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Ele faz cinema
O jornalista Wladimir Cunha e equipe ao lado do produtor paraense Maderito, durante as gravações do filme Brega S/A

Se Belém tem se destacado cada vez mais como uma cena cultural em ebulição no país, algumas figuras foram fundamentais neste processo. Quando o jornalista Vladimir Cunha resolveu trocar o papel e a caneta pela câmera filmadora e adentrar o lúdico universo do cinema, estava assinando sua entrada para o seleto grupo de produtores deflagradores desse boom, que elevou a maior metrópole da Amazônia à condição de nova queridinha do Brasil.

Apaixonado pela sétima arte, Vladimir não hesitou em unir os mundos que o cercavam: em vez do cinema ficcional, o documentário. E foi assim que em 2009 ele se dedicou ao projeto que mudaria a visão do país em relação ao famigerado tecnobrega: o filme Brega S/A, dirigido por ele e por Gustavo Godinho, foi produzido sem patrocínio e conseguiu captar um momento transitório da cena. "Por falta de grana conseguimos captar o momento em que as festas de aparelhagem transformaram-se em arenas de disputas entre jovens, levando aqueles que gostavam de dançar para os bailes da saudade", explica o diretor. Vladimir também estava presente quando a cantora Gaby Amarantos apareceu pela primeira vez em rede nacional. "Eu trabalhava na produção do quadro 'Brasil Total', do Fantástico, quando a Gaby apareceu pela primeira vez para o país", relembra.

Numa entrevista divertida, Vladimir fala sobre sua trajetória, o quão difícil é fazer cinema na Amazônia e como o Pará tem tudo para se aproveitar do ótimo momento de visibilidade nacional. Confira. Vale a pena.

Site Revista Leal Moreira: Você já trabalhou para programas televisivos e fez freelas para publicações nacionais. Quais foram as experiências profissionais mais legais e interessantes do seu currículo? O que mais lhe interessa no universo jornalístico?
Vladimir Cunha: Eu gosto de estar na rua, de conhecer pessoas e realidades diferentes da minha. Por causa do meu trabalho já viajei o Brasil inteiro e conheci lugares que dificilmente iria, não fosse por causa desse ofício. Pessoalmente eu não acredito em jornalista que passa o dia inteiro na internet ou atrás de um computador e não vai pra rua, não conversa com as pessoas. Acho essa uma forma muito medíocre de se fazer jornalismo.
Quanto aos trampos legais, eles foram vários. Gostava muito de escrever na Sexy. Apesar de ser de 'mulher pelada', a revista tinha uma pegada de cultura pop e de cultura trash que era quase a deum fanzine. Minha primeira matéria pra lá, por exemplo, foi sobre vampiros extraterrestres na Amazônia. Na MTV Brasil, curti muito fazer a segunda temporada da série "Discoteca", sobre discos que mudaram a cara da música brasileira. Recentemente foi bacana ter feito para a Colmeia o "Brasileirão Petrobras" (20 filmes sobre os 20 times que estavam na Série A do Brasileirão em 2010). Foram seis meses viajando por 14 capitais e gravando, montando e finalizando os filmes na estrada, com uma equipe de uns 10 malucos. Foi uma aventura bem doida e divertida.

SRLM: Como foi a passagem do factual da notícia para a eternidade do cinema? Como é a relação entre estas duas áreas na tua vida?
VC: A razão pela qual eu mudei de ramo foi porque o audiovisual pagava muito melhor. Em um mundo ideal, seria ótimo viver de escrever e ganhar decentemente, mas isso é impossível. Gosto muito de escrever e ainda escrevo profissionalmente, mas a verdade é que o jornalismo é uma profissão em decadência. As redações estão cada vez menores e mais sucateadas e os salários, cada vez mais baixos. Principalmente no jornalismo cultural, que é uma espécie em extinção.

SRLM: A tua experiência com TV influencia no teu trabalho no cinema? Existe alguma dificuldade em separar essas linguagens?
VC: Não. Uma coisa não tem nada a ver com a outra.

SRLM: Você tem duas experiências em documentários: a co-direção do filme "Filhas da Chiquita" e a direção de "Brega S/A". As duas produções têm como mote manifestações regionais, mas se destacaram pela linguagem e estética universais. Quais são os maiores desafios em retratar a realidade local no cinema?
VC: O maior desafio de retratar a realidade local é dinheiro. Filme custa caro e é um negócio difícil de se levar adiante porque os investimentos aqui ainda são muito poucos. Em termos artísticos Belém é muito rica por ser uma cidade cosmopolita, com fenômenos culturais, simbólicos, sociais e de gênero que tornam universais muitas coisas que acontecem aqui. Só é preciso olhar pra eles com coragem e honestidade, sem romantizar ou carnavalizar demais as coisas.
 
SRLM: A relação custo-benefício do cinema é meio turva para os patrocinadores. Normalmente, eles não percebem o retorno dessa grana. Quais são os caminhos para superar esse impasse?
VC: Talvez o principal seja você ter um projeto realmente consistente e com possibilidades comerciais sérias. Muita gente, quando faz projetos de audiovisual, não pensa globalmente. As pessoas, às vezes, pensam na criação artística, mas não pensam na comercialização, na distribuição, onde vai passar, quem vai ver, porque aquilo está sendo feito. É preciso ser honesto consigo mesmo e se perguntar se vale a pena fazer esse determinado filme, se ele vai ser algo que as pessoas vão querer ver ou se é só para alimentar o ego do "cineasta". Quanto mais tu pensas em todos os aspectos de uma produção; quando mais tu tratas de todos os aspectos da tua produção, melhor o projeto vai ficar e maiores serão as chances dele conseguir dinheiro e sair do papel.

SRLM: O documentário "BregaS/A" repercutiu nacionalmente, principalmente por mostrar a engrenagem econômica dessa cena e as relações sociais que ali se estabelecem. Como foi produzir esse filme?  O que você pensava antes dessa cena e o que mudou após esse projeto?
VC: O Brega S/A saiu do meu bolso e do bolso do Gustavo. Custou em torno de três mil reais. Então acabou que tivemos que fazê-lo aos poucos. Por isso ele demorou tanto. Mas, por outro lado, foi bom porque se tivéssemos feito ele em 2006, como estava planejado originalmente, não teríamos acompanhado uma cena tão interessante quanto a que pegamos em 2008/2009, quando o tecnobrega já havia sido substituído pelo eletromelody e as festas ficaram mais próximas das raves do que dos bailes da saudade. Foi o que possibilitou que tivéssemos personagens como o Maderito, o David Sampler e o próprio Maluquinho, que, depois que saiu da Tecnoshow, passou um tempo em baixa e só voltou em 2000, quando estourou com a música do Rubi.
Eu morei quase toda a minha vida no Jurunas e meus pais sempre trabalharam com as comunidades de lá e também no interior, principalmente no Baixo Tocantins. Então eu sempre convivi com esse tipo de música e com as festas de aparelhagem. E antes do "Brega S/A" eu já tinha escrito duas matérias para a Bizz sobre o assunto e trabalhado em algumas coisas sobre aparelhagem pro "Brasil Total". Então não foi exatamente uma novidade. A única coisa nova foi quando vimos as festas mudarem de música e de faixa etária, quando as equipes e as gangues passaram a dominar as festas e a rapaziada mais velha, que ia pra dançar, acabou tendo que ir para os bailes da saudade, porque a música, naquele momento, era mais pra gritar "vai, vai" e fazer o "treme" do que pra dançar agarrado.

SRLM: Essa "visibilidade" da cena local traz um retorno para os produtores culturais e artísticos? Isso já vem sendo sentido?
VC: Traz sim. Hoje, ser de Belém é uma espécie de pedigree que te abre muitas portas. Existe um interesse progressivo pelas coisas que estão acontecendo aqui e que, infelizmente, muita gente local ainda não soube como capitalizar em cima disso. Isso aconteceu comigo e com o Gustavo quando lançamos o "Brega S/A" e quando, em São Paulo, acabamos sendo chamados para vários trabalhos. O "Brasileirão Petrobras" e a campanha Sonho Brasileiro, pro Itaú, foram dois deles.

SRLM: No que você tá trabalhando atualmente? Projetos para 2012?
VC: Ah, sobre isso eu não falo não. Dá azar

 

Assista o trailer do filme Brega S/A:

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