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Anjo Biográfico

Ruy Castro teve um ano bastante movimentado em 2012. Autor de “O Anjo Pornográfico – a vida de Nelson Rodrigues”, o escritor foi referência obrigatória em todos os eventos, reportagens e programas especiais em homenagem ao centenário do jornalista, cronista esportivo e “maior dramaturgo do Brasil”, Nelson Rodrigues, comemorado em agosto passado. Só que, além de ser autoridade quando o assunto é Nelson Rodrigues, ele também é constantemente consultado para falar sobre os mais diversos assuntos, como as recentes efemérides dos 50 anos de lançamento da música Garota de Ipanema e o aniversário de 120 anos da mais famosa praia do mundo, Copacabana.

Ao que tudo indica, 2013 deve seguir o mesmo ritmo, com o centenário de Vinicius de Moraes e de Leônidas da Silva, ícone do futebol brasileiro; além dos 30 anos da morte de Garrincha e dos 50 anos sem Lamartine Babo, compositor de marchinhas e autor de hinos para times de futebol.

A relação com Nelson Rodrigues começou precocemente. Habituado a ficar no colo da mãe enquanto ela lia em voz alta o capítulo de “A vida como ela é”, a coluna de Nelson para o jornal A Última Hora, o pequeno Ruy notou que as letrinhas impressas no jornal faziam sentido. E foi dessa forma que aprendeu a ler e a escrever sozinho com menos de seis anos, e de quebra ainda se transformou, como ele próprio define, “na criança que mais entendeu de adultério”.

Autor de “Carnaval no Fogo - Crônica de uma cidade excitante demais”, Ruy é Cidadão benemérito do Rio de Janeiro e uma fonte privilegiada para quem pesquisa a história da cidade. E também para quem deseja saber algum detalhe sobre o Flamengo – ele escreveu “O vermelho e o negro”, sobre a trajetória do clube. Precisa checar uma informação sobre algum personagem da Bossa Nova? Ruy Castro conta todas as histórias possíveis sobre o movimento em “Chega de Saudade”, “A onda que se ergueu no mar” e “Ela é carioca”. E se a discussão se refere a um dos maiores craques do futebol brasileiro, Mané Garrincha, ninguém pode falar com mais propriedade sobre “o gênio das pernas tortas” que o seu biógrafo.

O trabalho de Ruy como biógrafo, inclusive, é um modelo de pesquisa historiográfica, apuração jornalística e estilo narrativo. E também revela seu caráter obstinado, que beira a obsessão. Tanto que na época em que descobriu estar com câncer de garganta não interrompeu o trabalho: escreveu a maior parte de “Carmen – uma biografia” ao longo do tratamento, mesmo quando estava internado. Depois, voltou pra casa, concluiu os 12 capítulos restantes e lançou o livro que considera seu trabalho mais bem-acabado, com 550 páginas. “O meu medo não era morrer. Era não terminar o livro”, revelou na época do lançamento.

Na entrevista concedida à Revista Leal Moreira, Ruy Castro revela detalhes do processo de trabalho nas biografias, fala sobre suas preferências musicais e antecipa os projetos que pretende desenvolver ao longo deste ano. Mas – a quem interessar possa – ele já avisou, em entrevista concedida em 2006 a um portal na web: “Se alguém quiser escrever minha biografia, será problema dele. Mas só por cima do meu cadáver”.

No último ano, você participou de discussões sobre a vida e a obra de Nelson Rodrigues em diferentes esferas: a jornalística, a teatral e da crônica esportiva. Como avalia as homenagens em comemoração ao seu centenário?

De todos os centenários (ou cinquentenários) de que participei nos últimos anos, este foi o mais bem- -sucedido. Talvez só os 50 anos da Bossa Nova, em 2008, se comparem. Falou-se e celebrou-se Nelson Rodrigues em 2012 no país inteiro. Um dos motivos para isso foi o Nelsinho Rodrigues, filho do homem, que esteve à frente do processo, participando e autorizando, liberando o país para homenagear seu pai. Se você acha isso pouco, pense em outros herdeiros de figuras ilustres, que quase sempre se comportam como abutres, querendo cobrar até por entrevistas sobre seu pai, tio ou avô...

Qual faceta “rodriguiana” é ainda pouco conhecida do grande público?

Estamos falando do maior dramaturgo brasileiro e um dos maiores do mundo. Por incrível que pareça, talvez essa faceta de Nelson ainda continue pouco conhecida do grande público: a do teatrólogo. Acho que muito mais pessoas deveriam ir ao teatro ver suas peças.

Você já declarou que o mais impressionante da vida de Nelson é que ele tenha vivido todos aqueles acontecimentos em uma única vida. Quais fatos desse biografado mais o impressionaram?

O assassinato de seu irmão Roberto, o empastelamento e destruição do jornal de sua família, sua tuberculose, a consagração com “Vestido de noiva”, o megassucesso popular com “A vida como ela é...”, as inúmeras proibições de sua obra, a tragédia de sua filha Daniela, o irmão Paulinho que morreu num desabamento em Laranjeiras, o filho Nelsinho, que ingressou na luta armada e foi preso e torturado por um regime que Nelson até então defendia... Quer mais?

Durante a produção de uma biografia, em que se está imerso na vida daquela pessoa, acontece de o biógrafo “absorver” alguns sentimentos de seu biografado enquanto relata a história?

Sim, não há como o biógrafo não se deixar tocar. Aliás, o biógrafo é o primeiro a se emocionar com a biografia.

Por que você recusou o convite, feito por uma grande editora, para escrever a biografia de Millôr Fernandes, logo depois que ele morreu, no ano passado?

Porque ainda não é a hora de escrever a biografia do Millôr. Nem a de ninguém que acabou de morrer. É preciso dar um tempo para a pessoa começar a ser vista na sua verdadeira medida. Quando morre, todo mundo se emociona e só se veem as suas qualidades.

Você definiu, em depoimento gravado para o Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, que o trabalho do biógrafo situa-se na fronteira entre Jornalismo, Letras e História. Mas a esse conhecimento precisaria estar atrelada uma “vivência de rua”. Por que essa vivência é importante?

Porque uma biografia não se limita à obra do sujeito, refere-se principalmente à vida. Supõe-se que o biógrafo tenha um mínimo de vivência para poder trabalhar com a do personagem. E lugar de vivência é, em grande parte, na rua. E de noite, que é quando as coisas acontecem.

Como funciona seu processo de trabalho com as biografias? É verdade que prioriza o levantamento de informações e documentos para só depois escrever? Qual a média de entrevistas que realiza por livro?

É isso mesmo: primeiro, apurar tudo; e só depois escrever. Acho que uma biografia exige pelo menos de 170 a 200 fontes. A uma média (média, disse eu) de cinco entrevistas por fonte, ponha aí 1.000 entrevistas ou perto disso. Quanto mais fontes e entrevistas, mais rica a narrativa fica e menor é a possibilidade de erros. Com tanta gente falando, pode-se ter certeza de que, se houver um fato escabroso e “secreto” na vida do sujeito, ele inevitavelmente aparecerá.

Trinta anos após a morte de Garrincha, que imagem do “gênio das pernas tortas” ficará na memória do Brasil? Corre-se o risco de o Brasil esquecer Garrincha?

Não, ninguém esquece o Garrincha. Todo ano, no mês da sua morte, saem matérias e criam-se eventos. O problema é que, se existe, a grande parte do material filmado sobre ele está guardada ou sumida. Garrincha não pegou o videotape, só a filmagem em película. Daí a escassez de material. Somos obrigados a ver aquelas mesmas jogadas toda vez...

Ainda hoje há quem não consiga encontrar um único exemplar de “Estrela Solitária” à venda nas livrarias. A reimpressão do livro está liberada?

O livro está liberado desde novembro de 1996 e, se é difícil encontrá-lo, é porque as livrarias só exibem os livros lançados até o mês passado. Mas ele continua vendendo, a uma média de 180 por mês nos meses fracos. Com os 30 anos da morte de Garrincha, em janeiro, as vendas devem ter subido muito. O processo contra a Companhia das Letras é que se arrastou por 11 anos, até 2006, mas foi finalmente liquidado.

Qual sua opinião sobre a legislação brasileira para as biografias não autorizadas? O que ainda precisa ser compreendido – ou discutido – em torno dessa questão?

Tudo já foi discutido, não há mais nada a falar. O que é preciso é que os deputados votem o raio da lei e liberem as biografias. Biografia é biografia não autorizada, o resto é conversa fiada.

“Garota de Ipanema” completou meio século e, ainda hoje, existem lendas que cercam a música. A mais famosa, provavelmente, é a de que foi composta por Tom e Vinicius durante uma tarde em que estavam a uma mesa no bar Veloso (hoje Garota de Ipanema). Só que em “Chega de Saudade”, você esclarece que não foi bem assim. Como, na verdade, essa canção nasceu?

Tom e Vinicius viram a jovem Heloisa passar, acabaram de beber seu uísque, pagaram e cada qual foi para sua casa. Algumas semanas depois, nasceu um samba. A música foi feita na rua Barão da Torre, 107 [para onde Tom tinha se mudado depois da Nascimento Silva, 107]. E a letra, num apartamento no Parque Guinle e numa casa em Petrópolis, ambos da bela Lucinha Proença, com quem Vinicius era casado na época. Pode-se imaginar uma canção daquela riqueza feita numa mesa de bar? Além disso, os donos atuais do botequim, que tanto gostam da história de a canção “ter sido feita lá”, se esquecem (ou não sabem) que o proprietário na época proibia que se tocasse violão nas mesas...

Certa vez, em claro tom de brincadeira, você afirmou que Nelson Motta, seu colega, tem um problema: “ele gosta de tudo!”. Já você é conhecido por deixar claro aquilo de que não gosta. Por que você não gosta de rock?

Porque gosto de música. Por sorte, o século XX produziu grande música popular até mais ou menos 1970 – donde tenho muito o que escutar até morrer.

Pra você, o que a música precisa ter para ser digna deste nome?

Beleza. Ou criatividade. E, principalmente, musicalidade. Gosto de ouvir música tocada por músicos, não por enganadores. Não estou aqui para ouvir esporro, pancadaria, urros.

Mas não há o que se salve no rock? Nem Beatles, Rolling Stones, Bowie ou Dylan?

Os Beatles eram extraordinários – sempre foram muito musicais. Há até quem ache que eles não fazem rock, de tanta música que suas canções contêm. Quanto aos Rolling Stones, como dizia o Truman Capote (que era amigo deles), “Se as letras dos Rolling Stones fizessem sentido, seriam péssimas”. Bob Dylan sempre foi o rei dos chatos, o chato supremo. E David Bowie, sinceramente, mal sei quem é ou foi – cantava, rebolava, tocava sanfona, fazia o quê?

Além da música feita de 1970 pra cá, você também não aprecia o cinema contemporâneo – exceto alguns filmes do Woody Allen... Há mais alguma exceção no cinema atual?

Deve haver, mas não me interesso. Suponha que eu só me interessasse por literatura do século XIX – alguém ficaria me cobrando por não ter lido o último livro do Paulo Coelho? Não. Ou que eu só gostasse de música clássica, do Beethoven pra trás – alguém ficaria me cobrando por não ter ainda ouvido o último disco do Lobão? Não. Isso só acontece com o cinema. Ninguém entende que eu só me interesse pelo cinema de 1970 para trás. “Ah, mas você está perdendo o Fulano, o Beltrano...” (Suspiro) Então, tá, estou perdendo, azar o meu...

Entre os seus projetos para 2013 há algum romance ou biografia?

Vou fazer um livro de imagens sobre Carmen Miranda, a sair no fim do ano, juntamente com a abertura do novo Museu da Imagem e do Som do Rio, que terá Carmen como âncora. E, se conseguir terminar, um romance para a Alfaguara, cujo personagem principal é D. Pedro II.

Em “Terramarear - Peripécias de dois turistas culturais” (Companhia das Letras, 2011), escrito a quatro mãos com sua esposa [a também escritora Heloísa Seixas], há o relato de sua visita a Belém e do encontro com a tradicional maniçoba. Como foi essa experiência? Quais recordações guarda da cidade?

Quando estive em Belém pela primeira vez, em 1983, conheci o velho Ruy Barata [poeta paraense, autor de “Esse rio é minha rua”]. Convidou-me a jantar em sua casa, serviram-me maniçoba. Até hoje me dou com o Ruy, filho dele, médico em São Paulo. Tínhamos um enorme amigo em comum, Fernando Pessoa Ferreira, que morreu há dois anos, praticamente nos nossos braços. Conheço também o Paulo André, mas não o vejo há séculos. Também sou amigo da Fafá e de muitos paraenses espalhados pelo Brasil. Adoro Belém, já fui aí várias vezes desde 1983 e não deixo de comer maniçoba. Se não vou mais é por falta de tempo mesmo. É uma das cidades fora do Rio em que me sinto mais em casa – gosto da arquitetura, do calor úmido, e acho o máximo estar cercado de tantos torcedores do Flamengo.

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