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Belém para todos

O professor e sociólogo Alex Bolonha Fiúza de Mello, ex-reitor da Universidade Federal do Pará  atualmente é Secretário de Estado de Promoção Social do Governo do Pará. Entrevistado da Revista Leal Moreira, na série de reportagens sobre os 400 anos de Belém, Alex Fiúza de Mello não titubeou em momento algum. De opiniões firmes, ele defende que o futuro de Belém está na educação do coletivo. Coletivo, aliás, é um termo que ele utiliza inúmeras vezes, ao longo da nossa conversa e que resume bem seu pensamento: de que Belém precisa ser para todos e não para poucos. A seguir, a quarta entrevista da série “Belém 400 anos”.

Secretário, para não fugir à regra, iniciamos esta conversa fazendo a mesma pergunta que tem nos norteado até agora: como devolver a Belém o título de metrópole da Amazônia?

Eu acho que nós não temos que estar muito preocupados em liderar rankings de metrópole, nem na Amazônia, nem em lugar algum. Acho que a personificação de uma identidade depende muito daquilo que historicamente se impõe às sociedades. Belém, de fato, no passado, era o centro de maior referência, de maior dinamismo cultural, econômico, político e social da Amazônia. Isso é um fato. Em vista do crescimento de Manaus, a partir da Zona Franca, Manaus fez todo o marketing para retomar para ela a ideia de metrópole. Foi quando iniciou-se essa “disputa”, que é totalmente secundária e desnecessária. Não adianta nós sermos a maior metrópole, se nós temos desafios ainda por cumprir e não superados. Temos que nos preocupar, em um certo momento, em buscar transformar Belém em um centro promissor, com qualidade de vida para sua população. Os rótulos vêm depois, em consequência deste trabalho. Manaus é uma cidade que “inchou”, em função da Zona Franca, e que tem um modelo econômico completamente equivocado, do ponto de vista da vocação da região. A Amazônia não foi “feita” para ser polo eletroeletrônico. Nós nunca vamos ter competitividade em relação aos grandes centros, mas em relação a Manaus, isso, mais cedo ou mais tarde, vai ser um grande problema: ou o Amazonas diversifica a matriz econômica ou a Zona Franca vai se inviabilizar. E não adianta só ter marketing – isso não vai resolver historicamente o problema – nem de Manaus, nem do Amazonas. E Belém não tem que ficar lutando pela liderança de propaganda ou de marketing, retomar a ideia de “metrópole da Amazônia”. Belém tem grandes problemas a resolver: há uma grande pobreza exposta na cidade, tivemos péssimas prefeituras ao longo do tempo e Belém nunca teve planejamento estratégico, capaz de direcionar a população a um horizonte, pelo qual trabalhar; estabelecer metas, a alcançar, relacionadas à nossa cidade e que mobilizassem a sociedade civil a dar sua contribuição para o atingimento delas. Acho que esse é o maior desafio da prefeitura e para os próximos anos. Agora, o que é fato é que Belém tem uma carga histórica e patrimonial que é a maior da região. Isso é história e história não se apaga – nem com marketing, nem com propaganda...

Logo não há um único problema para Belém – há vários. Por onde começar a solucioná-los?

Eu acho que nós temos que... primeiro, qualquer tipo de planejamento estratégico tem que considerar o desafio de estabelecer um contexto no qual o ator social ou a sociedade ou o coletivo se encontra, na sua relação com o entorno. O que eu quero dizer com isso? Primeiro há que se pensar no papel de Belém dentro da Região e na relação com o resto do país e com o mundo! Por que com o mundo? Belém está no centro do interesse mundial. Nós não precisamos de cartão de visita do governo brasileiro para nos apresentar ao mundo e ter um intercâmbio com o mundo.  Agora, qual o papel da Amazônia em relação ao mundo? Isso nós temos que perguntar: o que nos cabe ser, representar ou desenvolver num século que tem suas características; numa sociedade que se globaliza a cada dia, em que os meios de comunicação se desenvolvem, de transporte idem; que vivemos crise energética, crise de produção de alimentos e uma era que depende do desenvolvimento do conhecimento. Quer dizer, uma metrópole para ser metrópole, que não se é capaz de pensar nesse contexto todo, não pode ser referencial na região. Nós temos superlativos imensos e superlativos que muitas vezes, não são percebidos nem pelo Brasil, nem a favor do próprio desenvolvimento nacional. A indústria do futuro é a bioindústria, não é o Pré-Sal. Não é a energia – a energia baseada em emissão de carbono. Não é a indústria do petróleo; não é a indústria do minério. O futuro do mundo é a bioindústria. É a capacidade de transformar os micro-organismos presentes na natureza em produtos inovadores para a qualidade de vida da população mundial. Seja alimentos, seja fármacos... Ora, nós estamos assentados aqui – e isso é uma coisa que o Brasil não vê e nós não vemos – no maior banco genético do planeta. Em vez de nos preocuparmos em criar condições para que a bioindústria se desenvolva aqui, com o apoio de conhecimento, pesquisa e desenvolvimento, nós estamos criando plataformas de indústrias eletroeletrônicas, a exemplo da Zona Franca de Manaus, e assim por diante. Primeiro temos que nos preocupar qual é viabilidade econômica que dará sustentabilidade a uma região como a nossa e a uma cidade como a nossa, inserida nessa região. Isso é uma questão de planejamento estratégico, é uma questão de geopolítica e se não começarmos a pensar grande, continuaremos a ser colônia. Esse é o primeiro ponto. Segundo: nós temos que entender a vocação de Belém nesse contexto. Primeiramente, Belém não é uma cidade industrial. As indústrias estão nascendo no entorno de Belém, nos municípios da Grande Belém, mas não na cidade de Belém. E não é necessário, nem é bom, pelas condições em que vivemos, que esta seja uma cidade industrial. E se não é industrial – ela é uma cidade que se caracteriza pelo quê? Pelos serviços, pelo comércio. E, portanto, a vocação de Belém é servir de ponto de encontro e de geração de conhecimento voltado a alimentar todo o estado, mas é uma cidade que tem uma vocação turística imensa; é uma cidade que tem um potencial artístico fabuloso. Belém é uma cidade que guarda tradições incomparáveis, em termos regionais. Logo, ela tem que potencializar isso como cidade e tem que fazer isso de forma profissional, de modo que ela seja atraente para o Brasil e para o mundo, porque ela está inserida na Amazônia.  Isso dará dinamismo para a cidade. Isso criará emprego e renda, trará personalidade para a cidade e garantirá a ela um papel único em nossa região. E temos que buscar as parcerias para viabilizar isso.

O sr. entrou em duas áreas: educação e turismo...

E cultura, no sentido mais amplo, incluindo, inclusive, a cultura acadêmica.

Exatamente. Como resolver os problemas que afetam essas áreas?

Veja bem, Belém sedia a maior concentração de Instituições de ensino superior e pesquisa de toda a zona tropical mundial. As universidades estão todas contíguas no mesmo terreno. Você tem um polo de conhecimento aqui, que nunca foi explorado como identidade. E o que temos em torno deste polo de conhecimento? Invasão, descaso, desleixo. A pobreza de pensamento é o que faz, até certo momento, com que Belém viva na “baixada” – na baixada das mentalidades. Por isso é tão importante recuperar Belém, o que ela tem de mais importante e valorizar, com atitudes, com obras.

O plano estratégico que o sr. mencionou, então, seria a solução para Belém?

Exatamente! Qual o plano estratégico para Belém? Que prefeito disse: “vamos montar um projeto, um planejamento para nossa cidade?” – com focos, com metas. Para quatro anos, obviamente. Mas o que se pode fazer, o pouco que dá para fazer em quatro anos, tem que estar dentro de um contexto maior de horizonte, sabendo que este passo é importante. Quem trabalha desta forma? Hoje parecemos um balcão... É uma viagem desgovernada, sem rumo.

E a cultura, como o senhor fez de questão de enfatizar, é acessível a todos?

Cultura é tudo. Mas em sentido mais estrito, no que diz respeito às atividades organizadas formalmente e que se manifestam por meio de eventos e instituições que cumprem esse papel, eu acho que Belém até avançou muito e tem um enorme potencial para isso. Agora, certamente, o problema da inclusão cultural vai se resolver na medida em que Belém resolver seus outros problemas.

É-lhe alentador que a atual prefeitura, por exemplo, partilhe de mais proximidade com o Governo do estado?

O prefeito Zenaldo é um homem sensível e de muita vontade. Eu acho que nos dá uma esperança de que algo possa surgir de novo para a cidade, porque isso evita aquelas questiúnculas e brigas entre níveis de governo. Mas isso não é uma lei natural garantida; há casos na história de município e Estado juntos, que brigam. Como também há casos em que há oposições entre os governos, mas que comungam de uma tal postura republicana, que sabem separar suas divergências de um interesse maior. Eu tenho uma esperança de que há algo muito bom vindo para Belém, mas prefiro deixar que o tempo confirme.

O que o sr. mais gosta em Belém?

As mangueiras.

Esse é um problema a ser resolvido também, não? Da condição de uma das cidades mais arborizadas do país, atualmente Belém figura entre as menos verdes.

Belém e Manaus.

Entretanto as mangueiras não são espécies nativas e o prefeito Zenaldo manifestou o desejo de fazer uma consulta pública sobre o replantio de novas espécies...

Entendo que seria melhor consultar especialistas na área, porque esses especialistas saberão o que é melhor para a cidade. Se a mangueira é adequada? Nos últimos 100, 200 anos foi. Tem alguma outra espécie que faça sombra? Se sim, por que não? Eu me lembro de um amigo inglês que esteve aqui há alguns anos e se apaixonou pelas mangueiras. “Nunca vi isso no mundo”. Belém causa duas paixões: pelo rio ou pelas mangueiras. Não (há paixão) pelas calçadas, prédios, monumentos... Belém precisa dos túneis verdes, de sombra. São esses túneis que possibilitarão os bares de esquina, os passeios. Isso é o que dá à cidade uma identidade. O Almir Gabriel deixou um legado importantíssimo no sentido da recuperação de parte da visão para o rio... (e para e continua) isso é um problema das elites brasileiras. No caso de Belém, paramos de plantar mangueiras e tapamos a visão do rio. O pensamento que contempla só os próprios interesses é típico de colônia. As nossas elites sempre se submeteram à colônia.

O que o sr. menos gosta em Belém?

A sujeira, o lixo. Belém é a capital mais suja do Brasil e me incomoda a falta de educação para a vida coletiva. Não se respeitam espaços e regras públicas.

Qual o seu desejo para Belém em seus 400 anos?

Não pode haver milagres para Belém em tão pouco espaço de tempo. Mas há que se ter iniciativas dos nossos governantes que apontem a um compromisso pelo resgate da cidade para sua população neste sentido. Há que se ter sinais. “Alguma coisa boa voltou a acontecer com a cidade”. Isso eu gostaria de ver por meio dos sinais. Quero poder dizer que “Belém saiu de sua inércia, da inércia negativa”. Eu não espero grandes movimentos, de grandes obras, porque isso leva tempo. Mas iniciativas que demonstrem que saímos da inércia e que a preocupação com o coletivo passou a ser mais importante do que a preocupação com interesses menores e personalistas de nossos governantes.

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