Já se vão trinta discos e 40 anos desde que Ney Matogrosso atingia o posto de lenda viva do rockbrasileiro em sua época mais frutífera. De voz marcante e atitude inconfundível, o intérprete fez história e despertou todo tipo de comoção logo de cara – afinal, quantos homens poderiam se entregar com tal intensidade e desprendimento ao palco? Pois bem. Tivesse parado ali, sua vaga da memória da contracultura nacional ainda seria legítima e intocável. Mas Ney nunca parou. Hoje, ele persiste inquieto, inovador e vigilante às tendências que surgem cotidianamente. “Atento aos Sinais”, seu mais recente lançamento, é prova testemunhal disso. Quente e vivo como sempre, o artista aposta em novos compositores: no som e na poesia de Dani Black, no rapperalagoano Vitor Pirralho, na banda paulista Zabomba, no grupo carioca Tono, em Criolo, em Alzira Espíndola, em Dan Akagawa.
E se Ney diz que é bom, o público acredita – sobretudo porque aprendeu a confiar no artista que, há quatro décadas, se doou por inteiro como frente do “Secos e Molhados”, lá nos lúdicos anos 70. À época, ele ofereceu sua cabeça numa bandeja – além de sua alma de artista, seu olhar forte, seu corpo e sua voz. O público prontamente aceitou e o consagrou como ícone. Ninguém se arrependeu. Ao contrário: cultiva seu ídolo como um ator ousado, com um trabalho cênico impecável, além de um cantor muito sedutor. No CD que chega à cena agora, Ney mistura os novos valores (e aqueles outros que nunca envelhecem) com artistas conhecidos como Paulinho da Viola, Arnaldo Antunes, Vítor Ramil, Pedro Luís, Lenine, Itamar Assunção.
Das 19 canções do show, 14 foram selecionadas para o disco. Mas o registro também ofereceu novidades ao palco: arranjos eletrônicos feitos durante as gravações foram incorporados às apresentações. Mas Ney não se dá por satisfeito; não gosta de fazer o que todo mundo faz, não gosta de moda. Se ele decide usar recursos eletrônicos, como um telão gigante, tem que ser de um jeito muito pessoal – bem longe do que propõe o corriqueiro, o que se vê por aí. Diferente? Não. Apenas ele mesmo.
O nome do álbum vem de uma composição de Dani Black, “Oração” – uma melodia bonita, que conduz belíssima poesia. Perfeita para o intérprete, que também não aceita o vazio de dias iguais. Matogrosso conta que, no começo, muita gente achou que o título do trabalho era uma espécie de alerta para o fim do mundo. Não é – trata-se de um alerta e um chamamento a sempre observar os sinais do planeta: passeatas, abusos, intolerâncias, movimentos de mudança. “Achei que era muito conveniente nesse momento em que nós vivemos. Eu sou atento aos sinais, à vida, às pessoas. Presto atenção”, avisa. Neste momento, Ney está em sua fase extrovertida. O showatual – exuberante e pop, com figurinos caprichados, muito volume de som e de luz – é exatamente o oposto de “Beijo Bandido”, de 2009, representativo de sua fase introspectiva. Ele é assim: plural, dual, uma alternância de projetos, para dentro e para fora. “Todas as coisas que eu fiz deram certo, mas eu não acho que eu tenho que fazer igual”, afirma mais um Ney diferente – mas sempre excelente.
Este novo DVD tem como base o show “Atento aos sinais”, não é?
É. Tirei 14 músicas do showe gravei o disco. Procurei privilegiar os compositores novos.
O que o seu público pode encontrar no novo disco que não viu no show?
Um tempo maior para aprimorar as músicas e isso faz diferença no som, sem dúvida. Agora ouvindo o disco, o público vai perceber uma mudança. Porque eu continuei fazendo o show, sem parar. Entendo que o disco é o retrato daquele momento, mas o shownão é mais aquilo – é algo que vai se transformando. Os arranjos foram mantidos, mas fomos para o estúdio, já que não foi gravado ao vivo. Começamos as sessões e quando o técnico, que faz as mixagens, começou a colocar uns efeitos eletrônicos, eles me agradaram muito. Então, eu mantive essa sonoridade eletrônica no show, que em princípio ficaria apenas no CD. Então, os dois se complementam. Ocorreu uma continuação, um desenvolvimento do que eu apresentei e, quando eu voltei para o palco, já fui com essa sonoridade acrescentada.
Neste último espetáculo você diz ter tido experiências marcantes com tecnologia: como o grande telão de LED, que pela primeira vez você experimentou no cenário e foi muito elogiado pelo público. Como foi isso?
O telão eu sempre tive muito receio em usar, porque é uma coisa que todo mundo usa. Essa coisa que fica atrás do show, projetando imagens, eu não queria; isso não me interessa. Desejei fazer alguma coisa que fosse especial. Então me apresentaram um projeto em que aquela parede do fundo, que seria toda de LED, seria dividida em quatro faixas de 1x4metros. Então eu disse “vamos experimentar”. Quando eu vi as coisas projetadas... porque ali você projeta uma imagem só dividida em quatro, vi que dava “leitura”. Estando de fora do palco, você percebe claramente tudo que a gente mostra ali, mesmo dividido em quatro. Então eu achei interessante. E entre cada tela dessas, foi colocada uma torre de luz, o que deixou o espetáculo muito rico nesse aspecto visual. Usei um pouco mais os recursos tecnológicos dessa vez, coisa que normalmente não faço.
Por quê?
Não sei... eu não sou muito de coisas que estão na moda. Mas eu acho o seguinte: que mesmo que esteja na moda, se você usar de uma maneira original, dá certo. Da maneira como eu estou usando, eu nunca vi ninguém usar.
Você chegou a citar também que talvez a internet, principalmente o youtube, tenham ajudado no show. Qual sua relação e a relação da sua música com essas novas tecnologias?
Acho que não tem mais como fugir disso, não se tem mais controle. Agora, desde que eu fiz o “Inclassificáveis”, que eu estreei, porque eu tenho estreado todos os meus showsem Juiz de Fora – só lá eles me dão uma semana de antecedência em um teatro muito bom, para eu criar a luz, para eu fazer os ajustes finais, montar tudo. Eu já saio de lá com tudo pronto. Se eu fosse estrear, por exemplo, no Canecão, eu teria somente a véspera da estreia pra montar tudo, sem nunca ter experimentado. E assim é em qualquer teatro. Mas lá [Juiz de Fora] eles me dão essa semana em que eu posso experimentar. O “Inclassificáveis” foi a minha volta ao pop, com figurinos extravagantes e tudo mais... no dia seguinte, muitos trechos e imagens já estavam no youtube... aí eu fui ver as imagens e percebi o seguinte: claro, não eram imagens perfeitas, não era um som perfeito, mas era muito atraente. Resultado: três semanas depois daquela data, estreei em São Paulo com os três dias lotados. E só pode ter sido o youtubeque fez isso.
Você acha que isso é mais positivo do que negativo para o artista?
No meu caso sim. Sou uma pessoa que vive de showse não da venda de discos.
Há uma mudança enorme do “Beijo Bandido” para o “Atento aos sinais”....
O “Beijo Bandido” era um showmais intimista e este é um showmais pop, com músicas mais animadas.
Esse movimento da sobriedade e da exuberância, do intimista e do artista mais liberto, do aberto e do fechado, é uma constante na sua carreira?
Esse movimento é uma constante na minha carreira, porque eu não gosto de ficar repetindo as coisas. Tudo o que fiz deu certo, mas não acho que eu tenho que fazer igual. Mantenho a sobriedade se o repertório me pede sobriedade. Do contrário, eu me largo: é figurino extravagante, muito som, muita luz. Funciono de acordo com o repertório que eu tenha na minha mão.
Você chamou muitos compositores novos para formar o show e preciso te perguntar se essa colaboração ajuda a divulgá-los...
Minha intenção não é fazer favor pra ninguém. Eu acho que uma das funções de um intérprete também é o de descobrir gente nova e “botar na roda”. Agora, eu canto essas pessoas porque gosto do que ouço; gosto do repertório feito por eles. Prossigo na mesma linha valorizando a qualidade e buscando, em nomes novos, a qualidade também. Não tenho nenhum pudor em misturar Paulinho da Viola, Caetano Veloso com Tono, Vítor Pirralho... Desde que as palavras e os assuntos sejam compatíveis.
O nome do espetáculo e do CD é “Atento aos sinais”. Que sinais são esses?
É muito engraçado, porque quando eu falei que o showse chamava “Atento aos sinais” começaram a falar tanta coisa sobre quais sinais eram, apocalipse, fim de mundo. E não é isso! Não tem absolutamente uma conotação religiosa. Eu não tenho essa coisa messiânica, isso não me interessa. Pode até ter, vagamente, a ver com os acontecimentos no nosso planeta, todos eles né, tanto humanos quanto da natureza. Isso pode até estar embutido aí, mas eu sou atento a todas as coisas, eu sou atento aos movimentos.
E a que sinais você acha que as pessoas devem estar atentas?
Deixa eu te dar um exemplo interessante. Eu estou cantando esse repertório desde fevereiro, abro com “Rua da Passagem” (Lenine e Arnaldo Antunes), que é muito coerente com esse momento todo que estamos vivendo, inclusive a cura gay, e tem “Incêndio”, do Pedro Luís, que foi feita na década de 80 e que eu estou cantando desde março e, em junho, aconteceu tudo aquilo no Brasil. Então, eu sou mais atento aos sinais do que eu próprio podia imaginar. Na verdade eu tenho umas anteninhas que vão me conduzindo e eu acredito nessas antenas. Refiro-me aos movimentos sociais – e não só no Brasil – mas no mundo. Mas eu não estava, quando fiz iniciei, me referindo a esses sinais. Refiro-me agora, que tudo se deu, mas antes não existiam, não tinham os acontecimentos.
Você sempre foi muito preocupado com um caráter visual, cênico, teatral como artista. E chegou até a fazer isso para outros artistas. Você continua se preocupando com isso?
Claro, sim, mas não é uma preocupação. É um prazer. E eu continuo fazendo esse trabalho para outros artistas. A última para quem eu fiz foi para a Ana Cañas. Para alguns eu faço uma coisa, para outros, faço outras, completamente diferentes. Para uns eu faço apenas a iluminação e para a Ana, por exemplo, eu fiz a direção e a iluminação. Para o Cazuza eu fazia a direção e a iluminação. RPM eu fiz a direção e a iluminação. Para o Chico Buarque eu fiz apenas a iluminação. Para a Simone eu fiz a direção e a iluminação. Nelson Gonçalves eu fiz apenas a iluminação. Nana Caymmi eu fiz apenas a iluminação. Então depende do que querem de mim.
Por que você é tão atraído por essa coisa do teatral?
Porque minha meta na vida era o teatro. Eu queria, eu achava que eu seria ator. Por isso essa expressão corporal, essa busca de uma expressividade no palco, não só com a voz.
Você uma vez já defendeu a liberação da maconha, já assumiu ter usado, qual a relação das drogas com a criação artística?
Eu sou pelas liberdades totais. Todas. Mas olha... eu não sei agora, porque tudo está diferente, mas antigamente... Cocaína sempre odiei e do álcool eu não gosto. Álcool me derruba. Cocaína é uma coisa mentirosa. Sob o efeito da cocaína, você é o máximo, você pensa que é o maior e na verdade, quando passa o efeito, as coisas que você escreveu, que você desenhou... parecem bobagens. Então nunca me interessou, eu nunca gostei. Nunca abri o pensamento como o LSDabria, porque hoje em dia não existe mais o LSD. Não existe mesmo. Há pouco tempo, amigos me convidaram a provar e eu disse “vou experimentar para ver se abre as portas da percepção como abria”. Não abre, não é nada. É anfetamina, é uma bobagem. Só serve para tomar e ir dançar. Eu nunca tomei ácido para ir dançar. Eu tomava banho, vestia uma roupa branca e tomava um ácido. Era místico, não religioso.
E isso já tinha relação com a sua atividade artística?
Não. Isso foi antes, muito antes. Quando eu comecei a ensaiar com o “Secos e Molhados”, parei de tomar qualquer coisa. Porque eu achava que não deveria ter nenhuma interferência. Eu já tinha tido toda a visão da possibilidade, mas eu não queria entrar doidão. Eu não sou assim.
E o que você acha da discussão em torno da liberação da maconha?
Eu acho que tem que liberar. Dizem que não pode liberar porque é porta de entrada. Não, não: a porta de entrada é o álcool. As pessoas têm que ser informadas sobre a maconha. A maconha te deixa marcha a ré, te deixa esquecido, te deixa vagando, você não sabe nem para onde você está indo. Então, pra mim, o uso da maconha sempre foi assim, para se divertir, para ficar sem preocupação nenhuma. Imagina. Eu jamais fui capaz de fumar e dirigir um automóvel ou resolver um problema ou ir ao banco. Não é isso. Maconha era assim, porque hoje eu não tenho nem mais tempo para fumar, porque tenho que estar sozinho num lugar, na natureza e eu não tenho esse tempo.

Comentários
Neal Adams
July 21, 2022 at 8:24 pmGeeza show off show off pick your nose and blow off the BBC lavatory a blinding shot cack spend a penny bugger all mate brolly.
ReplyJim Séchen
July 21, 2022 at 10:44 pmThe little rotter my good sir faff about Charles bamboozled I such a fibber tomfoolery at public school.
ReplyJustin Case
July 21, 2022 at 17:44 pmThe little rotter my good sir faff about Charles bamboozled I such a fibber tomfoolery at public school.
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