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De Havana para o mundo
 
Diego Ventura,, 27 anos, é fotografo e empresário. As lembranças mais antigas que ele tem do charuto remetem à infância, quando folheava revistas enviadas para a mãe, quando ela tinha uma empresa de importação e exportação que vendia alguns artigos de tabacaria, além de ver o pai e tios fumando em datas comemorativas, como durante o Réveillon. Mas a paixão começou mesmo quando um amigo conheceu um entusiasta cubano e começou a ter acesso a bons charutos “a um preço que um universitário poderia pagar”, lembra. “A partir daí, comecei a ter informações sobre os charutos, bem como os primeiros passos do processo de aprendizado de como degustar um charuto de verdade”. 
 
 
Ventura afirma que gosta de fumar entre amigos ou familiares. “Para mim, o charuto em si não é um relaxante, uma válvula de escape. O charuto tem muito mais a ver com o prazer da degustação”, considera. “Harmonizando ou não com bebidas e comidas, cada trago de um bom charuto tem um toque diferente”. Ele diz que cada “apreciação” sempre traz sensações novas. “De acordo com o corte, por exemplo, a queima, o fluxo e a intensidade, ao longo da degustação, mudam e atiçam a diferenciação do paladar, na maioria das vezes desenvolvendo ou intensificando retrogosto e aromas”. 
 
 
Ele considera que os melhores charutos, definitivamente, são os cubanos, mas também elogia os produtos brasileiros. “Dentro do que considero charutos especiais, estão entre meus favoritos o Epicure Especial, da Hoyo de Monterrey, com um aroma forte e bem aparente; Cohiba Siglo VI, com suavidade, aroma e fluxo maravilhosos. Merece destaque especial o Bolivar Redentor, feito somente para o mercado brasileiro e somente encontrado no Brasil. O produtor acentuou seu blend entre folhas mais maduras e jovens, suavizando o teor, mantendo o aroma característico da casa, com um conforto incomum num charuto dessa robustez”, detalha. 
 
O empresário cita ainda outro charuto, o H.Upmann Half Corona. “Dono de uma bitola extremamente incomum, na verdade até agora única no mercado cubano, esse charuto é um corona cortado ao meio. Forte e rápido, é um grande parceiro do café depois das refeições, ainda mais quando se tem um tempo para relaxar”, garante. “A produção brasileira desponta cada vez mais entre as melhores do mundo. Na verdade, desponta em qualidade e em quantidade, o que em outras produções não se consegue. Hoje, os grandes produtores acabam exportando o tabaco para outros países além de enrolar o seu próprio charuto”, reitera.  
 
“Merecem destaque os long fillers (enrolados apenas com folhas inteiras e selecionadas) da Dannemann, sobretudo a Artist Line – produzidos em 4 bitolas tanto em capa clara e em capa escura, 100% mata fina, eles não ficam atrás de charutos do mesmo porte cubanos. Graças ao terroir maravilhoso do centro do recôncavo baiano, onde é cultivado o tabaco mata fina, com um solo arenoso e um índice pluviométrico elevado, o tabaco tem um teor extremamente suave e aroma muito presente. Só lhe falta a fama cubana. Merecem destaque também produtores como Dona Flor e Monte Pascoal, igualmente elogiados no mercado internacional”, complementa. 
 
Para Diego, o caminho mais prazeroso para quem quiser iniciar na “arte” de fumar um bom charuto é encontrar um amigo igualmente apreciador e que tenha o conhecimento básico de corte e acendimento; que instigue a degustação. “Muita gente sequer degusta quando opta por comprar charutos de qualidade inferior só pelo tamanho e aparência. Não é a minha e vai de acordo com a vontade de cada um. Mas quem está em busca de aprender a degustar, a opção por charutos long fillers (ou tripa longa, quando cubano) é talvez a dica mais especial”. Ele cita ainda que pesquisas na internet facilitam muito o entendimento também. Em relação a comprar os primeiros charutos, ele ensina se que deve dar preferência sempre aos mais suaves e de bitola [comprimento x diâmetro] menor. “O que eu vejo  que mais incomoda o iniciante é o tempo de queima [tempo em que o charuto permanece aceso]”, ensina o charuteiro Ventura, que de tão apreciador é proprietário de duas tabacarias. 
 
Hábito ajuda na convivência entre amigos
 
Já o publicitário Jackes Assayag, 41 anos, afirma que sempre sentiu um fascínio pelo charuto embora não tenha fumado nenhum outro insumo do tabaco na vida. “Tive, por várias vezes, oportunidade de experimentar com amigos, mas sempre hesitei, pois tinha reservas ao tabagismo”, afirma. Mesmo assim, ele sempre foi um curioso sobre a arte e as histórias que cercam o produto, lendo matérias e postagens “para entendê-lo melhor”. “Em um fim de tarde nostálgico, um amigo apareceu no meu antigo apartamento para conversar, e magicamente, na sacada de casa ele puxou um “Cohiba” do estojo e acendeu com uma raspa de carvalho”, relembra. “Minha mulher olhou pra mim de longe e eu olhei pra ela, que respondeu com os olhos: vai, vai, experimente”. 
 
Com tudo conspirando a favor, segundo ele, o amigo ofereceu outro “cubano” e a resistência havia acabado. “Desse dia em diante, resolvi experimentar tudo que havia estudado sobre charutos e não parei até hoje”, garante. Jackes se considera um fumante discreto. “Inicialmente, fumava em algumas tabacarias que conhecia na cidade, ou em áreas abertas em restaurantes, ou em casa para respeitar o espaço dos não fumantes”, diz. “Um lugar bem aconchegante era a tabacaria do aeroporto internacional de Belém, contudo passou apenas a ser um local de venda de charutos estando proibido o consumo. Hoje existem poucos ambientes direcionados a esse público em Belém”. 
 
Assim, o lugar favorito dele para apreciar o produto é mesmo em casa. “Raras vezes eu fumei no trabalho, geralmente ocorreu quando estava muito entediado. Sua degustação é bem lenta, diferentemente do cigarro, o que inibe sua utilização em momentos agitados”, reitera. “É muito bom quando estou com amigos que também apreciam, pois fumamos sem ver o tempo passar, mas também fumo sozinho quando quero refletir sobre algo. O charuto sem sombra de dúvidas não é um produto para o consumo diário e hoje degusto, fumo até duas vezes por semana”.
 
A paixão cresceu tanto que o publicitário montou um espaço próprio na sua residência para a melhor apreciação. “Sempre gostei da ideia de montar uma charutaria em Belém, contudo nunca foi o meu ramo de atividades, então resolvi criar um ambiente particular pra mim e para os amigos. Daí, quando fiz o projeto da minha atual casa, resolvi dedicar um espaço especial pra cultuar esse ‘hobby’”.
 
Jackes não se considera um expert. Mas, mesmo não tendo um conhecimento mais global desse tipo de fumo, consegue dizer quais suas preferências. “Gosto muito dos tipos Cohiba, Monte Cristo e Bolivar. Os cubanos possuem as melhores terras do mundo para plantar o tabaco, o que implica o sabor inigualável de seus charutos”, ensina. Ele diz ainda que a América Central também é hoje um grande exportador mundial. “O Brasil tem excelentes charutos. A Bahia hoje é responsável por grande parte dos charutos nacionais. Os meus baianos preferidos são o Alonso Menendez, Angelina, Aquarius e Monarcas”, enumera.
 
Ele também diz ter achado a “culpada” por sua nova e interessante “paixão”. “Minha mulher adora o cheiro dos meus charutos e às vezes até fuma comigo. Acho que, se não fosse por ela, eu não tinha levado à frente esse desejo. Agradeço a ela por me apoiar nisso também”, brincou. “Posso dizer que o charuto é que me encontrou e ele veio pra compartilhar principalmente os bons momentos na minha vida”.
 
Um pouco de história
 
O uso do tabaco pelo homem teria iniciado na América Central por volta do ano 1000, Antes de Cristo (A.C.) A planta era inalada através de infusões, comida, mascada e moída. Já a origem do charuto é incerta. O mais antigo registro do charuto que existe é um vaso maia do século X, encontrado nas ruínas de Uaxactún, na Guatemala, que mostra um indivíduo fumando folhas de tabaco enroladas com um barbante.
 
O produto só ficou conhecido com a chegada dos europeus ao continente americano. Os primeiros europeus a terem contato com o fumo foram dois marinheiros da esquadra de Colombo, Rodrigo de Jerez e Luiz de Torres, enviados para explorar a região ao redor da Baía de Bariay, ao norte da atual província cubana de Holguín. Quando retornaram de sua excursão, relataram terem encontrado “mulheres e homens, com um tição entre as mãos e ervas para tomar a defumação à qual estavam acostumados”. 
 
Jerez levou de volta para a Espanha folhas de tabaco e mostrou a familiares e amigos como usá-las para fumar. Ele acabou acusado de estar possuído pelo demônio e condenado a anos de prisão. Os índios que habitavam em Cuba nessa época eram os tainos, que chamavam o tabaco de cohiba. O tabaco continuou a sofrer muitas perseguições por parte dos governos de países como Pérsia, Rússia, Japão e Turquia. Porém, com a publicação de um estudo científico do alemão Johan Neander sobre os efeitos terapêuticos do tabaco, a matéria-prima passou a ser encarado como um remédio para diversos males. 
 
O charuto, no formato que conhecemos hoje, foi criado em 1726. Antes disso, consumia-se o tabaco principalmente utilizando-se o cachimbo. Naquele ano, Israel Putman levou os primeiros charutos cubanos para os Estados Unidos, juntamente com sementes de tabaco. Inicialmente, o charuto era confeccionado em Sevilha, na Espanha, a partir de tabaco cultivado em Cuba, porém, a partir de 1821, um decreto do rei espanhol Ferdinando VII permitiu a fabricação de charutos em Cuba. Em 1840, Cuba já era o maior produtor de charutos do mundo. Surgiram as tradicionais marcas Partagas, H. Upmann e Romeo y Julieta. Também foram criadas fábricas de charuto nos Estados Unidos, no México, na República Dominicana e na Jamaica. Em 1873, o alemão Gerhard Dannemann fundou a mais antiga fábrica de charutos do Brasil: a Dannemann.
 
Em 1959, com a Revolução Cubana, as fábricas de charuto cubanas foram estatizadas e a Cubatabaco (atual Habanos S.A.) foi criada. Muitos mestres na produção de charutos cubanos emigraram para outros países. Em 1962, os Estados Unidos, em represália à orientação comunista do governo cubano, decretou o embargo econômico aos produtos cubanos, prejudicando a exportação dos charutos cubanos. 
 
Em 1982, durante a Copa do mundo de futebol, o presidente cubano Fidel Castro resolveu lançar comercialmente os charutos Cohiba, até então reservados à elite do governo cubano. Os charutos Cohiba são fabricados com as melhores plantações de Cuba. Hoje em dia, existem grandes países produtores de fumo para charuto fora do continente americano, como Camarões e Indonésia. Porém, os melhores charutos ainda são produzidos a partir de plantas cultivadas na
 
América Central, em países como República Dominicana, Nicarágua e especialmente Cuba, na região de Vuelta Abajo, na província de Pinar del Río.
Uma advertência: Produto destinado a maiores de 18 anos. O Ministério da Saúde adverte para possíveis males e dependência.
 
Eles não abriam mão do charuto
Por Lorena Filgueiras
 
Sigmund Freud
Apesar de toda a psicologia, para o pai da análise às vezes um charuto era apenas um charuto. [nós nem temos dúvida disso]. Consumia dezenas de charutos por dia e assumiu que não conseguia trabalhar sem eles.
 
Fidel Castro
Quem não lembra da emblemática foto de Fidel e Che juntos, cada um com um charuto, durante a revolução Cubana? Fidel fumou charutos por quase meio século e os abandonou [por determinação médica] em 1985. Abandonou-os na vida real porque teria declarado, certa feita, que sempre sonhava degustando um Cohiba, seu favorito.
 
Ernesto “Che” Guevara
Asmático crônico, Che [que era argentino] adotou o hábito cubano de fumar cohibas. Mesmo quando escassos, ele dividia os charutos com seus soldados. Acreditava que isso os motivaria.
 
John Kennedy
Ele era lindo, carismático e... era presidente dos Estados Unidos quando decidiu assinar o embargo a Cuba. Horas antes, entretanto, concedeu uma missão quase impossível a Pierre Salinger [então secretário de imprensa norte-americano] de conseguir mil unidades do Petit Upmann [seu charuto preferido]. Quando o super secretário conseguiu 1.200 unidades, Kennedy respirou aliviado e assinou o embargo à ilha de Fidel Castro, que proibiu a entrada de qualquer produto cubano nos EUA.
 
Wiston Churchill
O primeiro-ministro inglês cultivava algumas paixões; duas eram bem latentes: a guerra e o charuto. O homem, que deu nome ao modelo de charuto Churchill, fumava de 8 a 10 charutos por dia, de preferência cubanos. Conta-se que a paixão pelo charuto era tão grande que mesmo em voo, ele não abria mão de suas sagradas baforadas. 
 
Mark Twain
Quantidade nem sempre era sinônimo de qualidade. O escritor Samuel Langhorne Clemens [conhecido como Mark Twain] fumava mais de vinte charutos por dia. Às vezes, conseguia a impressionante soma de 40 charutos por dia enquanto trabalhava. Advertido por um amigo de que “charutos não eram permitidos no paraíso”, ele teria retrucado “pois não irei para lá”.
 
Rei Eduardo VII
Não se sabe quão verdadeira é a história pós-coroação como rei da Grã-Bretanha, mas dizem que, minutos após receber o comando do maior império ocidental, Eduardo VII teria convidado todos os presentes a acender um charuto. “Cavalheiros, vocês podem fumar”. A postura de Eduardo VII foi em clara oposição à Rainha Vitória, que detestava o cheiro e a fumaça.
 
Louis Armstrong
Cigarros do tamanho de um charuto. Satchmo fumava, no mínimo, três por dia... além de outros menos lícitos. Mas não abria mão.
 
Já ela...
Marlene Dietrich
A atriz era uma consumidora de charutos e cigarrilhas. Em um período em que as mulheres deveriam ser comportadas, Dietrich subverteu a boa ordem.
 
 
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