
Faleceu esta madrugada o arquiteto e engenheiro civil Milton Monte, aposentado pela Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal do Pará. O profissional era conhecido como mestre de gerações de arquitetos. E revolucionou a área ao criar um estilo de vida que faz uso de materiais regionais, que representavam a ligação do homem com o meio ambiente.
No ano passado, ele foi o arquiteto homenageado da primeira edição da Casa Cor Pará. Em entrevista à revista do evento, ele falou sobre a carreira e os projetos que o consagraram como um dos mais importantes profissionais do Estado. Segue a reportagem na íntegra:
“Venci tudo aquilo a que me propus, mas minha maior missão foi servir de exemplo. a única coisa que pedi foi o bem-querer dos meus alunos.”
Antes de o concreto se tornar o principal material das edificações urbanas, o barro, a madeira, a palha e as sementes das árvores serviam de morada para populações tradicionais, como os índios da Amazônia. Essa sabedoria secular, que durante muito tempo ficou esquecida, ou restrita a territórios rurais, ganhou uma releitura e se tornou a principal fonte de inspiração para gerações de arquitetos, que, com uma visão sustentável, passaram a incluir em seus projetos o conhecimento que vinha da floresta.
Pioneiro em um estilo de arquitetura amazônica que acabou virando um conceito copiado no Brasil e no mundo, o engenheiro civil e arquiteto Milton Monte é o grande homenageado da Casa Cor Pará este ano. Na estreia do evento em terras paraenses, ocasião especial que mobiliza o segmento de arquitetura e decoração no Pará e no Brasil, a reverência vai a um mestre que formou gerações e deixou sua marca na arquitetura local.
Milton Monte fala, nesta entrevista, como surgiu a proposta de pensar em uma moradia que estivesse integrada ao ambiente e proporcionasse ao seu habitante mais conforto e funcionalidade. Numa época em que conceitos como sustentabilidade e reaproveitamento de recursos naturais ainda não existiam, o professor inventou uma nova maneira de criar edificações, aproveitando materiais disponíveis na natureza. “Venci tudo a que me propus, mas minha maior missão é mesmo ser um educador”, diz o mestre, aos 83 anos.
Como surgiu a ideia de fazer essa arquitetura amazônica?
Sou filho do Acre, de Xapuri, onde nasci em 28 de janeiro de 1928, no lugar onde a onça ia sangrar suas crias. Aos 4 anos de idade, fui para a capital, Rio Branco, e aos 6 vim para Belém, porque minha mãe era paraense. Essa experiência no interior foi fundamental para a visão que eu viria a construir no futuro, quando a arquitetura se tornasse minha atividade principal. Quando me formei em arquitetura, em 1966, dediquei-me desde cedo em tentar construir uma obra que tivesse relação com o meio ambiente, com o nosso clima, nossa cultura, estes fatores com os quais a arquitetura está diretamente ligada. A partir daí, comecei a produzir este estilo que ficou conhecido como uma marca-registrada e sobre o qual os estudantes da área sempre querem saber, pela escassez de literatura sobre o assunto.
Qual o diferencial deste estilo? Beleza, conforto, funcionalidade?
Usei como referencial o local, mas também viajei muito para a Europa para fazer pesquisa, pois estava ciente da influência italiana e espanhola sobre a nossa arquitetura. Não tinha a intenção de fazer apenas uma plástica bonita, e sim uma casa que se integrasse de dentro para fora e, claro, produzisse um aspecto saudável em seu exterior. Meu primeiro projeto está em Mosqueiro (distrito de Belém). Lá, fiz também uma casinha, um chalé, na qual usei o sistema palafita, que é mundial, não apenas da Amazônia, embora aqui existam razões muito fortes para que ele exista, pois o solo é permanentemente úmido e as águas são de superfície, entre uma série de coisas. Levantar a casa do solo é garantia de durabilidade. A minha casa é assim, toda em madeira, com castelos de concreto simples. Levei este projeto como modelo de construção em madeira na Amazôniaao 17º Congresso Brasileiro de Arquitetos, em 2008. Tenho obras com esse perfil espalhadas pelo Pará, em municípios como Santarém, Salinópolis, Óbidos e Abaetetuba.
O beiral quebrado (telhado que faz uma dobra para evitar a água da chuva) é outra de suas criações. Como surgiu esse projeto?
Surgiu numa casa que fiz também em Mosqueiro, e cujo projeto levei ao I Salão de Arquitetos do Pará, na década de 1960, no qual ganhou distinção. Nesta casa avancei muito as pesquisas de conforto térmico no interior do ambiente, pois foi quando fiz minha grande proposta de beiral, que foi um beiral quebrado, resgate de cultura indígena. A cobertura do indígena é curva, e eu não podia curvar meu telhado, então o quebrei. Criei nosso quebra-chuva, que é uma peça orgânica, e não decorativa. O telhado quebra-chuva(beiral toldo)se transforma. Se estivermos dentro de uma casa com beiral quebrado, temos a sensação agradável de não sermos incomodados pelos raios solares diretos. E o que é melhor: podemos assistir de janela aberta à queda de uma chuvarada amazônica. Só isso produz realmente a sublimação.
Graças a essa ideia, o senhor conseguiu reconhecimento mundial. O modelo passou a ser copiado e virou referência nesse tipo de residência.
Como é saber de toda essa repercussão?
O que acho interessante é a assimilação popular, porque cada um interpreta de uma maneira o beiral quebrado, mas eu não gostaria que isso se transformasse num modismo. Foi o que sempre disse: gostaria que houvesse uma realidade para o beiral ser empregado com muita propriedade. Minha obra não é uma obra de fachada, tenho consciência disto. É, antes, uma obra que prima pela felicidade dos seus usuários, sobretudo na residência. A aplicação do beiral quebrado aparece na obra que mais me projetou, não só na arquitetura regional como nacional e internacionalmente, que foi o Interpass Club, no Mosqueiro. Esse projeto participou de diversos salões, bienais internacionais, exposições e museus de arquitetura na América Latina e Europa. Foi um trabalho que atravessou fronteiras, numa época em que cheguei a ter até 14 obras em andamento.
Outro elemento bastante comum na sua obra arquitetônica é a madeira, que durante muito tempo foi sendo substituída na construção de casas para depois voltar a ser usada, especialmente no interior. Como o senhor usou esse artifício em seus projetos?
Com a madeira fiz o emprego das estruturas e os interiores das habitações. No meu trabalho, fiz da estrutura a própria linguagem plástica, que se reveste na forma. A estrutura é a minha companheira. Como engenheiro civil que sou, e tendo construído muito antes de me formar arquiteto, trabalhei muito organicamente, tanto o espaço concebido quanto a estrutura proposta. E as cores? Como os índios faziam para pintar suas paredes? Usando piçarra e barro, claro. Isso é um princípio básico, que faço questão de seguir e que faz de mim, portanto, uma pessoa de muita simplicidade. Por isso sempre digo aos estudantes de arquitetura que a sofisticação moderna é importante para a produção de um projeto, mas só a sensibilidade do olhar voltado para aquilo que parece comum faz uma obra autêntica.
O senhor também fez objetos de decoração a partir de materiais regionais, entre eles abajures.
Isso mesmo. Fiz um abajur com jupati, um material super-resistente que os pescadores de camarão usam para fazer o matapi, aquela rede, espécie de armadilha portátil, com a qual pescam o crustáceo. Sempre busquei, em tudo que projetei e criei, uma relação do homem com o meio ambiente. A sabedoria popular me inspirou em tudo.
Na sua obra há também projetos de prédios conhecidos, de grande porte. Quais são os principais?
Todos os prédios comerciais que projetei ficam em Belém. Entre eles estão a antiga Casa Bela, na avenida Magalhães Barata, em frente onde hoje é a Delegacia-Geral de Polícia Civil ; o Nassar, na rua Santo Antônio; e dois na avenida Governador José Malcher: o edifício do tradicional Colégio Deodoro de Mendonça, próximo à igreja Assembleia de Deus, e o prédio onde funcionou durante anos o INPS, hoje uma unidade do Sistema Único de Saúde (SUS), na esquina com a avenida Alcindo Cacela.
Além da arquitetura, sua outra grande paixão foi o ensino. Qual foi sua contribuição na formação de tantas gerações de profissionais que seguiram as mais diversas carreiras?
Na minha vida, venci em tudo aquilo a que me propus, mas minha maior missão sempre foi servir de exemplo. A única coisa que sempre pedi em troca foi o bem-querer dos meus alunos. Formei-me em engenharia em 1952 e, 14 anos depois, em arquitetura. A convite do (engenheiro) Alcyr Meira, fui o engenheiro pioneiro do campus de Belém da Universidade Federal do Pará (UFPA). Depois disso, garanti uma formação em desenho técnico de arquitetura, que me permitiu ensinar. Comecei a lecionar arquitetura em 1972, mas desde 1949 já atuava como professor, no Colégio Moderno. Posso dizer, com muita satisfação, que passaram por mim mais de dez mil e quinhentos alunos, entre eles nomes ilustres que depois fizeram história no Pará, como os ex-governadores Almir Gabriel e Ana Júlia Carepa, o professor Edson Franco e o educador João Messias Santos Filho.
Mesmo aposentado, o senhor não parou. Qual seu projeto mais atual?
É um projeto cultural que ainda está em fase de elaboração, mas que, espero, seja ainda bastante conhecido. Pretendo criar o Centro de Referência da Cultura Interiorana do Pará, além de escrever um livro que contenha tudo sobre a minha obra. Tenho um registro fotográfico com mais de duas mil imagens de tudo que fiz, além de muitas histórias para contar. Tenho essa obrigação para com o jovem. Preciso mostrar-lhe a nossa cultura. Não aceito, por exemplo, quando chamam a nossa tangerina de mexerica ou Belém de Belém do Pará. Para mim, é Santa Maria de Belém do Grão-Pará (nome dado à capital paraense quando de sua fundação, no século XVII). Temos de valorizar o que é nosso. Em breve o Brasil vai despontar como um dos três maiores países do mundo. Nada mais justo que tenhamos respeito pelas nossas particularidades.
O que o senhor mais gostava de fazer na sua juventude, além de ensinar e projetar prédios?
Jogar futebol. Toda sexta--feira, aqui no quintal de casa, pontualmente às 8 da noite, reunia um grupo de amigos, alunos, colegas da Escola Técnica Federal (atual IFPA), de onde fui diretor. Aos domingos, tínhamos o campeonato dos professores. Outro hobby era cantar. Sempre adorei isso, embora minha esposa, falecida há 14anos, não gostasse muito, não sei por quê. Eu sempre cantei, contudo, para agradecer a Deus, por todas as dádivas que recebi em toda a minha vida.
*Entrevista publicada na Revista Casa Cor PA - ano 1

Comentários
Neal Adams
July 21, 2022 at 8:24 pmGeeza show off show off pick your nose and blow off the BBC lavatory a blinding shot cack spend a penny bugger all mate brolly.
ReplyJim Séchen
July 21, 2022 at 10:44 pmThe little rotter my good sir faff about Charles bamboozled I such a fibber tomfoolery at public school.
ReplyJustin Case
July 21, 2022 at 17:44 pmThe little rotter my good sir faff about Charles bamboozled I such a fibber tomfoolery at public school.
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