
“É o ar que respiro/ É o palco em que brilho/ É bem mais do que isso/ Não me basta estar vivo/ Eu preciso cantar”. É com tais versos que Arthur Nogueira abre a faixa “Preciso Cantar”, presente em seu mais recente compacto virtual, o “Entremargens”. Basta ouvi-los à sua voz e se tem certeza: não poderiam ter sido escritos por mais ninguém. Mas foram. As palavras vieram do prodigioso poeta Dand M, de Belém; a música que as carrega, essa sim, é de Arthur. É curiosa a relação entre intérprete e compositor. Desde que passou a assinar de modo cada vez mais frequente suas canções, Nogueira mergulhou mais fundo – e de peito aberto – ao cantar. Como o leitor ávido que se apaixona ainda mais ao encarar por si o desafio de redigir, a entrega de Arthur às letras de seus parceiros tomou outra proporção. A honestidade é inquestionável. Cada palavra ali é também sua, assim como são do outro as notas para entoar. A troca também ocorre nele próprio: como intérprete, Arthur se apropria, assume como seu o que diz. Como compositor, ele decifra a si como fosse um terceiro. Torna-se um intérprete dele próprio.
No campo das dualidades, a propósito, é com naturalidade que ele transita. Nogueira se equilibra confortável entre características que a princípio não parecem dialogar – a começar pelo seu timbre grave, imponente, e ao mesmo tempo suave. São muitas as combinações. Rigor e desprendimento. Bossa nova e contracultura. Clássico e contemporâneo. Concreto e sutil. Denso e leve. Sofisticado e acessível. Paraense e global. Arthur está lá e cá, imerso no mundo – e o melhor, fazendo mais sentido que nunca. A Revista Leal Moreira conversou com o artista, que hoje reside em São Paulo. Ele falou sobre cantar e compor; sobre poesia, música, parcerias; e sobre sentir-se em casa fazendo o que faz.
Você é um cantor e compositor de referências muito fortes. Como elas apareceram na sua vida?
Meu contato com a música começou por causa do meu pai. Ele não é músico, mas ele compra muitos discos, compra LPs até hoje. Então eu ouvia música brasileira em casa. Ouvia Cartola, João Gilberto... Meu pai gosta muito de sambas antigos. Eu ouvia, mas não sabia que a música ia se tornar o que se tornou. A música se tornou pra mim uma necessidade quando eu descobri os poetas que faziam música. Eu sempre gostei muito de ler, desde criança. Cheguei a fazer curso de teatro, porque eu achava que eu podia ser ator, encenar textos de teatro. Meu pai mesmo também sempre gostou de ler, e quis muito que os filhos adquirissem esse hábito. Eu me lembro de uma coleção de teatro que ele tinha e eu adorava, que era de textos clássicos. Eu li muito cedo Hamlet, por exemplo. Sabia os diálogos e brincava de encenar sozinho em casa. Eu achava que era isso que eu queria fazer. Mas não era. Eu descobri a música por meio da literatura.
Como foi essa descoberta da palavra se relacionando com a música?
Minha grande descoberta mesmo foi o Waly Salomão, que conheci quando eu tinha 13 anos, graças à sua parceria com Adriana Calcanhotto. Era diferente do que eu conhecia de música. A bem da verdade, eu ainda não conhecia tanta coisa... Não conhecia, por exemplo, o Caetano, que já fazia esse tipo de fusão entre literatura e música há mais tempo. Fiquei impressionado. Era um tipo de poesia que eu não tinha aprendido no colégio, nem ouvia nas canções que meu pai ouvia. Essa poesia verborrágica, que tem muita oralidade, palavras que a princípio não parecem musicáveis... A partir daí, passei a comprar os livros dele, a ir atrás das coisas e descobri os poetas que fazem música. Aquilo me deu vontade de fazer também (risos). Mas isso não significa que eu ache que a poesia precisa da música. Eu acho que a poesia vale por si. O poema é um monumento. Ele não precisa de outra coisa que o ponha em pé. Mas colocar música em um poema é uma maneira de eu contribuir. Se eu colocar música em um poema do Antonio Cícero, eu faço com que aquele poema também seja um pouco meu. Mas eu entendo que música e poema são coisas diferentes. Se eu coloco música num poema, ele tem que funcionar como uma canção. As pessoas precisam ouvir e gostar daquilo sem ter que pensar “isso é um poema musicado”.
À época dessa descoberta, você já escrevia?
Escrevia. Compor veio só depois. Quando eu comecei a ler poesia – por causa do Waly, acabei lendo outros vários poetas que eu não conhecia – comecei a querer escrever também. Mas logo aprendi a tocar violão, e passei a achar que eu fazia melhor letras de música. Comecei a compor fazendo letras e mandando pra outras pessoas colocarem a música. Com o passar do tempo, passei a fazer melodias no violão, e hoje faço isso mais. Apesar de gostar muito de poesia, não me vejo como poeta e nem tenho essa pretensão. Eu acho que o poeta precisa, mesmo que ele não use, dominar as formas clássicas da poesia: saber o que é uma redondilha, saber fazer um soneto... Esse tipo de experiência é necessário, pra você se obrigar a ter essas dificuldades. O bom poeta gosta da dificuldade.
Em que momento você se percebeu cantor?
Na verdade, eu comecei a cantar por ouvir muita música. Foi uma coisa natural; comecei a ouvir canções, a escrever poesia, ganhei um violão, aprendi a tocar... E eu queria cantar as músicas que eu gostava no violão. Comecei a cantar em casa. Eu não achava que eu era um compositor. Eu cantava, tocava e escrevia timidamente umas coisas que eu não mostrava. A coisa de me assumir como compositor veio depois de cantar profissionalmente. Eu comecei como intérprete, cantando músicas dos outros por achar que as minhas não eram boas.
Como foi a transição de intérprete para compositor? Qual a diferença de cantar as palavras de outro e cantar as suas próprias?
Acho que cada vez menos eu sou intérprete. Eu descobri que o que eu tenho de particular pra mostrar musicalmente, principalmente, é fazer música – porque a maneira como eu construo minhas melodias, como eu escrevo minhas letras, só eu posso fazer. Eu acho que, hoje em dia, não faria um trabalho só como intérprete. A composição se tornou muito forte. Eu descobri que isso é o que me dá mais prazer, essa coisa de pensar pra onde uma melodia pode ir, aonde uma letra pode me levar.
Você saiu de Belém para morar no Rio de Janeiro, e depois se mudou para São Paulo. O que lhe levou a esses lugares?
Belém é o lugar onde nasci, está comigo aonde quer que eu vá. Fiz uma música sobre isso, chamada “Guamá”, onde digo que o “alento de partir é poder voltar”. Quando decidi sair, foi somente porque queria estar mais perto do mundo e de pessoas que pensam parecido comigo. Naquela época, começou uma articulação política para tentar definir para o Brasil o que é a música do Pará e não fiz parte disso. Acho limitador. Costumo dizer que o Rio de Janeiro é a minha Pasárgada. Conheço bem e sempre quis morar lá. No Rio, tenho grandes parceiros, grandes amigos. Acho que a experiência de viver nessa cidade amadureceu a minha relação com a música, porque me vi sozinho, sem o apoio da minha banda de Belém, e precisei tocar mais do que antes. Hoje, toco guitarra em todos os shows. Depois de quase um ano morando no Rio, São Paulo “mandou” me chamar e mudei outra vez.
Qual a sua relação com parcerias? Como você as escolhe? Quem é o parceiro mais frequente e qual parceria você espera que ainda aconteça?
Acho muito importante estabelecer parcerias. Os parceiros abrem caminhos aos quais eu não chegaria sozinho. Tenho parceiros para os quais eu faço letra, como o Vital Lima, e outros para os quais eu faço música, como o Antonio Cícero. Acho que o Cícero é o meu parceiro mais presente hoje. A nossa história musical começou porque musiquei alguns de seus poemas. Depois, começamos a fazer canções juntos. Cícero é, inegavelmente, um dos maiores poetas brasileiros. Os nossos encontros, para compor, conversar sobre música ou sobre qualquer assunto, são sempre muito estimulantes. Quanto a novas parcerias, um dos discos que mais ouvi recentemente foi o “Lira”, do Lirinha. Adoraria fazer uma canção com ele.
A sonoridade do seu trabalho não obedece à lógica que ganhou destaque no cenário nacional como representante da música paraense. Isso te favorece ou prejudica de alguma forma? Como você analisa essa questão?
Tem uma canção da Marina e do Cícero que diz: “feroz é a nossa fome (…) e o fogo que nos consome”. É assim mesmo. Seria um erro limitar a minha liberdade a essa definição do que é a música do Pará. No princípio é o ato, diz Goethe. Isso quer dizer que primeiro vem a minha vontade, a minha forma de apreender e compreender o mundo. Quero exercer a minha liberdade, fazer música independente de rótulos. São sempre os outros que estão interessados em rotular o que você faz. Quando olho para trás, percebo que construí a minha carreira independente de modas e mandatos. Acho que eu me prejudicaria se não tivesse sido dessa forma.
Como foi tocar em Portugal?
Amo poesia portuguesa. Sophia de Mello Breyner e Eugénio de Andrade são os meus poetas favoritos. Cantar em Portugal, no ano passado, foi a realização de um sonho antigo. Estive lá porque fui selecionado, junto com a cantora gaúcha Gisele De Santi, para a programação do “Ano do Brasil em Portugal”. Cantamos no Espaço Brasil, em Lisboa. Voltei de lá com a certeza de que os portugueses são um povo sensível e entusiasmado com a música brasileira de todas as épocas.
Você apareceu - e se destacou - em Belém muito novo ainda. Como foi o seu processo de amadurecimento, tanto musical quanto pessoal, em conjunto com a sua carreira?
Comecei muito novo, aos 16 anos. Nessa idade, naturalmente, a carreira artística não era uma certeza, muito menos o que poderia fazer com ela e por causa dela. Ainda assim, acho que foi válido, porque desde cedo estive em contato com a dor e a delícia do ofício da música. Acho que não me sentiria seguro, hoje em dia, sem os tropeços do fervor infantil.
Projetos, planos... O que tá acontecendo hoje na sua carreira e o que você projeta para o decorrer do ano?
Agora moro em São Paulo, envolvido em muitos projetos, todos relacionados à música. Tenho feito shows, recebido encomendas para fazer canções e trabalhado no disco novo, que pretendo lançar ainda neste semestre. Meus últimos trabalhos são relativamente antigos, então chegou a hora de mostrar uma safra de canções conectada com a minha vida agora. Antecipei duas canções desse disco em um compacto virtual, chamado Entremargens, que está disponível para download gratuito no site arthurnogueira.com

Comentários
Neal Adams
July 21, 2022 at 8:24 pmGeeza show off show off pick your nose and blow off the BBC lavatory a blinding shot cack spend a penny bugger all mate brolly.
ReplyJim Séchen
July 21, 2022 at 10:44 pmThe little rotter my good sir faff about Charles bamboozled I such a fibber tomfoolery at public school.
ReplyJustin Case
July 21, 2022 at 17:44 pmThe little rotter my good sir faff about Charles bamboozled I such a fibber tomfoolery at public school.
Reply