão, “Um mestre butô em Belém”, você narra algumas aventuras em pontos turísticos da cidade. O que é memória e o que é imaginação nela?
 
Tem as duas coisas. Fui a Belém durante as filmagens de Órfãos do Eldorado [seu romance está sendo adaptado para o cinema] e conheci esse mestre butô, que estava dando um curso para os atores do filme. Nós saímos algumas vezes juntos e conversamos bastante. Ele, que mora na Alemanha, havia lido o livro em alemão. Escrevi a crônica a partir dessa experiência, mas inventei várias coisas. O encontro no bar não existiu e o final foi inventado... Inventei quase tudo (risos)!
 
Quer dizer então que a parte da cachaça de jambu é também invenção? Ou você a experimentou mesmo?

Sim, claro que experimentei! Escrevi esse trecho por conhecimento de causa (risos). Experimentei a cachaça de jambu e adorei. É maravilhosa!
 
Suas histórias estão prestes a ser contadas no cinema. Você acompanhou o processo de adaptação? Está ansioso para vê-las na tela grande?

Não participei e quis saber apenas quem iria dirigir. Minha única preocupação é que os filmes mantenham a essência das histórias. No mais, acho que tenho que confiar na equipe responsável. Gosto do trabalho do Luiz Fernando Carvalho [diretor de Lavoura Arcaica e foi ao ar com a novela Meu pedacinho de chão, pela Rede Globo], que está com o projeto de adaptar Dois irmãos. Li o roteiro e achei lindo. Também gosto do Marcelo Gomes [deViajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo], que vai filmar Relato de um certo Oriente. E também do Sérgio Machado [de Quincas Berro D’água], que vai filmar um dos meus contos de A cidade Ilhada. Não há previsão de lançamento pra nenhum deles, mas o Guilherme Coelho já filmou Órfãos do Eldorado. É um jovem carioca que tem raízes do Pará e fez bons documentários. Não vi a montagem, mas os atores são magníficos: Dira Paes, Daniel de Oliveira... Queria ver na tela a essência dos livros, não os livros em si. Mas não fico ansioso, enciumado, nem nada disso.
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