O Theatro da Paz, ainda fechado, parece ainda maior do que é. No centro do palco, saxofones, trombones, trompetes. Um contrabaixo acústico, guitarra, piano de cauda. Bateria, percussão. Um xilofone! Passo o olho pelo espaço e vou identificando os instrumentos, alguns dos quais eu nunca tinha visto assim, de perto. Os músicos também estão lá, rindo, brincando uns com os outros. Sendo uma banda, como bandas normalmente são – só que grande: vinte e um ao todo. Alguns rostos são conhecidos de outros trabalhos. “Vi Robenare Marques, o pianista, improvisando lindamente no Café da Sol”, eu penso. “Augusto Castro, o Baboo, não é baixista do Fruta Quente?”, é o me ocorre em seguida. Sim, ele é. Também estão lá Marcos Puff, Esdras de Souza... Gente famosa da cena artística paraense. Embora tudo esteja muito leve, não consigo deixar de antecipar certa atmosfera de solenidade. Pode ser só minha natureza ansiosa, mas não é de se esperar algo grandioso com tantos instrumentos – e instrumentistas – glamorosos reunidos?
Então a Amazônia Jazz Band começa sua passagem de som, sob o comando de seu regente e diretor musical, o maestro Nelson Neves. De repente, torna-se real e viva a ideia matemática de que música é vibração. O som está em tudo: na madeira do chão, no pesado tecido preto das coxias. Nas minhas mãos, no peito, nos pés. Não é mais 2014, não é mais Belém, nem mesmo é mais teatro. É jazz. É um swing dos anos 40. A descontração agora é aura. Observo Nelson, e de cara sei que ele também sente, e sente mais. Dá para ver na sua compenetração, no olhar atento a cada músico, que retribui em igual intensidade. No gesto forte, nos sinais e entregas de cada papel dentro da engrenagem. Nas mãos certeiras, no sorriso que vem com olhos fechados quando um movimento da big band sai preciso. Em sua contagem peculiar – “one, two, oh, oh”. Ele interpreta cada passagem, cada solo, cada crescente. As notas, assim como todos os que as executam, são parte do maestro - o cérebro e o coração de um organismo brilhante e em perfeita sintonia.
Estou lá para entrevistá-lo quando o ensaio geral acaba. Conversamos em seu camarim, sobre sua formação nos Estados Unidos, a responsabilidade de reger a Amazônia Jazz Band e a modernização que o grupo viveu desde sua chegada. Se Nelson é um erudito na música, ele é um rockstar na atitude em cena e no jeito de falar. Carismático, bem articulado e muito consciente de seu papel frente ao grupo. Terminamos o papo. Ele volta para o palco; eu, para a coxia. O Theatro está cheio. A big band começa a tocar. O tempo muda, e lá está a música em tudo outra vez – inclusive nos meus olhos marejados.

Há quanto tempo você rege a Amazônia Jazz Band?
Eu cheguei no início de 2012 dos Estados Unidos, onde fiz mestrado e doutorado, e recebi o convite do secretário de cultura para assumir a Amazônia como maestro e diretor musical. No dia primeiro de fevereiro do mesmo ano, eu assumi. Portanto, estou há dois anos à frente do grupo.
A formação de hoje, então, é anterior à sua chegada?
Sim. E antes de eu ir para os Estados Unidos, fui pianista da Amazônia Jazz Band. Eu não sei precisar o tempo em que fiquei na banda. Acredito que foram uns cinco anos. Viajamos muito pelo Brasil, tocando em festivais; viajamos até pela América do Sul. Então eu tenho uma história com o grupo que vai muito além da que teve início em 2012.
Como foi o caminho de pianista a maestro?
O meu instrumento é mesmo o piano. Eu sou um pianista. Mas independente disso, eu sempre me interessei por regência. Antes de pensar em reger a AJB, eu regia corais pela cidade. Regi o coral da Petrobrás, o da Faculdade de Ciências Agrárias do Pará, de igrejas... Já tinha essa formação, e vinha desenvolvendo a prática. Aí viajei para estudar. Lá nos Estados Unidos, os profissionais são formados não só para o seu instrumento. Você não é contratado para lecionar só o seu instrumento. Você ensina, por exemplo, História da Música, Apreciação Musical ou alguma matéria teórica... Eles sempre contratam um músico-professor que possa exercer outros papéis dentro da universidade, proporcionar uma visão mais ampla. Já pensando nisso, aprimorei esse conhecimento – fiz classes de regência, por exemplo. Dirigi, regi grupos, big bands, orquestras. Tudo isso tornou esse caminho mais natural.
O que significou passar a liderar um grupo do qual você já fazia parte?
Nesse tempo que eu estive fora, tive notícias de que a AJB passava por uma fase complicada. Andavam meio sumidos, e estavam realmente precisando de alguém que levasse em frente o trabalho com esses músicos, que são excepcionalmente talentosos. Em primeiro lugar, em função da minha história com eles, já tínhamos um vínculo. Inclusive mandei CDs dos trabalhos que realizei fora do país, para que eles ouvissem o que eu vinha desenvolvendo. Realmente foi motivo de muita alegria pra mim, poder voltar e assumir a Amazônia Jazz Band, que é um grupo incrível – agora não mais do lado de lá, como músico, mas aqui na frente. É uma responsabilidade tremenda dirigir esses músicos, que são profissionais, e acima de tudo estudiosos. Temos professores na formação! E ao mesmo tempo, seria uma honra para qualquer regente que esteja à frente desse grupo. Eu me sinto dessa maneira.
De uns tempos pra cá, A Amazônia Jazz Band adotou uma postura mais descolada e versátil na seleção do repertório – shows temáticos, funk americano, música popular... Como é que você monta o programa?
Isso é uma preocupação minha, e que eu estendo aos músicos também, de agradar ao público. A princípio, a linha da Amazônia trilha a tradição das big bands americanas. É inclusive um privilégio para Belém ter uma banda desse porte - contamos nos dedos de uma mão quantos Estados possuem uma banda como essa – e ainda apoiada pelo governo. Então nós poderíamos priorizar esse jazz clássico, tradicional – como o de uma das bandas mais respeitadas do mundo, e que está em evidência, que é a da Maria Schneider. Mas é aquela apresentação que você vai apenas se você gostar, se identificar muito com o gênero. Nós usamos essa linguagem também. O jazz tradicional continua sendo nossa espinha dorsal.
Mas a questão da cultura popular também pesa, não é?
Sim. Estamos em Belém, no Brasil, um país onde a cultura popular é fortíssima. Então essa é uma das minhas preocupações. Eu abro esse leque por crer que o ecletismo é fundamental na construção desse repertório. Nesses dois anos em que estou aqui, a Amazônia toca swings, funk, música latina, samba, bossa nova... Até carimbó (risos)! Nós temos que ser ecléticos para agradar esse público diverso, para criar essa aproximação. Claro que o pré-requisito é que as coisas sejam bem feitas, que tenham um arranjo marcante. A Amazônia não toca qualquer coisa. É um repertório de alto nível. Às vezes nós testamos um arranjo e abrimos mão dele, porque não tá no nível da banda. Portanto, fazemos o possível para agradar e ampliar nosso público, somos ecléticos, mas sempre com muita qualidade. Se não tiver qualidade musical, preferimos não fazer. É dessa maneira que pensamos.
É uma consequência disso que a AJB esteja tocando com maior frequência?
Sem dúvida, esse é um fator. Mas, além disso, nós – como um grupo da Secult e da Academia Paraense de Música – temos o compromisso de fazer ao menos um concerto por mês. Ocasionalmente, fazemos de fato mais que isso, quando alguém convida a Amazônia para outra apresentação.
Como é a rotina de ensaio da banda?
Nós ensaiamos por enquanto no Teatro Gasômetro, mas teremos em breve sede própria, na Avenida Magalhães Barata. Nossos encontros ocorrem às segundas, quartas e sábados. É bem intenso. Os ensaios são muito puxados. Somos 21 pessoas, mais equipe de apoio, os montadores. Sem eles, não é possível fazer um grande espetáculo.
A cumplicidade de vocês é visível. Como é o clima nos ensaios?
Nossa relação é muito boa. O clima é realmente de uma família, de amigos. Eu exijo muito, cobro muito deles. Eles entendem isso, e procuram atender às cobranças. Mas tudo é sempre num clima de descontração, de respeito mútuo, carinho. É por isso que nós temos esse relacionamento. Não é fácil manter essa relação com tanta gente envolvida, mas as coisas caminham com tranquilidade.
Você ainda fica ansioso antes de uma apresentação?
Sempre. Não somos máquinas, né? Há adrenalina, tensão, expectativa de que tudo dê certo. Na verdade, eu sempre estou preocupado e pensando no concerto que virá a seguir. Termina um e eu fico pensando no outro. Faz parte do jogo.
O que um músico de uma banda como a AJB precisa ter?
Sem dúvida, ele precisa estar continuamente estudando, praticando. Nós trabalhamos com um estilo de música que exige muito do profissional. Eu comparo o jazz com a música erudita. São os dois estilos que possuem essa obrigatoriedade da dedicação constante. A música clássica é a fundação, né? Praticamente todos eles possuem essa base de erudição. O músico precisa estar o tempo todo em contato com seu instrumento, estudando e ouvindo outros músicos. Precisa estudar harmonia, improvisação. Eu sempre que posso abro um espaço e dou alguma aula para eles. O músico precisa estar em dia com a técnica, buscando um desenvolvimento auditivo cada vez maior – e um desenvolvimento sonoro, que é algo fundamental para o jazz. Além de, sem dúvida, estar atento ao outro. Somos músicos de câmara, né? Às vezes, perto de um concerto, costumo dizer a eles para ir ao banheiro com seu instrumento. Isso sinaliza o nível de compromisso que um músico deve ter.

Comentários
Neal Adams
July 21, 2022 at 8:24 pmGeeza show off show off pick your nose and blow off the BBC lavatory a blinding shot cack spend a penny bugger all mate brolly.
ReplyJim Séchen
July 21, 2022 at 10:44 pmThe little rotter my good sir faff about Charles bamboozled I such a fibber tomfoolery at public school.
ReplyJustin Case
July 21, 2022 at 17:44 pmThe little rotter my good sir faff about Charles bamboozled I such a fibber tomfoolery at public school.
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