A serenidade no semblante, a voz tranquila e a fala pausada em nada lembram a vida agitada, corrida e cheia de compromissos de Nelson Cândido Motta Filho - Nelsinho, como é carinhosamente chamado. Produtor, jornalista, roteirista, crítico, letrista, colunista... é necessário ter fôlego e disposição para falar dele. Nelson Motta é muito em muitos. Um homem de fé, que reza, agradece, pede proteção, humildade e aceitação. Um buscador de conhecimentos, novidades, experiências e de si mesmo.
Para Nelson, não existe tempo ruim nem espaço para reclamações; a chave está em ir atrás dos sonhos, se permitir, fazer várias coisas ao mesmo tempo e deixar que as experiências se complementem. E, dessa forma, ele traçou o percurso, “pulando de galho em galho”, como diz, entrando pelas portas que se abriam, ao invés de lamentar as que estavam fechadas. Procurou não se aprofundar numa só temática, pelo contrário, optou por transitar entre diversos assuntos e soube explorar as várias habilidades profissionais que possui. As composições musicais não são poucas, tampouco saem de moda: “Bem Que Se Quis”, “Como uma onda”,”Coisas da Vida”, “Dancin’Days”; todas ainda hoje na boca das pessoas e na voz de talentos da nova geração da música brasileira.
Padrinho musical de Marisa Monte, Elis Regina, Daniela Mercury – entre outros; parceiro de Lulu Santos, Ed Motta, Djavan, Dorival Caymmi – entre outros, conviveu com figuras como o escritor Nelson Rodrigues, o músico Vinícius de Moraes, os jornalistas Glauber Rocha e Paulo Francis. Nelson dá muito “pano pra manga” nesse vasto tecido que é a história cultural brasileira. Difícil é recortar um pedacinho de assunto numa só reportagem em meio ao vasto conteúdo que a vida e as obras de Motta têm.
Hoje, o maior produtor musical do Brasil deixou o posto de lado, está completamente dedicado à escrita e olha sem quase nenhum arrependimentos para os muitos ‘chãos’ que percorreu na caminhada profissional. Como o próprio Motta disse “A vida ensina que não se aprende a viver senão vivendo entre o não e o sim”. Nos últimos dez anos, o jornalista lançou três romances pop – “O Canto da sereia” (2002), “Bandidos e Mocinhas” (2004) e “Ao Som do Mar e à Luz do Céu Profundo” (2006), a biografia de Tim Maia, “Vale tudo – O som e a fúria de Tim” (2007), o elogiado “Força Estranha” (2010) e o mais recente “Primavera do Dragão – A juventude de Glauber Rocha” (2011). E quem acha que a jornada já está cansativa, se engana: aos 67 anos, Nelson ainda esbanja produtividade! Atualmente, ele está trabalhando como roteirista de um longa-metragem sobre a cantora Elis Regina, com quem viveu um romance, e escreve dois novos musicais: um sobre a discoteca Dancin’Days e as Frenéticas e outro sobre a vida de Elis.
Longe dos holofotes, é filho de pais vivos, pai de três mulheres – Joana, do primeiro casamento, Esperança e Nina, frutos da união que teve com a atriz Marília Pera – e avô de duas meninas e um menino. Também é dono de Max, um gato com quem divide o apartamento em Ipanema, no Rio de Janeiro.
Simpático e bem humorado, Nelson Motta conversou com a Revista Leal Moreira sobre arte, tecnologia digital, a relação com a escrita e a admiração que tem pela música e cultura paraenses.
Existe algum fato específico que fez você querer trilhar pelo caminho musical?
Meus pais sempre cultivaram em mim o gosto pelo futuro e a loucura por aprender – eles constantemente me estimulavam a buscar o novo onde quer que eu estivesse: nas artes, política ou no comportamento. E a novidade era a bossa nova! Eu queria ser músico, violonista como Roberto Menescal, meu professor, mas meu talento não deu para tanto. Em compensação, aprendi muito sobre música, o que me ajudou quando fui ser compositor, crítico e produtor musical.
Você acompanhou diversos momentos e transformações na música brasileira, o desenvolvimento do rock no Brasil, o movimento da bossa nova e produziu grandes cantoras, como Marisa Monte, Elis Regina e Gal Costa. Como você analisa o cenário da MPB atualmente?
Hoje não tenho a menor vontade de me envolver na produção musical e não tenho acompanhado. Estou dedicado a escrever um roteiro de um filme e dois musicais de teatro. Têm alguns novos nomes que eu adoro, como Criolo, Roberta Sá, Maria Gadú, Léo Cavalcanti e as paraenses Gaby Amarantos e Lia Sophia.
O que determina a carreira e o sucesso de um artista hoje, em comparação com o passado?
Talento, determinação, inteligência e sorte não têm época. Podem mudar todos os meios de chegar ao sucesso, mas esses sempre prevalecerão.
A tecnologia digital aumentou a popularização da música na internet, trouxe a pirataria e mudou a forma de se ouvir e comercializar música. Você tem falado bastante a respeito desse processo...
Fazer e consumir arte musical se tornou bem mais fácil e acessível, bastam talento e um laptop! Com a tecnologia digital, a música se banalizou, qualquer pessoa pode fazer música sem saber música. O comércio globalizado de música, legal e pirata, acabou com a ilusão de glamour da música popular e a vulgaridade se tornou um valor indispensável ao sucesso de massa. O próprio tecnobrega, de Belém, criou um novo modelo de negócios na era digital, instituindo a pirataria de si mesmo como meio barato de popularizar artistas e fazer dinheiro com apresentações ao vivo. O resultado é todo esse sucesso local, regional e até nacional, de bandas e artistas do tecnobrega que souberam conquistar milhares de consumidores ao vender, a preços acessíveis, a música que eles desejavam.
Você é um escritor em tempos de internet. Como as duas coisas podem se misturar de maneira positiva?
Me animo com desafios e novidades. Fico excitado quando vou trabalhar numa linguagem nova para mim. O importante é que meu trabalho possa alegrar, divertir, emocionar, ajudar e esclarecer um pouco as pessoas; é a minha ambição máxima!
Quando você olha para trás e vê todos os seus registros, sejam eles na música, literatura ou no jornalismo, qual é a sensação?
Há muito tempo, fiz uma escolha: ao invés de mergulhar profundamente em um assunto, prefiro navegar superficialmente por vários. Se fosse obrigado a fazer uma só coisa a vida inteira, enlouqueceria de tédio. Sou um homem de superfície, o que não é nem bom nem ruim, é apenas uma característica. As nossas experiências se complementam As letras de música ajudam na escrita, a faculdade de designer, na formação de projetos, a vivência como crítico musical auxilia na produção de discos, a literatura na dramaturgia e o jornalismo ajuda em tudo!
Há algum arrependimento?
Nunca briguei com nenhum artista com quem trabalhei, pelo contrário, sempre fiquei amigo. Me arrependo apenas de ter perdido tempo com chatos querendo me mostrar músicas e que eu fizesse deles estrelas...(risos)...se bem que a praga continua...(risos).
Existe algo que mais te marcou nesse trajeto?
Minha sensação é a de que fui conduzido como uma onda no mar, algumas vezes surfando nela, outras, levando “caldo”. Não sou pessoa de “determinação cega”, entrei pelas portas que se abriram, ao invés de reclamar das que estavam trancadas. Além disso, sou um homem de muita fé!
Os projetos atuais, quais são?
Estou desenvolvendo o roteiro de um longa sobre a vida de Elis. Além disso, escrevo dois novos musicais – um sobre a discoteca Dancin’Days e as Frenéticas e outro sobre a vida de Elis Regina, dirigido pelo João Fonseca.
Em entrevistas, você tem falado bastante sobre o seu encantamento pela música do Pará, especialmente pelos trabalhos de Gaby Amarantos, Lia Sophia, Felipe Cordeiro e Gang do Eletro. O que diferencia a música paraense e qual a importância no panorama da música brasileira?
Foi o Hermano Vianna quem chamou minha atenção para esta cena, há uns quatro anos. Depois fui a Belém e conheci tudo aquilo – a maravilhosa Lia Sophia, Gang do Eletro, Felipe Cordeiro, a fabulosa Gaby Amarantos, Luê Soares, Félix, do La Pupunha, o produtor Waldo Squash. O Pará tem músicos incríveis, levadas diferentes, ritmos variados, forte influência caribenha. Eles têm um frescor e uma vitalidade! É atualmente a cena musical mais interessante do Brasil.
Você já teve a oportunidade de conhecer Belém. O que te chamou atenção na cidade?
A beleza da cidade, o carinho e a simpatia das pessoas – e principalmente o talento musical e diversidade. Claro, a cidade também é linda, a parte antiga, os sobrados, as igrejas, tudo bem conservado, melhor do que muitas capitais, como Salvador, por exemplo. Gosto de freqüentar as Docas.
Provou algo da culinária típica?
Sou alérgico a qualquer tipo de peixes e crustáceos, então fico prejudicado em Belém.
Dançou carimbó? (risos)
Nunca dancei nada! (risos) Fui dono de cinco discotecas, mas não gosto de dançar. Adoro ver as pessoas dançando e adoro música dançante... sentado, no meu lugar....(risos)

Comentários
Neal Adams
July 21, 2022 at 8:24 pmGeeza show off show off pick your nose and blow off the BBC lavatory a blinding shot cack spend a penny bugger all mate brolly.
ReplyJim Séchen
July 21, 2022 at 10:44 pmThe little rotter my good sir faff about Charles bamboozled I such a fibber tomfoolery at public school.
ReplyJustin Case
July 21, 2022 at 17:44 pmThe little rotter my good sir faff about Charles bamboozled I such a fibber tomfoolery at public school.
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