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Caixinhas de memória
Estudante de artes visuais, Adan Costa se destacou na etapa local no concurso internacional de fotografia “O Mundo Joga” (On Joue sûr la Terre)  - da Fondation Alliance Française em parceria com a Aliança Francesa de Belém - e ainda arrematou um lugar entre os vinte melhores do mundo com sua fotografia sobre o universo da infância, que é um dos seus mais frutíferos projetos pessoais.
 
O início da aventura com suas “caixinhas de memória” - como ele gosta de chamar suas câmeras – veio naturalmente, da vivência familiar, onde esta arte estava à mão nos mais corriqueiros encontros de parentes. Com esse começo, o futuro já estava dando as mãos com arte, que foi o caminho escolhido por ele para dar vazão às suas paixões mais remotas e transformá-las em narrativas que todos podem ler.
 
O site da Revista Leal Moreira bateu um papo com Adan sobre o começo da jornada e esse novo rumo que suas fotografias estão ganhando, bem como suas impressões pessoais sobre as coisas que o rodeiam.
 
Há quanto tempo você fotografa?
 
Fotografo desde que me entendo por gente. Fotografar pra mim era um brinquedo. Sempre fiz de uma forma muito empírica, acertando e errando; cresci em uma casa que cultivava o hábito de fotografar em festas, reuniões familiares, férias etc. Com consciência, com pesquisa, digamos que artisticamente, somente há pouco mais de cinco anos.
 
Fotografia é uma forma de...?
 
Encontro pessoal. Quando empunho minhas câmeras, quando busco na urbe ou dentro de casa uma composição que me pareça interessante, busco imagens, fragmentos de memória. Minhas câmeras são caixinhas de memória, são sinestésicas. Relembro coisas fotografando - temas de minha infância, memórias familiares - e em minha cabeça começo a construir narrativas, suposições, possibilidades, lembranças que não sei se aconteceram de fato. Minha cabeça sempre está fervilhando.
 
 
Sua fotografia, que é hoje uma das 20 melhores na etapa mundial, retrata bem o tema "O Mundo Joga"? Você sempre deu atenção para esse viés? Por quê?
 
Sim; e, como o ato de jogar é extremamente polissêmico, consegui conciliá-lo a uma pesquisa que venho desenvolvendo há pouco mais de três anos. Trabalho com a infância, com a perda dos jogos típicos dessa idade na contemporaneidade. As crianças pouco brincam nas ruas, por conta dos altos índices de violência urbana. Eu, quando criança, era livre; corria com meus irmãos e amigos sob a chuva, nós jogávamos bola, atravessávamos os quintais para comer manga ou qualquer outra fruta da época, e não corríamos o risco de ser devorados por essa selva de pedras e concreto. Comecei a me dedicar a esse universo de pesquisa com o nascimento de meus dois sobrinhos. Me questionava sobre que infância eles terão: ainda terão a ludicidade, serão criativos? Interagirão com tranquilidade com outras crianças, saberão o que é brincar na rua? Enfim, me esforço ao máximo para que eles lidem com coisas simples, que se divirtam sem a necessidade de uma aparato tecnológico, como eu e meus irmãos fomos.
 
Sua primeira fotografia foi um retrato de quê? Foi daí que veio o impulso para seguir este caminho?
 
Minhas primeiras fotografias foram certamente de eventos familiares. Foi a partir da mágica do contato com a velha câmera Kodak (minha primeira, que ganhei de meu avô), a qual me impulsionou a experimentar a possibilidade dessa caixinha de memória. Fotografo tentando captar o milésimo de segundo eterno de memória - aquele que, daqui a 10 ou 20 anos, me faça recordar com a mesma sinestesia o que vivi naquele momento.
 
O que diferencia o artista - fotógrafo - do observador comum? Existe essa distinção?
 
Acredito que a única distinção entre o observador comum e o fotógrafo é que o fotógrafo está sempre com os olhos sensíveis aos objetos de suas pesquisas fotográficas. Somos cercados, cotidianamente, por milhares de imagens; e, quando não estamos sensibilizados a elas, acabam passando despercebidas.
 
Como você começou a fotografar profissionalmente?
 
Ser considerado um fotógrafo profissional pra mim é muito novo. Fotografo minhas verdades, minhas buscas poéticas, minhas experimentações visuais. Comecei a me dedicar com mais afinco à fotografia como técnica nos últimos dois anos, quando me apaixonei pela fotografia do Sebastião Salgado e do Boris Kossoy. Eles são hoje minhas maiores referências nacionais.
 
A câmera é que "faz" o fotógrafo ou o fotógrafo é quem "faz" a câmera?
 
Eu acredito que o fotógrafo faz a câmera. Temos vários exemplos de artistas que têm trabalhos espetaculares com câmeras feitas de madeira, caixas de fósforos ou de latas de spray. E quanto mais inusitado o suporte fotográfico e o olhar sensível de quem fotografa, mais belo é o trabalho.
As fotos selecionadas para a mostra foram feitas em uma câmera compacta, relativamente simples. Apesar de possuir câmera profissional, gosto da possibilidade de experimentação visual que minhas outras câmeras me possibilitam.
 
Suas fotos vão viajar ao redor do mundo. Como é isso para você?
 
Isso é surpreendente e tenso ao mesmo tempo, ainda mais por ser o único representante brasileiro. Acho que as fotos retratam bem o nosso universo poético. Em 2012, tive a oportunidade de rodar o Brasil com o Movimento Hotspot, que já foi uma sensação fantástica. Mas uma exposição internacional é algo muito novo, ainda não sei descrever qual a sensação. Só sei que estou muito feliz e empolgado. Agradeço imensamente a oportunidade que a fundação Aliança Francesa está me proporcionando.
 
Ser fotógrafo é chamar atenção para determinados temas sociais? Como você vê essa questão?
 
Sim, acredito que somos modificadores da realidade por enfocarmos áreas que naturalmente não teriam tanta visibilidade. Admiro o trabalho de Fotógrafos como Nan Goldin, Diane Arbus, Sebastião Salgado e Paula Sampaio, que conseguem ser tão potentes em suas poéticas - e nos sensibilizam, e nos fragilizam de tal forma, que é impossível passar incólume por elas.
No entanto, creio mesmo é que existem artistas visuais que procuram imprimir, em suas obras, as marcas do seu tempo, seu contexto político e histórico, a criticidade, um posicionamento ideológico; existem outros artistas que são poetas visuais, seres mais livres, não são partidários a ideologias; e outros ainda que conseguem associar suas poéticas a doses generosas de crítica social. Portanto, o fotógrafo não é polêmico: o exercício dele está muito mais relacionado à história, à beleza, à estética do que meramente polemizar - e tudo isso pode ser mixado em um hibridismo, com ou sem polêmica. Estamos num momento em que quase tudo é permitido. Liberdade criativa é no que eu creio.
 
Se você pudesse definir, expressar em palavras o que move você e sua arte, o que diria?
 
Meu trabalho está pautado em um continuo e frenético processo de experimentação visual; a oportunidade de experimentar novas possibilidades, novos dispositivos, novos suportes de impressão... São essas coisas que movem meu processo criativo, e que me impulsionam a sempre tentar algo que me tire de qualquer possibilidade de estar em minha zona de conforto.
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