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Lenine é para quem ama

"Amor é pra quem ama, amor é pra quem vive", diz uma das faixas de Chão – disco mais recente de Lenine. Sim, ele está certo. A universalidade do amor tem lá seus caprichos: embora todos possam experimentá-lo em algum nível, são poucos os que podem compreendê-lo. Também universal e caprichosa nos mesmos termos é a música – e também nesta, Lenine está no seleto grupo dos que a alcançaram.

São 30 anos de carreira e outros tantos de paixão, desde que trocou as missas de domingo com a mãe pelos discos ouvidos com o pai. E como os melhores amores, a relação do pernambucano com a música vive em constante renovação: Lenine não parou no tempo daqueles 30 anos idos, tampouco sobrevive emocionalmente do que já fez. Não à toa, ele ostenta uma das produções recentes mais relevantes – e diversas – do Brasil.

Diverso, aliás, é o próprio compositor, como o espelho que é do que faz. Ora adota o ar de velho sábio, de quem entrega homeopaticamente os mistérios do mundo; ora faz as vezes de moleque roqueiro, na atitude, no “do-it-yourself”. Ora abraça com força as tradições da música nordestina, atmosfera constante da sua sonoridade; ora é do mundo, experimental e livre como um cidadão de qualquer lugar. Ora na trilha das novelas e com suas melodias na boca de todo mundo; ora em letras enormes, contratempos, síncopes e outras “inacessibilidades” musicais. Lenine é muitos. É um. É o que quiser. Cirúrgico, ele resume, em uma frase, a sua complexidade: “pra você ser homogêneo, é preciso ser heterogêneo”. Acostume-se, Lenine é assim mesmo. Como a música e o amor, ele sempre diz tudo. E sempre tem algo novo a dizer.

A música é presente na sua vida desde a infância, no ambiente familiar. Mas assumir a música como profissão já foi algo do fim da adolescência em diante, não? Você chegou a pensar em fazer outra coisa? Consegue identificar um momento específico em que decidiu isso?

A música foi a substituta das missas para as quais minha mãe nos obrigava a ir aos domingos. Papai permitia que os filhos, quando completavam oito anos de idade, pudessem escolher a conexão com o divino – com a mamãe na missa, ou com ele, ouvindo música. Minha querida mãe perdeu todos os parceiros aos oito de idade... Já estive em outras áreas de trabalho, comecei a cursar Engenharia Química e não me arrependo. Ela me ensinou muito sobre tudo. Por exemplo: “pra você ser homogêneo, é preciso ser heterogêneo”. Isso é uma lei básica das reações químicas, mas que eu carrego comigo como compositor. O momento da escolha se deu quando cursava o terceiro ano de engenharia. Surgiu a oportunidade de participar de um festival de música no Rio no verão de 80, cidade que já exercia sobre mim um grande fascínio.

Na biografia que está em seu site, você é descrito como “recifense-carioca, brasileiro do mundo”. O que isso diz de você?

A mudança [de Recife para o Rio de Janeiro] aconteceu por minha necessidade de aprofundar o que fazia, e naquele momento existiam duas opções: Rio ou São Paulo. Minha ligação com o mar me levou pro Rio. Mas então se consolida a internet, e começa a acontecer uma descentralização muito benéfica, que permitiu que novas gerações não precisassem sair de seus lugares de origem pra tentar uma carreira artística. E isso vem se propagando numa progressão geométrica por todo o mundo. O universo digital nos deu tudo, os meios de produzir, de propagar e de chegar a todos, de maneira ampla e democrática. Hoje falamos da música do Pará, da música da Paraíba, do Rio Grande do Sul... E Pernambuco tem certa culpa neste processo.

Como é seu processo de composição? Há um momento diário no qual você se dedica a isso ou é sempre espontâneo? O que lhe move no sentido da composição?

Primeiro deve existir o desejo de fazer, depois é perseguir a beleza. Sem regras pré-estabelecidas, já que depende do parceiro, de quem vai cantar, qual o destino da canção... Tudo isso define a mecânica da criação. Cada caminho é um caminho. Mas meu violão é sempre meu fio condutor. É difícil de pôr em palavras, mas você se impõe isso e estão intimamente ligados o trabalho e prazer. Tem canções que não precisam de nada. Já nascem prontas e você foi só uma antena para isso. Retrato isso em uma música de Chão, chamada “De onde vem a canção”. A viagem está em “não estar apontado pra nada”.

Seu trabalho é muito plural e se modifica a cada disco. Ao mesmo tempo existe certo traço seu, muito nítido, costurando tudo. Ao ouvir qualquer música sua, é possível dizer “isso é do Lenine”. Em sua opinião, que traço é esse? Do que é feita essa “assinatura”?

Creio que só há uma relação entre minhas obras: foram feitas por mim. Foram momentos diferentes, processos diferentes e cada um em uma época diferente. Cada projeto é fechado em si, todo o processo de fazer é um mergulho profundo – compor, arranjar, produzir, gravar, mixar e masterizar. Quando chegamos ao final do processo e o disco fica pronto, a gente esquece o trabalho que deu e mergulha de novo no fazer. Mas aí é a hora do palco, aquele lugar mágico onde nada se repete, tudo é novidade e estímulo. E seguimos na estrada até o momento onde pinta o desejo de fazer um novo projeto. O segredo é ser fiel ao seu estímulo.

Seus shows têm uma carga meio contemplativa, quase etérea, embora também tenha muita energia ali. Essa estética é intencional ou você foi chegando a ela naturalmente?

Eu prefiro acreditar que consigo, com o que eu faço, entreter as pessoas, educá-las, e levá-las um pouquinho mais além. Não me contento em meramente entreter, eu preciso ter a certeza de que a minha interferência, fazendo o que eu faço, vai além do show. Que a pessoa vem aqui, volta para casa, e antes de deitar, diz “pô, de onde vem a canção, quando ela já vem pronta?”. Isso é um tipo de questionamento que tem a ver como a gente encara a vida diariamente. E isso tudo é muito importante para mim.

Além de compositor e intérprete, você também é produtor – inclusive de discos de outros artistas, como a Maria Rita. Como é pra você, que tem uma estética artística muito particular, produzir outro artista sem sobrepor esses elementos à estética desse outro artista?

É simples: antes de qualquer outra profissão, sou compositor; e, como tal adoro os encontros. São estes que alimentam minha vida! Aprendi a produzir de uma maneira não acadêmica, portanto não me sinto capaz de produzir qualquer artista. Só me sinto confortável produzindo a quem admiro – como foi o caso com Maria Rita, Pedro Luís e a Parede, Chico Cesar, Tcheka etc.

Como foi produzir seu disco mais recente em parceria com seu filho, Bruno Giorgi?

Ah, o Bruno, desde muito cedo, me provou uma competência além da idade. Muito interessado não só por arte, mas pelas ferramentas que nos possibilitam fazer arte. Sempre fomos muito presentes [um na vida do outro]. Ele já produziu comigo anteriormente. A novidade, dessa vez, foi estarmos juntos em todo esse processo. Cair na estrada mesmo. Nos primeiros meses, eu não conseguia olhar para ele, me emocionava muito… Sou muito criterioso, não seria só pelo laço familiar que criaria com um filho, que estaria com ele profissionalmente. É uma excelência.

Como você chegou ao conceito de “Chão”? Como decidiu utilizar ruídos cotidianos nas músicas?

Eu fui gravar as primeiras canções que já estava começando a produzir, junto com JR Tostoi e Bruno Giorgi, meu filho. E pelo fato de o estúdio ser na casa da avó dele, minha sogra, a gente esteve muito próximo do processo todo. A primeira sessão foi para gravar “Amor é Pra Quem Ama”, uma música que terminou entrando no disco. A porta do estúdio estava entreaberta, e aí entrou o canário da minha sogra, o Frederico. E foi lindo porque o Bruno percebeu que Frederico não só estava cantando no tom, mas ele estava evoluindo com o arranjo que eu tinha feito. E aí ele disse “pô, pai, a gente tem que assumir isso!”. E foi o que a gente fez, pegamos o microfone, pedimos silêncio na casa toda e o que você ouve na canção foi o que o passarinho cantou. O que é outra característica do “Chão”: nenhum desses sons foi manipulado, nenhum desses sons foi editado. Eu, na verdade, construí as canções em cima desses áudios originais, o que é um processo inverso da música concreta. Esse Chão ainda tem muito para trilhar.

O que você tem ouvido, lido... Enfim, consumido culturalmente falando?

Sempre fui muito curioso, e continuo sendo. Ando ouvindo em demasia “Posada e o Clã”, “Toe” e “Rua do Absurdo”, muito bom! Agora acabei de ouvir um disco do Vinícius Calderoni, um trabalho belíssimo com seu projeto “5 a Seco”, que também trouxe Dani Black, o “Tó Brandileone”... Tem muita gente bacana. Eu não sou míope, não! (risos)

Como foi a recente turnê pela Europa? Você é bem recebido? Como você acha que a sua música chega aos ouvidos de quem não fala português?

O mundo, a cada ano que passa, se torna cada vez menor. Ter descoberto muito cedo que o tipo de hibridez que a minha música carrega dialoga com o contemporâneo espalhado por este mundo é delicioso. Sempre que volto à Europa sou muito bem recebido!

Qual o balanço desses 30 anos de carreira?

Este é um ano completamente diferente. Foi um amigo que me avisou sobre a conspiração das datas: não são apenas 30 anos de “Baque Solto”, minha estreia ao lado de Lula Queiroga, em 1983. São também 20 anos de “Olho de Peixe”, parceria com Marcos Suzano, em 1993 – além de 15 anos, completados ano passado, de “O dia em que faremos contato”. Eu olhei para trás, gostei do que vi e percebi que minha trajetória foi costurada por essa coletividade. Todas as relações que estabeleci deixaram uma relação de afeto e de carinho. E decidi celebrar isso! Amor não é algo perene. Amor é algo pra se cultivar. Amor é para se cuidar, sabe? É o melhor de tudo: é se encontrar. Alguns nessa trajetória não procuram. Não encontram. Ah, eu encontrei!

O que você sente quando termina uma música nova hoje? E quando sobe ao palco?

Me ouvir é difícil. Por exemplo, quando o CD é finalizado é um exorcismo. Sou muito volátil – para não dizer volúvel – e não posso mais interferir naquilo que está pronto. Já sobre o palco, ao longo desses anos todos, eu só procurei ser honesto com o desejo genuíno de fazer música. Acho que não me distanciei disso – e, talvez por causa disso mesmo, eu ainda tenho essa sensação quase juvenil, de quando, por exemplo, estou me preparando e vou passar o som. Eu já poderia estar sem saco de passar o som, mas eu gosto tanto, e é tão fundamental para mim, que isso virou minha religião. Isso aqui é meu contato com o divino, é minha missa. Eu respeito muito todo esse processo - e continuo me divertindo em demasia.

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