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O futuro já começou

O paraense André Moreira, por natureza, é um homem inquieto e de pensamento voltado para o futuro. “Gosto de pessoas que acreditam que realizar é possível”, costuma dizer. Não por acaso. O engenheiro, formado pela Universidade Federal do Pará, ergueu, junto com o pai e os irmãos, João Carlos e Maurício, a maior e mais respeitada construtora do Norte do Brasil: a Leal Moreira. Apaixonado pelo universo da comunicação, não tardaria a enveredar por outro caminho: o das ideias criativas de negócios que expressou por meio da propaganda e marketing. Fez pós-graduação na área e cursos de gestão. Há dez anos, enquanto capitaneava sua recém-aberta agência de publicidade, veio-lhe à mente uma ideia: uma revista inovadora, diferente de tudo que o mercado editorial havia visto até então. Nascia a Revista Leal Moreira (então chamada de Living), uma publicação que refletia o estilo de vida de quem vivia um Leal Moreira. Nesta conversa, que ocupou uma tarde inteira na concorrida agenda do empresário, conseguimos ter contato com o André que poucos conhecem: um homem que fala de sua intimidade – o que é raro de acontecer –, de sua paixão pela família e de sua infância. Como nada, no que tange à trajetória deste sagitariano inquieto é óbvio (e nem ele preferiria que assim fosse), o convidamos a falar sobre Belém (já que dele nasceu a ideia desta série de entrevistas que, até 2016, falará sobre os quatro séculos de nossa cidade) e a dividir alguns de seus pensamentos para com a “cidade das mangueiras” e foi nosso privilégio saber que a conversa, que você lê a seguir, é a semente inicial de um “Fórum Permanente de Ideias para Belém”, desejo há muito acalentado por ele.

Eu queria que falasses da tua relação com Belém... Gostas da cidade onde vives?

Gosto muito de Belém. Sempre fui muito crítico com o aspecto de “o que fazer em Belém?”. Eu lembro que até uns quinze anos atrás, quando eu viajava, eu convidava as pessoas a visitar Belém e te confesso que pensava: “o que eu vou mostrar de Belém que esteja bonito para ser mostrado?”. Não porque faltassem lugares para conhecer, mas preciso confessar que pensei muito, à época, em morar fora daqui. Florianópolis, Rio... nessas cidades havia muita liberdade de andar tranquilamente, ver o pôr do sol... havia aquele sentimento de “cidades sem amarras”. Foi quando Belém começou a mudar. Digo também sem receio que o Paulo Chaves (arquiteto e atual Secretário de Estado de Cultura de Governo) foi um divisor de águas nesse processo: quando as portas para o rio começaram a ser (re)abertas – o que era um anseio muito grande da população. Não havia como Belém continuar de costas para seu rio. Foi nesse momento que as minhas “próprias janelas” também foram escancaradas. Quando olhei a visão que a orla me proporcionava, pensei: “que beleza encantadora!”.  Belém precisava (e precisa) de projetos ousados, que revelem seu potencial, que exibam sua beleza. Daí começaram a surgir pontos revitalizados que nos permitiram um outro olhar sobre a cidade. Acho, inclusive, que essa “visão“ demorou a chegar.  Talvez ainda tivéssemos o Grande Hotel e tantos outros lugares que hoje habitam nossos pensamentos e saudades. Belém, depois do [Antônio] Lemos, nunca mais teve um gestor disposto a abraçá-la, a amá-la com vigor e disposição para devolver a ela a condição de metrópole da Amazônia. E com o tempo, esse desejo amenizou, se perdeu... Manaus, nossa vizinha, administrou muito melhor seus potenciais – investiu pesado para tornar a cidade a metrópole; a porta de entrada da Amazônia.

Um sonho seu para Belém...

Que Belém seja uma referência para o restante do Brasil. Respeitando suas particularidades e potencialidades. É um sonho antigo – e pelo que sei há um projeto – que Belém tenha um grande aquário, em padrões internacionais, amazônico. Sempre sonhei com um grande parque indígena do outro lado do rio – que proporcionasse uma experiência inesquecível aos seus visitantes – voltado à preservação da cultura desses povos. Imaginem para o turista passar um dia em uma aldeia (algo que se assemelhasse a uma “disney” indígena)  provando a culinária, pintando seus corpos, dançando e brincando de atirar com zarabatanas. Precisamos incentivar a iniciativa privada a abraçar esses projetos ousados. Se fosse possível, por exemplo, ao empresariado local aproveitar uma estrutura governamental com essa finalidade, certamente isso seria um estímulo a mais. Belém teria muito mais a oferecer do ponto de vista arquitetônico, como a “francesinha do norte”, que já foi um dia; o Marajó precisa ter acesso mais facilitado – aquele pedaço de chão é um pedaço do paraíso na Terra...

Falamos até agora em aspectos arquitetônicos, de beleza...

Acho que a beleza é o que salta aos olhos, não tenho dúvidas. Mas uma cidade realmente bela tem de ser saudável. Precisamos de saúde de qualidade para todos. Precisamos de segurança! Essa é, aliás, uma questão relacionada ao nosso cotidiano que muito me preocupa. O que estou tentando dizer é que saúde e segurança precisam ser olhados de maneira muito séria. Mas nossas riquezas também precisam de cuidado... a arquitetura, nossa herança indígena, nossa herança portuguesa, além de outras tantas etnias que por aqui aportaram e tanto contribuíram para nosso povo e cidade. Mas somos amazônidas em essência. Estamos no coração da Amazônia. Nós já fomos porta de entrada da região – e essa referência, penso eu, que tem de ser resgatada, por meio de políticas sérias. Somos a Belém da Gastronomia – única, respeitada no mundo inteiro! A “Meca” dos chefs de cozinha! Esse turismo gastronômico e mesmo os produtos made in Pará precisam ser potencializados. Ah, não posso deixar de mencionar o cenário musical paraense...

O Pará definitivamente entrou no setlist nacional...

Eu lembro de quando o Pará produzia lambada para exportação (risos) e como virou febre no país. E agora os olhos da música brasileira se voltam para Belém como a única coisa realmente nova, a única novidade... a coisa mais original dos últimos tempos. É muito bom você ver a Lia Sophia, a Gaby Amarantos – talvez a maior expressão neste momento – Felipe Cordeiro, que tem uma pegada sensacional – gosto de ouvi-lo enquanto dirijo. A inovação nos shows da Gang do Eletro. Ver todos esses e muitos outros fazendo sucesso dá um orgulho danado! Só lamento o preconceito com o “brega”, já que no restante do país, a palavra era vista como algo depreciativo, fora de moda. Que bom que o “treme” é melhor aceito! (risos)

Pontuaste aspectos muito importantes e gostaria de voltar à Gastronomia. Por uma razão natural: porque a própria Leal Moreira é parceira do Ver-O-Peso da Cozinha Paraense, o maior e mais antigo festival do gênero do Norte do Brasil. Foi esse desejo pelo reconhecimento da culinária paraense que motivou essa decisão?

Sim. Sempre fui muito fã do festival, do Paulo Martins – que levou nossa cultura gastronômica para muito além das fronteiras físicas do Pará e do Brasil. E elevou o nível da gastronomia paraense. A nossa gastronomia é sem dúvida uma das nossas grandes riquezas. E o Paulo era de uma humildade... quando levava consigo ou enviava, a pedidos, os isopores com tucupi, jambu – foi ele quem espalhou nossas sementes por aí. E o VOP sempre foi conduzido muito aguerridamente pelo Paulo.

A Tânia [Martins, viúva do chef e presidente do Instituto Paulo Martins], em nosso primeiro contato, contou que muitas vezes o Paulo realizou o festival “na raça”, sem quase apoio algum... Infelizmente o Paulo se foi e admito que dava uma dor ver um festival tão bonito sem a merecida expressão e divulgação... É um privilégio somar forças com a família Martins e quero – e desejo – que o VOP fique cada vez maior, porque a cultura paraense se fortalece e cresce como ícone da cultura gastronômica nacional.

O André Moreira vai ao mercado do Ver-O-Peso?

Vai, mas gostaria de ir mais. O Ver-O-Peso precisa passar por uma gigantesca reestruturação – da sanitária, passando por um reforço emergencial na segurança, até a própria revitalização arquitetônica da feira. O Ver-O-Peso, ao meu ver, tinha de ser um centro gastronômico maior ainda do que ele já é – passar por uma padronização; desviar a rota dos ônibus dali, ampliar o calçadão, reestruturar o Solar da Beira, capacitar os feirantes, os vendedores, as boieiras... A exemplo do La Boqueria [o mercado], em Barcelona, o Ver-O-Peso poderia ser um centro gastronômico muito, muito melhor do que ele é. E mais seguro: até para que os turistas queiram e possam estar lá tranquilamente. E essa reestruturação tem que ser ampliada para seu entorno também. E não posso deixar de falar do mercado de São Braz... Aquele lugar é o nosso Covent Garden [distrito de Londres e um mercado que lembra muito o de São Braz] e ali deveria ser um Polo Gastronômico, com alguns feirantes, mas que fosse eminentemente um local onde pudessem acontecer cursos de culinária, qualificação. Eu acho que o SEBRAE-PA, por exemplo, tem tanta oportunidade de trabalhar ali, quanto no Ver-O-Peso. Você já pensou se aquela praça, em frente ao mercado de São Braz, abrigasse inúmeros restaurantes e ali houvesse várias mesas, mercado ao ar livre de venda de especiarias? Tenho certeza de que as pessoas adorariam passar o dia inteiro ali.

Tua formação como engenheiro te faz ter um olhar muito apurado para aspectos arquitetônicos e tua atuação como publicitário te faz ser um observador da cultura cotidiana, mas preciso te perguntar o que achas da autoestima do paraense...

Acho que muitas vezes o paraense, apesar de muito orgulho de sua cultura, ele a discrimina.

Mas....?

Acho uma pergunta complexa de responder. Percebo que a criança e o idoso sofrem muito em Belém.

Falas de acessibilidade?

Não. Falo de falta de opções que nos permitam exercer a liberdade. E um povo que não pode se sentir liberto – por falta de opções ou por falta de segurança – não pode se sentir parte integrante da sua cidade. Eu acho que o paraense não vive em plenitude tudo que Belém tem a oferecer. E acho que nós temos orgulho do que nossa capital é. E não como está. E isso, sequencialmente, deve-se à falta de gestão, de governo. Falta saúde, falta segurança... Belém é uma cidade mal iluminada, escura. As praças são sujas. E acho que dignidade passa muito por aí: garantir o mínimo de direito à segurança para que a população possa frequentar suas praças... que as crianças possam correr ao ar livre, onde os idosos pudessem sentar, conversar. Dá para andar tranquilamente em Belém?

Houve uma inversão, de fato: cada vez mais o cidadão paraense está “preso” dentro de casa...

É o que eu acho. E lamento que nossas crianças e idosos sequer possam sair de casa. Isso me entristece demais. Você não faz ideia. Pela falta de segurança e por questões de preservação, mesmo. As calçadas de Belém são ingratas com todos seus cidadãos... que dirá com seus idosos. Deixa eu te dizer: o povo de Belém é de uma hospitalidade ímpar. Somos um povo carinhoso, afetuoso, “chegado” [risos], respeitando o nosso vocabulário. O povo quer receber... mas precisamos de mais investimentos. Em suma, a maior riqueza de Belém é o povo de Belém.

Cresceste na Cidade Velha, não é?

Cresci! E posso dizer, com muito orgulho, que eu fui um “menino de rua” da Cidade Velha. Eu saía da minha casa, na Tamandaré, com mais alguns amiguinhos e ia andando pelo Porto do Sal, até o Forte do Castelo. Sem medo, sem nenhum adulto tendo que nos acompanhar. Íamos “catando” maços de cigarro, para transformá-los em “dinheirinho” – brincadeira de criança que nem existe mais. Eu lembro que o maço do Luiz XV valia 15 cruzeiros [risos]. A gente ia procurando as embalagens vazias de Gaivota, Carlton, Minister. Eu fui moleque de procurar minhoca no quintal de casa, colocar em uma lata, para levar pro Porto do Sal para pescar. Eu vivi isso! Tomava banho de chuva no meio da rua, banho de bica, de calha d’água.

Ficas preocupado que teu filho não viva as mesmas experiências que viveste?

Pois é... Eu queria muito que o Pedro tomasse banho de rio, que ele pudesse viver a orla (e a expansão dela) de Belém. Eu gostaria de poder levá-lo para Icoaraci... a Icoaraci que vivi na minha infância. A Augusto Montenegro inibe muito quem deseja ir para lá... o trânsito é um caos e falta segurança. Lamento profundamente porque Icoaraci é uma pequeno oásis, um refúgio a alguns quilômetros do centro de Belém...  Em relação aos projetos pensados para Belém, torço que o da ponte (ligando a região das ilhas a Belém) – e essa não é uma ideia minha, o Aurélio Meira falou sobre isso [edição 36], é um projeto do Dr. Alcyr Meira, saia do papel. Se o Zenaldo conseguir colocar em atividade os táxis de rio, à semelhança dos vaporettos, Belém viverá plenamente sua vocação marítima, como cidade à beira do rio, voltada para as águas. Espero que o projeto da orla seja concluído, que chegue à UFPA. Quero muito levar meu filho, no cair da tarde, à beira do rio – como ela merece ser vista.

Preciso te fazer uma provocação necessária. Como lidas com as críticas de que Belém está se tornando uma selva de pedra, que é justamente o setor da construção civil que está contribuindo tanto para “enfeiar” a cidade? Ao mesmo tempo em que preciso também te perguntar como a iniciativa privada, o empresariado pode ajudar Belém a ser uma cidade melhor?

Primeiro, deixa eu te dizer que o crescimento vertical é inexorável. Por quê? Belém não tem mais para onde crescer, faltam áreas, falta segurança. Veja bem: eu mesmo morei em casa por muitos anos – foi o período mais feliz da minha vida, mas por motivos de segurança, minha família optou por um apartamento. E é esse sentimento que norteia nossa filosofia de trabalho: que os apartamentos que construímos assemelhem-se a uma casa, em espaço, conforto e diferenciais. Nossos empreendimentos respeitam as políticas públicas, respeitamos distâncias e a legislação. Em relação às boas iniciativas, podemos pensar em maneiras de padronizar as calçadas de Belém; podíamos pensar em reformar praças... Volto a bater na mesma tecla: onde levar nossas crianças e idosos? Em qual lugar de Belém podemos dar liberdade a esses entes – diga-se: é um direito constitucional, o de ir e vir. Por que não ampliamos a Estação das Docas? Ali não cabe mais um porto – na minha humilde opinião, afinal Belém tem outras portas de entrada e saída. O empresariado é parte fundamental nesse processo de melhoria e embelezamento da cidade. Precisamos nos unir mais.

Trazendo nossa discussão para a Revista Leal Moreira, qual foi teu objetivo em instituir a série “Belém – 400 anos”?

Tentar, por meio de opiniões diversificadas, provocar o pensamento coletivo sobre Belém. Que entendamos que nossa cidade tem muitos defeitos e inúmeras virtudes e que pode ser diferente – para melhor. Mas para tal, precisamos de ideias, de projetos, de políticas e, principalmente, pessoas corajosas. E insisto: Belém tem de ser entendida como aquela cidade que gosta de receber, mas que esteja preparada para receber. Sabe o que eu acho? No que diz respeito a Belém e à ousadia que nos falta? Que falta dar asas a quem deseja voar... Por isso eu tenho muito orgulho do que o Paulo Chaves fez por Belém. Também tenho orgulho dos gestores que acreditaram nele.

O que tu mais gostas em Belém?

Fora algumas coisas que citei aqui...?

Sim.

[André Moreira fica emocionado] Gosto de mostrar Belém para meu filho. Especialmente a cidade que eu vivi e que adoraria – do fundo do meu coração – que ele pudesse viver. E tenho essa saudade no meu peito.

Esse é teu desejo maior? Como homem público, como pai? Que teu filho pudesse ter uma infância tão ingênua e liberta quanto a tua?

Meu filho e meus pais. É meu maior desejo que meu pai [Carlos Moreira, diretor-presidente da Leal Moreira], que é um apaixonado pela Cidade Velha, onde ele religiosamente passeia todo domingo, pudesse, em vez de ser de carro, caminhar com minha mãe pelas ruas do bairro. Sem medo, sem insegurança... que ele pudesse ver casas e logradouros preservados. É difícil mudar essa realidade, esse ciclo vicioso. Nossos gestores precisam investir pesado na educação de nossas crianças, porque a mudança de Belém vai acontecer nas próximas décadas. Investimentos em saúde precisam acontecer logo e mais. Belém precisa ser pensada para ter (e mostrar) horizonte.

E o que esperas ver em Belém, daqui a dez anos?

Sabe o que falta? Um fórum sério, permanente, de ideias para Belém, que pudesse nortear ações para Belém... e, principalmente, executá-las ou buscar parcerias e meios por onde fazer isso. Tenho que dizer, em primeira mão, que quero viabilizá-lo, realizá-lo. Esse é um projeto que olharei com carinho: procurar pessoas com as quais pensar coletivamente ideias para nossa Belém.

    

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