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Brega, cult, kitsch e pop

Ele estudou música erudita, graduou-se em Filosofia e atualmente é considerado um dos mais promissores ícones da cena pop paraense. O cantor e compositor Felipe Cordeiro se vale de muitas referências para fazer um trabalho plural, que estabelece um diálogo inteligente e divertido entre a cultura popular tradicional e sons contemporâneos. Uma "mistureba" latina que está dando o que falar pelo Brasil, com o lançamento do primeiro álbum do artista, o sugestivo Kitsch Pop Cult – muito bem recebido pela crítica e público.
 
Na crista da onda que colocou a produção musical local no centro das atenções do país, Felipe Cordeiro vem ganhando espaço na mídia – tendo participado de programas como o global "Altas Horas" e sido destaque na revista "Bravo" - e faz shows sempre muito elogiados. No meio desse turbilhão de novidades, para Felipe o grande desafio é fugir de estereótipos rasos. “Meu trabalho não é sobre o brega, é sobre o que a música é hoje”, reflete.

Confira a entrevista que ele concedeu ao site da Revista Leal Moreira e conheça um pouco mais sobre a nova promessa da música popular brasileira:

Site Revista Leal Moreira: Você vem sendo citado como um dos mais promissores nomes da música brasileira. Como se estabeleceu na sua vida a relação com esta expressão artística?
Felipe Cordeiro: Escutei música por todos os lados na minha infância: meu pai e meu tio tinham uma banda, a Warilou, ia muito a estúdios, shows e rodas de choro. Na pré-adolescência - dos 11 aos 16 anos - estudei música na Escola de Música Federal do Pará, a EMUFPA. Depois entrei na Faculdade de Filosofia da UFPA (Felipe é bacharel). Foi nesse momento em que se iniciou minha carreira de compositor. Num primeiro momento, participando de festivais de canção. Depois assumi a linha de frente das minhas músicas.

SRLM: O teu tino para a música tem muito a ver com a tua família. Desse convívio com teu pai e tios, quais são as maiores heranças que podem ser observadas no teu trabalho?
FC: O interesse pela música brasileira, com certeza! Enquanto muitos artistas se debruçam, principalmente, sobre a música pop internacional (incluindo o rock), desenvolvi um apego e interesse radical pela música brasileira. O choro e a música latina são duas grandes paixões que podem ser observadas no meu trabalho, por exemplo.

 
SRLM: Você tem uma formação musical erudita. Como aconteceu a transição para o pop na tua carreira? Como estas duas linguagens se encontram no teu trabalho?
FC: Tive uma formação híbrida, na verdade. Estudei música erudita, mas também estudei, por conta própria o violão popular brasileiro e a tradição do cancioneiro; as letras; caminhos harmônicos; linhagens melódicas. Em parte isso foi intuitivo, mas em parte também foi uma espécie de pesquisa interessada. No meu trabalho essa integração das linguagens acontece naturalmente mesmo.

SRLM: Teu primeiro álbum é cheio de referências ao universo popular brega. Qual é tua relação com esse mundo e qual teu propósito ao se apropriar destes signos?
FC: A música brega - no sentido amplo - é um fenômeno muito mal explicado intencionalmente em parte, pela tradição brasileira. Essa música me interessa pela estilística, porque é "prenhe" de possibilidades e pontencialidade estética (timbres, levadas, conceitos, humor inteligente), além de permitir uma maneira sui generis de transmissão criativa de afetos, em outras palavras, o sentimento está em primeiro plano.
Acompanhei um período em que meu pai produzia música popular no Pará (brega, lambada) e havia um completo desdém por ela, por parte da crítica e classe média e até de "mercado". Isso é bom que se diga... Por exemplo, as rádios FMs (algumas) da cidade davam ordens aos programadores pra não tocarem "Brega". Hoje é bom ver a música popular brasileira, incluindo o brega do Pará, presente na obra de parte significativa na música pop nacional: Céu, Cidadão Instigado, Marisa Monte, Caetano Veloso, etc.


SRLM: O teu trabalho traz à tona uma discussão que vem sendo maturada nos últimos anos: musica brega é ou não cult? Agora, sendo considerado um dos maiores representantes desta possível vertente musical, qual é a tua resposta para esta pergunta?
FC: Em primeiro lugar, e isso precisa ficar bastante claro, o Kitsch Pop Cult não é um álbum sobre o brega, mas é um álbum sobre o kitsch, duas coisas diferentes. É um disco sobre como a arte (e o próprio entretenimento)se comporta. Quais suas possibilidades de originalidade diante de um mundo contemporâneo atravessado, em todos os níveis de cultura (baixa, média e alta cultura), pelo processo da "cópia" (sentido mais próximo de kitsch), isto é, atravessado pelo kitsch ? Só por esse motivo é que cabe no álbum, sem incoerência conceitual, a vanguarda paulista, o new wave e a lambada paraense. Meu disco não é de brega como eram alguns do Alípio Martins mas essa essência autêntica, inteligente e provocadora me interessou muito pra fazer o Kitsch Pop Cult, foi também o que quis passar pro André Abujamra, produtor do disco.

SRLM: Você está na crista da onda que colocou o Pará no centro das atenções. Aí de cima, como é ver o movimento cultural da tua terra natal explodir ?
FC: Felicidade total! Mas tem uma coisa sobre a qual eu reflito: o Pará tinha um déficit de representatividade cultural frente ao resto do país. Isso faz com que as pessoas criem expectativas do tipo “aquele artista me representa (ou deve representar)”. Às vezes isso é uma responsabilidade e fico com certo receio de que as relevâncias históricas sejam privilegiadas em relação as relevâncias estéticas. Espero que a gente não caia internamente nessa armadilha, só existe dois tipos de música em última instância: uma melhor e uma pior.

SRLM: Como você acha que a cena local pode aproveitar este “boom” para se estabilizar como uma forte vertente da música popular brasileira?
FC: Entre outras coisas, acho que a cena local deve brigar cada vez mais por políticas públicas. Existem projetos que deram certo e ajudaram a fomentar esse cenário nacional positivo, como é o caso do Terruá Pará. No entanto a classe deve lutar pras políticas serem permananentes e suprapartidárias. Independente de governos e partidos, temos (artistas, produtores e sociedade) de nos posicionar em relação às políticas públicas de cultura. Vivemos um boom porque existe uma coalisão integradora: talento, política pública e contexto histórico.

SRLM: Atualmente, como está o teu trabalho? Apenas fazendo shows ou já trabahando num próximo disco?
FC: Estou me preparando pra cumprir uma agenda de shows que durarão até o final do ano, divulgando o Kitsch Pop Cult. Em abril vou fazer um show especial em Belém.


 

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