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Belém de outrora
 
O ‘esgotamento’ do Centro Histórico de Belém é uma pauta em discussão há bastante tempo. Já se falou em tombamento, em recuperação de vias, de imóveis centenários e tudo mais. Mas, para o arquiteto, urbanista, professor da Universidade Federal do Pará (UFPA) e, além de grande entusiasta também coordenador do Fórum Landi, Flávio Nassar, nada disso resolverá a questão. “São 40 anos de atraso quando o assunto é transporte de massa em Belém, de qualidade, de regularidade e, por conta disso, são 400 anos de pressão imobiliária ao centro da cidade e ao centro histórico. Esse alívio só viria se a população pudesse de fato escolher onde morar com a garantia de ter uma condução que em 20, 30 minutos, levasse até o local de trabalho”, resume, categórico.
Para ele, falar sobre a Belém dos 400 anos implica, inevitavelmente, lembrar-se de décadas de omissão que acabaram por fazer da cidade ser o que ela é hoje. “Três séculos atrás nós éramos a terceira cidade mais importante de todo o Brasil. Quando se perdeu para Manaus a ideia de Belém como referência de metrópole na região Norte, muito se perdeu no caminho e não houve um combate efetivo contra isso”, explica. Confira a entrevista completa:
 
Como Belém chegará aos 400 anos em 2016? Quais as suas expectativas?
Eu acho que não vai chegar muito diferente do que está hoje... O que acho que pode diferenciar um pouco são algumas obras que a Prefeitura de Belém está programando e que talvez marquem esses 400 anos. Acho que algumas ações no campo cultural e assim por diante, mas, daqui pra lá, não vai dar pra mudar estruturalmente muito do que nos últimos cem anos que se deixou por fazer em Belém, mais acentuadamente a partir dos anos da Ditadura Militar, quando houve uma política de interiorizar a ação, a presença do Governo Federal e a decisão de transferir para Manaus a centralidade da Região Amazônica. Então, não vai chegar muito diferente. Vejo alguma esperança, talvez, no reforço daquilo no qual nós já somos campeões: que é o nosso amor pela cidade. Acho que a PMB, com a criação da Comissão dos 400 Anos e grande empenho do [prefeito] Zenaldo Coutinho de fazer do ato um grande evento, deve reforçar esse sentimento.
 
 
Não vai dar para fazer o que deixou de ser feito. O que foi e por quê?
O que aconteceu e mais nitidamente nos últimos 50 anos foi a perda de Belém como referência de “metrópole da Amazônia” e penso que isso está expresso nitidamente no fato de não termos sido escolhidos como cidade-sede dos jogos da Copa do Mundo de 2014. Antes dos anos 60, estávamos sempre entre as maiores [capitais]. Até o início do século 20, Belém é uma das cinco mais importantes cidades brasileiras. Até o início da República, nossa capital estava entre as quatro mais relevantes. Até os anos 1700, Belém era a terceira cidade. Repare no prefixo dos telefones, pela ordem de importância: ficamos com o número nove. Então a gente foi decaindo e decaindo... Faltou à nossa elite, e aí eu não falo de elite política, mas de um modo geral mesmo: intelectual, empresarial, política também, sindical... Enfim, faltou à elite visão ou previsão de que isso aconteceria... ou de lutar contra isso...
 
 
Foi deixando...?
Foi deixando! Mas porque caiu nos “cantos de sereia”, digamos, do Poder Central... diferente do Nordeste, que sempre foi muito mais pobre que nós, mas que se unia na hora em que era necessário. A nossa elite sempre se vendia ao Império, para a República. Desde que deixamos de ser ricos, com a queda da borracha, essa elite foi sempre se perdendo e não conseguiu montar um projeto para manter Belém com seus privilégios. Mas eu acho que até 64, quando há deliberadamente um projeto de criar um polo, dentro da política de Segurança Nacional, com medo de invasão das fronteiras e tudo mais – aí há uma política de levar, interiorizar o desenvolvimento, a ocupação, em verdade... porque o desenvolvimento acaba sendo secundário. Prioritária foi a ocupação do território nacional. Isso veio desde o Juscelino Kubitscheck, seguido pela Belém-Brasília e Transamazônica. E tudo isso poderia ter sido feito com outro modal de transporte: nosso e mais barato, inclusive, que é o fluvial; menos agressivo ao meio ambiente também. Se assim tivesse sido, Belém teria continuado no mesmo lugar de destaque porque teríamos a navegação costeira que chegaria a Belém e daqui se distribuiria para o resto da Região Amazônica. Mas optaram por esse modelo do automóvel, da estrada mesmo, que é único no mundo, nem os Estados Unidos, nem a Europa, nem Rússia, nem China, nem grandes países de dimensão continental como o nosso, e aí eu boto a Europa como um bloco só, escolheram esse modelo burro, de levar o desenvolvimento e ocupar território com o carro, com a estrada. Ou se faz com ferrovias, ou se faz com hidrovias, e nós tínhamos o maior sistema de hidrovias naturais. Foi como Belém manteve sua centralidade. Optou-se pelo modelo menos inteligente e Belém perdeu. Então, quando se faz a Transamazônica, a Belém-Brasília; quando se leva para Manaus a Zona Franca e tudo o mais; transfere-se a sede do Comando Militar e uma série de outras coisas, é lá que ocorrem as melhorias, é lá que se forma uma nova elite: a amazonense, ou manauara, ou “baré”, como costumavam chamar. E essa elite até por ser um pouco de fora, com uma visão mais ampla de negócios, consegue transformar e projetar Manaus para o mundo como A cidade da Amazônia. Ao mesmo tempo em que nós vamos perdendo isso, a referência para a região, como metrópole.
 
Mas a perda foi total? Entre mortos e feridos nada se salvou...?
Só não perdemos algo que é indubitavelmente nosso: o título de capital cultural da Amazônia e não há como discutir isso. Mas quando perdemos todo o resto nós não soubemos combater isso. E para explicar isso, eu precisaria entrar em uma série de discussões políticas que talvez não venham ao caso aqui nessa conversa... Mas voltando à questão cultural, “Belém foi o que foi”. Digo isso parodiando o Padre Antônio Vieira. Belém é o que é ainda porque foi o que foi. Fomos uma capital de um Estado independente do Rio de Janeiro. Era uma Corte aqui e pouca gente valoriza, sabe ou conhece isso. Às vezes, não sabe nem porque comemoramos o 15 de agosto, data que marca a Adesão do Pará à Independência do Brasil; momento em que o Pará passa a fazer parte oficialmente do Brasil, não mais a Portugal. O Estado do Grão Pará era um dos domínios portugueses na América; o outro era São Salvador. Construiu-se aqui um aparato grandioso para abrigar uma capital. No período de Dom José V [1689-1750] constrói-se – não à toa – a maior catedral de todos os domínios ultramarinos de Portugal, ou seja, fora do continente europeu: a Catedral de Belém. Isso eu consegui comprovar, junto com um amigo alemão que trabalhava em Cabo Verde, mas ainda não pude publicar como artigo. Nós fomos lá e vimos, depois de medir, concluímos: a nossa é dez metros maior que a Catedral da Praia [Cabo Verde]. Por que então temos uma Catedral tão grande? Não à toa. É a primeira cidade cristã fora do continente europeu! A Catedral do Rio de Janeiro foi construída praticamente só no século 20! Todas essas coisas são simbólicas, claro, mas no período dos governadores, foi construído o maior palácio administrativo, o mais luxuoso, algo constatado por vários visitantes. O jardim daquele lugar, onde hoje funciona o Fórum Cível de Belém, é à moda dos jardins italianos, belíssimo. E isso sem contar que se tem um hospital, a maior igreja dos jesuítas, a ordem que mandava e desmandava, que é a de Santo Alexandre, a maior igreja conventual do país. 
 
Então o ‘peso’ histórico de Belém define esse ‘peso’ cultural?
A livraria dos jesuítas, por exemplo, era a maior que existia em Belém. Aí você ainda tinha a dos carmelitas, dos franciscanos, dos mercedários... Temos óperas compostas em 1700, peças de teatro feitas para homenagear o nascimento dos príncipes, todas feitas aqui no Pará. O [Antonio] Landi [arquiteto italiano, 1713-1791] para cá trouxe uma tradição de Bolonha, que era a de montar arcos triunfais. E nossos cabocos aqui fazem as primeiras peças de teatro, publicadas hoje na Biblioteca Nacional. Construiu-se aqui a “Casa do Risco”, a primeira Escola de Engenharia Naval que ensinava quem? Os índios! Os ensinou a construir os navios. As nossas canoas e popopôs [nome popularmente dado aos barcos e pequenas embarcações movidas a motor. O nome é uma referência onomatopeica ao barulho que o motor produz] ainda seguem o mesmo modelo de barcos que os portugueses trouxeram em 1700. Uma quantidade enorme de intelectuais veio então conhecer a Amazônia, que era tida pelos portugueses como a chave do futuro do mundo! Desenhistas formados por Portugal vieram para cá e tinham como discípulos muitos escravos, inclusive que atuaram como mestres de obras e possivelmente criaram projetos creditados ao próprio Landi! O Alexandre Rodrigues Ferreira [foi um naturalista português. Empreendeu uma extensa viagem que percorreu o interior da Amazônia até ao Mato Grosso, entre 1783 e 1792] esculhamba com todo o clero paraense, mas diz que o Padre João da Veiga era um dos homens mais cultos que ele havia conhecido enquanto esteve no país! Os bispos que vieram para cá eram de altíssima cultura. Frei Caetano Brandão foi ser primaz das Espanhas; foi bispo de Braga, que tem esse título por ser a mais antiga diocese de toda a península ibérica. O Frei João de São José Queiroz, frade beneditino que veio a ser bispo de Belém, foi considerado pelo Euclides da Cunha um dos mais cultos. Você teve aqui homens de extraordinária cultura. Depois, na República, no Império, teve o Frei Caetano Brandão, o Antônio de Macedo Costa [que foi colega do papa que doou o altar da Catedral]. O Eduardo Angelim, conhecido pelo movimento da Cabanagem; temos ainda o Felipe Patroni – que enlouqueceu, perto da morte, por não conseguir ser compreendido – que veio a ser um dos caras à frente do jornal O Paraense. Temos o Batista Campos... A influência das ideias da Revolução Francesa entrou direto pela Guiana Francesa, que era praticamente um presídio político, e tudo isso funciona de embrião do Liberalismo no Pará... Tivemos uma tradição de inúmeros homens intelectuais, artistas, que vieram por causa da borracha, ou do cacau, ou das especiarias...
 
E as pessoas têm essa noção...?
Mas é isso o que eu digo: não têm! E ainda assim, são apaixonadas por Belém. É diferente do Maranhão, onde as pessoas não suportam essa história de ser patrimônio da humanidade, não tem essa aceitação porque lá foi enfiado goela abaixo e causou muitos problemas para os moradores do Centro Histórico porque não foi um processo acompanhado das devidas precauções. Se você não dá compensações financeiras para quem mora em área tombada, aquilo vira um inconveniente. Na Europa, os moradores dessas áreas não apenas recebem isenções como também são pagas pelo Governo para as pessoas morarem lá, para continuarem a exercer profissões antigas, típicas. Se você faz celas de cavalo ou é joalheiro e trabalha com artesanato histórico, o Governo te dá uma espécie de ‘bolsa’ para você continuar a fazer, para que seu filho continue essa tradição. Em Florença, na Itália, por exemplo, você acha que todo mundo que mora lá está morando de graça por que quer? Não mesmo! Aqui não era só para ter isenção de Imposto Territorial Urbano, o IPTU. Tinha que ter incentivo federal, não pagar imposto de renda, que tanto dói no bolso do cidadão. Se é um patrimônio nacional, não é só a Prefeitura que tem de dar conta.
 
Como anda Belém em termos de cuidado com o seu patrimônio histórico?
Não está mal cuidada até mesmo na comparação com outras cidades até mesmo por esse amor nosso pela cidade, mas estamos tão acostumados e mergulhados nesse tanto de notícias ruins que as pessoas não tomam conhecimento disso. Antes, disputávamos com São Luís (MA) esse título de quem cuidava melhor do seu patrimônio, mas hoje essa disputa passou pra Manaus (AM) e nós perdemos. Aí começou a competição com Fortaleza (CE), que é uma cidade fora desse padrão, mas os caras lá se uniram e de uma gestão governamental para outra, os projetos iam ganhando cada vez mais continuidade, diferente daqui, que quando um se elege, primeiro trata de desfazer o que o seu antecessor fez. E sempre foi assim aqui, independente de partido, lamentavelmente. O que ainda restou é que nós nos segurarmos na própria identidade, e acho que isso fez acender esse sentimento nas pessoas. Posso dizer que conseguimos preservar em Belém os monumentos - individualmente. Mas faltam os projetos integrados para áreas da cidade, algo que nunca conseguimos fazer. Durante esse mandato da presidente Dilma Rousseff, percebi que melhorou a relação entre Governo Federal e Prefeitura de Belém, que foi aquinhoada com muitos recursos, formalmente, do projeto Monumenta, mas os valores nunca foram repassados! Isso pode ter a ver com o fato de que não existe hoje um plano estratégico para o Centro Histórico. Zenaldo está tentando montar, para os 400 anos, e fazer o dever de casa como nunca eu vi nos últimos anos ao pensar na cidade como um todo, com uma equipe na CODEN. De qualquer forma, não há imóveis correndo risco, mas algo que preocupa, ainda é a situação do Ver-o-Peso e entorno, que precisa ficar livre do tráfego pesado de veículos. Enquanto houver ônibus passando por ali, pela Cidade Velha, não haverá solução. Estamos 40 anos atrasado quando o assunto é transporte público de massa. Esse [Bus Rapid Transit, em português, Ônibus de Trânsito Rápido] BRT é uma piada. Precisamos de transporte de massa de verdade, porque esse é um problema que atinge toda a cidade e repercute no Centro Histórico, então seja metrô de superfície, [Veículo Leve sobre Trilhos] VLT, o que seja, não estou falando de metrô subterrâneo. Foi um projeto eleitoreiro e a solução, a tentativa de consertar não deu muito certo. Falta um serviço eficiente de qualidade, de velocidade, de pontualidade, de regularidade para o transporte metropolitano. O transporte coletivo estrutura a cidade quando funciona e faz com que as pessoas possam vencer a distância casa-trabalho-casa, e isso, automaticamente, diminui a pressão imobiliária sobre o Centro Histórico, porque se você puder morar bem, em espaços maiores, sabendo que em 20, 30 minutos você chega ao trabalho. Essa pressão já dura quase 400 anos!
 
O que você pediria de presente para a cidade ao soprar as velas do bolo dos 400 anos de Belém?
Eu insistiria no transporte como um reestruturador da cidade, para diminuir as pressões sobre o Centro Histórico e redemocratizar a ocupação de Belém e de toda a Região Metropolitana. O Ver-o-Peso não pode ser mais um mercado de venda de peixe de supermercado, de grandes mercados como Fortaleza, Brasília, é preciso achar uma alternativa - e isso também é uma condição para salvar aquele espaço, não adianta ficar fazendo intervenção. Sem isso, é uma questão de tempo até o Centro Histórico definhar.
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