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Novos olhares

As luzes se apagam e o silêncio é ensurdecedor até o fim dos créditos iniciais, que dá lugar a sonoridade da história que se passa diante dos olhos – ouvidos, corpo, alma – dos seus ávidos amantes. Uma, duas; quantas horas forem preciso para que se dê o enredo esperado. Eles não se importam. Fazem parte de uma grande onda que vibra a cada fala, corte e plano – e se multiplica a cada dia mais: os cineclubes.


De 1955 - quando Orlando Teixeira da Costa criou o primeiro cineclube em Belém, chamado “Os Espectadores” - até os dias de hoje, o intuito é o mesmo: reunir pessoas a fim de ter um “encontro” com o cinema como não se tem ao ir simplesmente em qualquer exibição comercial. É como uma convenção de apaixonados (ou quase) pela sétima arte que, além de dedicar um tempo considerável de suas vidas para assisti-la, também compartilham impressões sobre a experiência.


Mas o que é essencialmente um “cineclube”? Basicamente, um pouco diferente do que era em sua gênese, que se deu no início do século XX, na França, com a fundação do “Club des Amis Du SeptièneArt” por Riccioto Canudo. Foi o primeiro cineclube de que se tem registro, onde surge com a capciosa ideia de "educativo" - que, na verdade, revelava uma tendência doutrinária característica dos cineclubes católicos. Hoje, é um canal onde é possível assistir a obras que podem ou não ter passado pelo circuito comercial; com a diferença que, em um cineclube, você dialoga e discute democraticamente sobre o que viu e ouviu com pessoas que estão esperando para dividir isso com você também.


Na cidade das mangueiras, grande parte dos cineclubes em funcionamento é realizada por integrantes da Associação Paraense de Jovens Críticos de Cinema (APJCC), que conta com dezessete membros no total. No blog deles, é possível dar uma olhada na história da associação, dos membros e das atividades por eles organizadas. Comemorando já seis anos de existência, eles garantem que o que os move é realmente o amor pelo que fazem e prazer de encontrar outros que também tem um lugar mais que especial para a telona em seus cotidianos.


Tiago Freitas integra a lista de membros da APJCC, é cineclubista, estudante de cinema e ainda coordena, junto com Max Andreone, o Cine CCBEU - que está em plena atividade e movimenta a cena de novos entusiastas no assunto. Ele define o cineclube como um espaço para desenvolver, entre muitas outras coisas, o senso crítico. “Lá, nossas mentes podem estar abertas  para conhecer as impressões que uma obra audiovisual nos oferece. A perspectiva do encontro é essencial; é estar em um espaço onde as pessoas gostam da mesma coisa e a partir disso conhecem diversos tipos de pontos de vista. É maravilhosa essa troca de ideias”.


O ponto de partida de Tiago foi o mais inocente possível: ele conta que aos onze anos foi a uma locadora sem saber ao que assistir, e um rapaz que tinha um pouco mais de conhecimento sobre cinema indicou “Seven - sete crimes capitais”, de David Fincher. A partir daí foi que o interesse por nomes, diretores e todo aquele universo aconteceu. O amor foi crescendo, até que em 2011 Miguel Raoni, a época coordenador do Cine CCBEU, o convidou para dar continuidade ao trabalho que ele desenvolvia. O cineclubismo começava a não apenas fazer parte da sua vida, mas a se tornar uma oportunidade de cativar outros adeptos - e, ainda, de abrir novas portas. “Meu sonho é contribuir de alguma forma para essa cidade, porque eu a amo, adoro estar nela. Quero que um dia eu possa ser uma referência para meus descendentes. E estou trabalhando para isso, estou atuando no cenário de várias formas, inclusive com o coletivo de cinema que eu faço parte, o “Quadro-a-quadro”. Eu quero ser lembrado no âmbito cultural que é onde eu atuo. Hoje, também sou membro e curador da ‘Sessão Daqui’ no Sesc Boulevard, onde os filmes paraenses têm espaço garantido, já que são apenas exibições de obras regionais”.


Sávio Oliveira é estudante, e com apenas 22 anos já é membro-fundador de seu próprio cineclube, o Super8 – que tem mais dois membros fundadores. A inspiração veio de um curso de linguagem cinematográfica fora do estado. A afinidade com cinema levou Sávio e seus colegas a se reunirem não só para atividades usuais de amigos, mas para pesquisar e dar forma a ideia de criar um cineclube, que para Sávio é “uma organização sem fins lucrativos, uma associação de  pessoas que tem em comum o gosto pelo cinema e que se reúnem regularmente com o intuito de debater. A ideia é fomentar o debate; pois, diferente dos cinemas comerciais onde depois da exibição você vai embora, no cineclube o cinema começa também após o acender das luzes”.
Diferente do que muita gente pensa, cineclubista não é apenas quem organiza as sessões de cinema e debate: é também o espectador, já que ele faz parte da reunião. Segundo Sávio, “o visitante tem voz ativa nesse processo, assim como os organizadores. É aberto e três coisas são essenciais, de acordo com estatuto do cineclube: não deve ter fins lucrativos, deve ter compromisso ético e cultural e ser democrático. Buscamos sempre esse equilíbrio”. É fato sabido que muitos cineastas começaram em cineclubes, mas para Sávio este caminho - embora seja tentador às vezes - não é sua pretensão. “Vejo o cineclube como um fim em si mesmo, não é um meio para outra direção no meu futuro”.


Embora as raízes dos cineclubes tenham sido plantadas há mais de cinquenta anos, com o tempo veio o desgaste da iniciativa. Segundo Aerton Martins - membro-criador do Cineclube Fellinianos da APJCC e coordenador das programações da Sessão Maldita no Cine Líbero Luxardo (Centur) e do Coisas de Cinema – há oito anos a cena cineclubista estava um pouco de lado, não existia mais o debate como algo imprescindível, mas esse cenário mudou. “ Hoje o público não se surpreende tanto com o que se fala dentro de um cineclube. Já existia essa cultura e foi se fortalecendo; até mesmo por meio da APJCC, que retoma um pouco essa a atividade”.


As novas vozes da crítica paraense vieram garantir seu lugar no fomento da cultura do cinema bem no hiato que se deu por volta de 2006, quando o Cine Líbero Luxardo deu uma pausa para reforma. Aerton destaca ainda que o Líbero Luxardo não pode ser considerado um cineclube, já que “é somente um espaço alternativo de exibição, onde não são realizados debates”.


Mesmo tendo ido para os bastidores de quem organiza os encontros, Aerton se considera sempre um espectador, e nunca deixará de sê-lo. “Essa é minha relação com o cinema. Antes mesmo de ser crítico, sou espectador - assim como as pessoas que frequentam a sessão. Me considero um deles”.


Fugir de casa para poder ir ao cinema bem longe da sua vizinhança foi uma das provas de que aquilo era mais do que um simples passatempo - era uma devoção; um desejo de fazer parte que se transformou em vontade de contribuir para que outras pessoas pudessem conhecer o cinema. Para Aerton, é um verdadeiro ritual. “Cresci vendo filmes, procurei sempre pesquisar sobre filmes. Eu moro em Icoaraci e eu fugia para o centro de Belém para ver os filmes aos doze anos. Estar dentro de uma sala de cinema é um ritual indescritível. Para ser cineclubista é preciso amar o cinema. Ser cineclubista é querer compartilhar uma obra com as pessoas”.


Pessoas como Thainá Barbosa, que é estudante e confessa que não fazia a menor ideia do que acontecia em um clube de cinema, foi despretensiosamente e teve grande surpresa com o que viu e ouviu por lá. “Eu já gostava de ver filmes, então um dia - por ser gratuito e ter a oportunidade de ver um filme que não estava no cinema comercial – fui a uma exibição e fiquei para o comentário. Achei muito interessante, porque eu não tinha noção de como o filme acontecia por trás das câmeras, entre outras coisas. Fiquei super interessada e comecei a frequentar os encontros”.
Thainá acha que o segmento ainda sofre com pouca visibilidade - embora seja de uma importância imprescindível – e com preconceitos arraigados que não são verdadeiros. “Esses eventos precisam aparecer. É um ponto de partida para conhecer melhor a cultura. Temos que acabar com o mito de que nesse ambiente só tem gente 'cult'. É muito legal conhecer filmes que não vão estar disponíveis facilmente, ou ter uma oportunidade de ver filmes antigos na telona”.


Esses novos “atores” da cena cineclubista belenense são só alguns membros de um grupo bem maior que movimenta o circuito alternativo e tenta contribuir para que o cinema seja um lugar comum a todos. Onde espectadores e mediadores estão no mesmo patamar e abertos para falar sobre os mais diversos assuntos retratados pelas lentes dos cineastas, famosos ou não. Para entrar em contato com eles e saber o que está rolando nos circuitos dos cineclubes é fácil: basta ficar ligado nos canais virtuais que eles mantém atualizados. Veja aqui e aqui .

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