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Estilista Aprendiz

O resgate da autoestima com a apropriação de sua cultura é a tônica do trabalho desenvolvido pelo estilista mineiro Ronaldo Fraga em terras paraenses. Em rápida passagem por Belém, Fraga convergiu uma multidão de olhares. Eram estudantes de moda, designers e muitos fãs que se aglutinaram para vê-lo falar sobre suas experiências por aqui - incluindo um trabalho de pesquisa, que teve como base a reinvenção do tempo e da moda, em projeto social desenvolvido com mulheres da Cooperativa de Biojoias do município de Tucumã, no sudeste paraense. Como resultado, os produtos foram usados na sua última coleção de Verão apresentada no São Paulo Fashion Week.

Antes da palestra em Belém, Ronaldo Fraga recebeu a equipe da Leal Moreira para um bate-papo descontraído onde falou de muita coisa séria, da sua proximidade com o Pará, do designer como mola propulsora do resgate da autoestima, de preconceito com o que é produzido na periferia e do real papel do designer ao encurtar as distâncias e mostrar as várias faces dos ‘Brasis’.

Como se deu sua aproximação com o Pará?

A primeira vez eu vim a convite da Fundação Vale para conhecer a Amazônia paraense e alguns projetos que vinham sendo desenvolvidos aqui. Na ocasião, fui convidado pra palestrar em outro evento, que estava ocorrendo no mesmo período. Caí de paixão por essa cidade e não tem como ser de outra forma. Lembrei-me de uma frase que adoro de Mário de Andrade, no livro “O Turista Aprendiz”. Quando chegou ao Pará ele disse: “O Pará foi feito pra mim, imagine uma luva que veste muitíssimo bem uma mão” – foi isso que eu senti aqui. Essa frase veio e ficou.

Por que esse encantamento?

Aqui é a última face do Brasil a ser descoberta pelos brasileiros. Quando a gente pensa numa relação do próprio Pará com o restante do Brasil, ela é muito recente, de menos de 100 anos. Esse extremo do Brasil, os brasileiros não conhecem. Isso suscita em mim crenças que eu tenho e trago de outras pesquisas, de outros trabalhos. O compromisso civil do designer é o de criar essa ponte entre a distância oceânica que existe entre os brasis dentro do próprio Brasil. E estou falando de um universo extremamente rico: se você fala em biodiversidade aqui tem; se você fala de sustentabilidade, aqui tem; se você fala em Brasil feito a mão, aqui tem; se você fala em música, aqui tem; comida e culinária, idem; é um lugar extremamente rico e fértil. Quando eu falo que o oxigênio do mundo está aqui eu não me refiro somente ao oxigênio da floresta amazônica, mas de caminhos possíveis, da reinvenção de um novo Brasil a partir de um Brasil diverso e isso tudo está aqui.

O que mais lhe chamou a atenção no Pará?

Você olha longe e pensa: “poxa, que mulher linda, você chega perto é uma castanheira” (risos) – ou seja, as pessoas terminam onde começam as árvores, as árvores terminam onde começam os bichos, os bichos terminam onde começa a comida, a comida termina onde começa a música, a música termina onde começa a literatura, então tudo aqui é transformado em uma coisa só e esse desenho você vê em pouquíssimos lugares do mundo. Um prato cheio para quem trabalha com design.

E o trabalho com as artesãs de Tucumã, como foi?

Quando você entra num projeto como esse, você trabalha com a fartura da falta. É tudo muito frágil, porque hoje tem uma empresa financiando, mas ela pode não mais se interessar amanhã. E como essas pessoas ficam? Então meu grande desafio é plantar um desejo de mudança em cada uma delas. O sucesso pra mim é que se cada uma dessas 60 mulheres levar adiante esse desejo, esse olhar, esse estímulo a empreender com o que elas têm nas mãos já vai ser válido. Olhar para os restos da floresta e transformar em algo. Essa coisa do empreendedorismo individual é o que faz mudar o coletivo. Quando a gente chegou era lixo pra todo lado da sala, aos poucos, com o trabalho, nós fomos mudando isso. Elas esperavam que o lanche de todo dia fosse ser bancado todo dia. Aí falamos que não; que cada uma trouxesse o que tinha em casa, se tivesse uma banana, levava a banana, se não tem nada, arranca uma flor e traz a flor pra mesa. As mesas eram fartas. Quando você congela a imagem do início e no final, você fica emocionado: elas estavam mais bonitas, mais arrumadas, a maioria evangélica, no final estavam de cabelos soltos, maquiadas, flores na mesa, não tinha um cisco no chão. Tudo limpinho. Essa transformação, esse empreender no seu entorno, aquilo que transforma a sua vida e do outro pra mim é extremamente valioso. É isso que transforma o coletivo, não dá pra pensar na transformação do coletivo sem o estímulo da transformação do indivíduo.

Qual foi a tônica do trabalho com o grupo?

Foi um trabalho que mostrou caminhos possíveis, a necessidade urgente de reinvenção do nosso tempo, de reinvenção do nosso mundo e da moda. Porque, embora cada cidade tenha a sua cultura, o projeto tem uma metodologia que pode ser aplicada em qualquer lugar. Aconteceu em Tucumã, mas poderia ter acontecido na Ilha de Marajó, em Santarém, no Tocantins, como já aconteceu em vários lugares do Brasil, como Pernambuco, Jequitinhonha, Rio Grande do Sul, Pantanal. Esse lugar da moda me fascina. E não falo somente da geração de emprego e renda, mas de uma reafirmação e apropriação cultural.

E a reação do público ao se deparar com o resultado desse trabalho?

Tem sido fascinante. Apresentei esse material na “bienal de design”, em Buenos Aires, no Chile, em Portugal. Fui convidado, junto com Marcelo Rosenbaum, para abrir o “Ano do Brasil em Portugal” e o “London College of Fashion”, em Londres, em novembro passado. Lá aconteceu uma coisa muito interessante: quando apresentei esse projeto, na sequência tinha um inglês que é sócio de um grupo de agências de propaganda mais festejado na Europa e ele disse que ficou sem palavras diante da coincidência porque estão fazendo a próxima campanha de um perfume da Prada que tem o Brasil como foco, pela primeira vez o segundo maior consumidor de perfume do mundo está na mira de uma marca internacional que está trabalhando em um perfume específico pra um povo que toma mais de um banho por dia. O perfume vai ser lançado em breve e, para ilustrar a campanha, foi indicado o Estado do Pará. O mundo está de olho no Brasil e o Brasil está de olho no Pará, então o mundo está de olho no Pará. Não é porque o estado é lindo – a diferença é a diversidade cultural desse lugar, a pedra bruta da cultura desse lugar que o Brasil desconhece.

Falta ao Brasil saber dar valor a nossa cultura de raiz, tão valorizada lá fora?

Sou extremamente tolerante com a falta de cultura e a falta de educação. A nossa grande chaga não é a falta de dinheiro, mas de educação e cultura. Um projeto como esse, quando foi apresentado na Argentina, em Londres, em Portugal, as pessoas queriam saber da loja on-line, “onde se compra?”, “como faz pra conseguir?”.  É um sucesso esse trabalho da biojoia. O Brasil, principalmente certos setores, é extremamente preconceituoso, pra eles a escravidão terminou ontem à tarde. E isso não é um problema do Pará, mas do Brasil, que nós temos que romper com a própria geração de designers e de consumo. E o consumo desenha muito bem a cultura de um lugar, a educação de um povo. “Me diga o que consomes que eu te direi quem és”.

Pretende continuar com esse projeto?

Embora esteja acontecendo no Estado do Pará, não é o primeiro trabalho que fiz, o meu trabalho é esse. A moda transformadora e o Brasil estão passando por esse momento de reinvenção do próprio país. Acredito que não seja nem a reinvenção da moda, pois da forma como estamos, há sinais de um desgaste profundo – temos o exemplo da Prada. Se as indústrias de cosméticos, de decoração e de moda estão de olho no que aqui tem em abundância e, no entanto, não conseguimos enxergar isso, eu volto a dizer que o problema é a questão da educação. Há muito pra ser feito. Já me perguntaram se me sinto sozinho fazendo isso e eu prefiro acreditar que tem um monte de gente fazendo a mesma coisa, mas eu sei que é solitário. Solitário, mas transformador. Esse retorno eu tenho tido no Brasil inteiro com jovens que estão entrando ou saindo da escola agora, querendo seguir o mesmo caminho: pensar a moda como um instrumento de transformação. E quando você fala em gerar emprego e renda com apropriação cultural, é muito mais do que dar alimento a uma pessoa, é oferecer uma coisa que é caríssima e que não muda, mesmo que os governantes não permaneçam os mesmos: autoestima.

E o pensamento recorrente de que “o que vem de fora é sempre melhor”?

Sou otimista e procuro olhar aquilo que realmente transforma, que realmente muda. Se compararmos o Brasil de 10, 15 anos atrás, houve uma apropriação maior sim; tinha coisas que a gente escondia na área de serviço, embaixo do tanque e hoje a gente deixa na cozinha. Então hoje nós temos menos vergonha de certas coisas. E tem uma série de exemplos, e posso começar falando desse fenômeno da Gaby Amarantos e talvez ela não tenha a mesma aceitação no Pará, como tem no Sudeste do Brasil. Gaby é uma figura que está transitando por todas as áreas; foi o personagem da cultura brasileira mais premiado em 2012. Isso significa muito e não aconteceria há 10 anos, logo sinaliza alguma coisa. Apesar de tudo eu sou otimista. Quando os tempos mudam, você tem o ônus e o bônus, mas acho que nessa apropriação cultural nós demos uma melhorada, sim.

Você lembrou da semente de jarina, que chama a atenção fora daqui...

Então, acho até curioso a jarina - como aquilo não pode ser uma pedra preciosa? É o marfim da Amazônia, minha gente! Nós exportamos isso na virada do século XIX para o século XX. Na Europa foi usada em maçaneta de porta, cabo de guarda-chuva e bengala para os ingleses. Então, esse conhecimento do que é joia, do que é valor agregado é que tem que ser discutido. Nesse sentido eu acho que realmente o mundo está acabando e concordo com os Maias. Aquilo que foi vivido aqui no ciclo da borracha está acontecendo com o mundo agora, é o fim de um ciclo. E entender quais são essas normas, essas regras é o grande desafio, mas esse novo mundo está aqui bem na nossa frente.

Nesse sentido da autoestima, o que chamou mais sua atenção na interação com as artesãs?

Você pode até pensar que eu estava trabalhando com sementes e restos da floresta, mas na verdade eu estava trabalhando com outra coisa. Quando eu falava de restos da floresta, não era só a matéria, mas das pessoas que estavam ali, esquecidas do mundo no meio de um “faroeste caboclo”, e que aos poucos esse resto foi se reconstruindo. Da mesma forma que as sobras de madeira iam para o descarte, o descarte ali eram elas mesmas num primeiro momento e que foram se construindo e tomando corpo, se apropriando. A gente sente a evolução das meninas em relação ao ofício delas. Elas foram se aprimorando na marchetaria e nas suas próprias vidas. Então, a cada vinda nossa, a gente ouvia uma conversa daquilo que elas tinham modificado em casa, com o marido, com o companheiro, limite que elas começavam a colocar, o que não acontecia antes. Um projeto como esse é muito mais amplo do que parece à primeira vista, ele tem uma possibilidade de transformação muito maior do que as pessoas imaginam. E transformação minha também, eu saio muito melhor de um lugar como esse e elas nunca mais vão sair de mim.

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