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Experiência e maturidade

Quando criança, a hiperativa Larissa França dividia o tempo de sua manhã entre os treinos de basquete, handebol e vôlei - só o tempo da tarde escapava por causa do compromisso no colégio. A mãe até reclamava, mas não tinha jeito. “Mãe, eu gosto de jogar”, dizia a menina, que já parecia ciente de que sua vontade e paixão pelo esporte a ajudariam a realizar um sonho. A baixa estatura e o fato de morar em Belém - distante dos lugares onde os melhores campeonatos aconteciam - não foram empecilhos para constituir, ao lado de Juliana, a dupla mais vitoriosa do vôlei de praia brasileiro, com a marca de mais de 100 títulos conquistados.

Falta um, porém. O grande favoritismo para conquistar o ouro nas Olimpíadas de Pequim acabou quando a parceira Juliana sofreu uma lesão no joelho às vésperas dos Jogos. A uma semana do início da competição, Larissa formou dupla com Ana Paula, mas a falta de entrosamento as tirou do pódio. Agora, com Londres já à vista, a atleta paraense prefere viver um dia de cada vez, forma prudente de conter a ansiedade para que o título não vire uma obsessão. “A contusão da Juliana nos deu ensinamentos que garanto que medalha nenhuma daria”, argumenta, convertendo até a frustração em conquista. A experiência e maturidade adquiridas, além de um ciclo olímpico extraordinário de oito anos, fazem Larissa crer que hoje a dupla pode ser tão - ou até mais - competitiva do que há quatro anos.  

Nesta entrevista para a revista Leal Moreira, a atleta paraense fala sobre o aprendizado de uma carreira vitoriosa, da perspectiva para Londres em comparação com o Rio-2016 e até da saudade da chuva e do cheiro de terra molhada que, para ela, só Belém tem.

Como administras a ansiedade a poucos dias dos Jogos Olímpicos de Londres?
Pois é, né? A gente teve um aprendizado muito bom em 2008. A gente viu que essa ansiedade toda, esse querer, às vezes, atrapalha. A gente aperta muito, sente na mão e escapa. A experiência em 2008 com a contusão do joelho da Juliana nos deu alguns ensinamentos que, te garanto, medalha alguma daria. Estamos usando isso esse ano. Não pensamos tanto nos Jogos. Lógico que é um ano especial e importante, todos focam nas Olimpíadas. Mas temos tantos campeonatos antes, temos o circuito brasileiro, o circuito mundial. A gente está se preparando bem para esse campeonato mundial, porque é ali que a gente pega confiança, pega credibilidade com os adversários para chegar bem às Olimpíadas. Estamos controlando bem, tentando fazer desse ano mais um ano como tantos outros em que jogamos e fomos campeãs. A gente sabe que, se estiver bem, a gente vai chegar bem lá. E vamos esquecer um pouco porque, do contrário, a ansiedade bate, a insegurança bate. Todos falam o tempo inteiro sobre isso: amigos, familiares, fãs, patrocinadores, então tem que esquecer um pouquinho ou realmente a ansiedade fica gigante.

Essa serenidade com que tratas os Jogos é mostra que a frustração por não ter correspondido ao favoritismo de 2008 foi superada?
Claro. A gente já joga há muito tempo, né? Acho que somos a única dupla que se prepara há oito anos para uma Olimpíada. A gente teve o primeiro ciclo olímpico, de 2004 a 2008. Treinamos por quatro anos e não pudemos ir. E agora tivemos o segundo, de 2008 até hoje. Tem oito anos que a gente se prepara para jogar a Olimpíada. Jogamos há muito tempo juntas, e adquirimos maturidade, confiança. Isso [a lesão de Juliana] foi superado. Sabemos que a nossa dupla é forte. Depois de 2008, fomos campeãs mundiais em 2009, 2010 e 2011. E isso nos deu muita confiança de saber que podemos chegar lá e ser o mesmo time competitivo de 2008, com a mesma chance de medalha ou até mais, por ser um time mais maduro.

Quais são as competições até as Olimpíadas e como é a preparação para elas?
Olha, o Brasil beneficia os atletas em relação a outros times e países: temos um clima que favorece muito, é sol o ano inteiro. Moro em Fortaleza e consigo treinar numa boa. Não tem frio, não tem neve, não tem nada que impossibilite a gente de treinar. E o Brasil tem um dos melhores circuitos de vôlei de praia do mundo. Pegamos um ritmo de jogo bom. O circuito começa em janeiro e paralisa em abril, quando jogamos até maior o mundial, no período do verão europeu. São 12 etapas do circuito mundial, que vai até agosto, setembro. Depois voltamos para o brasileiro de setembro a dezembro. É um calendário extenso, são 25 competições no ano. Estamos sempre jogando e isso é bom para a gente. Dá ritmo de jogo e nos coloca à frente de outros países. E nosso treino é diário; é nossa profissão. Independente do número de competições, treinamos de seis a oito horas por dia. A parte física fazemos de 7h30 as 9h30. À tarde, fazemos a parte técnica, de 15h30 às 18h. Depois, temos fisioterapia, massagem, a parte de vídeos, psicólogo. É um trabalho que envolve muitas coisas. Dedicamos de seis a oito horas por dia ao vôlei.

Recentemente, vocês alcançaram a marca de 100 títulos na carreira. Quando você decidiu jogar vôlei de praia imaginava alcançar uma marca tão expressiva?
Olha, eu pensava primeiro em poder jogar, porque não sou muito alta (1,75 metro), sou do Norte e, morando em Belém, pensava se teria chance. Quando recebi o convite (para treinar em Fortaleza), fiquei muito feliz. Vim para me dedicar a ser jogadora, mas nunca imaginei essa marca toda, conquistar 100 títulos, bater os recordes que batemos, ser campeã do mundo tantas vezes. Isso é um orgulho realmente. A gente sabe que vencer no esporte é muito difícil. A gente tem muitos atletas e poucos são vitoriosos. E eu me sinto muito orgulhosa por ser vencedora. E também por ser exemplo para as pessoas, já que o esporte é saúde, educação. É sinônimo de coisas boas.

Falando sobre o exemplo, qual o papel dos ídolos para os Jogos do Rio de Janeiro em 2016? Você já pensa nesses jogos?
Acho que é um passo a passo. Tudo temos que conquistar aos poucos. Na Olimpíada passada, a gente teve o aprendizado de pensar no hoje e ir devagar, porque posso não estar no amanhã. Penso muito em Londres. Sei que a Olimpíada no Brasil vai ser muito importante, vai deixar um legado muito grande para muitas pessoas, instituições, patrocinadores, eventos. Eu espero que realmente tenha esse alcance e que forme muitos atletas, que as pessoas pratiquem mais, entrem no esporte. Mas ainda tem muito tempo até lá; obviamente, vamos fazer um trabalho para isso. Primeiro, vamos finalizar o trabalho desse ano.

Quais as deficiências no incentivo ao esporte e como o Brasil pode chegar a 2016 como uma potência olímpica?
Acho que o Brasil já tem evoluído bastante. Temos vários projetos que vão trazer mudanças para esse novo ciclo. Acho que, no passado, já houve deficiência maior. Hoje, temos iniciativas,o vôlei de praia como matéria escolar é uma delas. Ensinar dentro de escolas e universidades é bom. Mas o grande problema que acontece e persiste é o patrocínio. A gente precisa de estrutura, de ter apoio para formar grandes campeões. Para ter bons atletas, precisamos da profissionalização, não dá para ser atleta e administradora, professora ou jornalista. Tem que ser só atleta e, para isso, é preciso ter um “ganha-pão”. No Brasil, é possível perceber que esse movimento tem crescido com clubes e projetos. Mas ainda precisamos de uma mobilização maior de empresas para que patrocinem bem o esporte.

Qual a importância do Pará no início de sua carreira?
Aí foi o início de tudo. Acho que a oportunidade que tive em Belém de começar a jogar me fez ser o que eu sou hoje. Minha inicialização, o que passei, foi muito importante. Jogo desde os 10 anos, quando morava no interior e sempre tive vontade de treinar e fazer as coisas. Eu acordava as 5h30, treinava das 6 ao meio-dia. De 6 às 8h jogava basquete, de 8 às 10h jogava handebol, de 10 ao meio-dia jogava vôlei. Minha mãe reclamava e eu dizia: “mãe, eu gosto de jogar”. Depois, almoçava e ia pro colégio. Quando tive a proposta de vir para cá, continuei nesse ritmo. De 6 às 11h, treinava com iniciantes e depois com o masculino porque achava que só ia melhorar se treinasse com alguém muito melhor que eu. O que você faz, volta, e acho que me dediquei bastante. Meu empenho me levou ao que sou hoje.

Qual o programa que consideras obrigatório quando vens à Belém?
Gosto muito de estar com a minha família. Passo muito tempo longe. São muitas viagens e sempre estou longe em datas comemorativas, aniversário da minha mãe, meu aniversário. Quando estou em Belém, gosto mesmo de estar em casa, ver aquela chuva, sentir aquele cheirinho de terra que só tem aí e ficar em casa com a minha mãe, tomando cafezinho, conversando. Sinto muita saudade da minha família.
 

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