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Quando a música encontra a poesia

Entre a palavra e o som, a poesia e o poder da canção. Transitar com leveza pelo universo da música é uma dádiva para poucos; ter consciência deste dom e usá-lo com clareza é um fenômeno mais raro ainda. Foi esta percepção que uniu os artistas Arthur Nogueira e Bruno Cosentino. Separados pela geografia brasileira – Arthur nasceu no Pará e Bruno, no Rio de Janeiro -, eles se encontraram na paixão em comum e transformaram o acaso em arte. O resultado pode ser visto em Belém na noite da última quarta-feira, 4 de abril, em um espetáculo que reuniu composições de cada um e que recontou a história de uma amizade que mal começou, mas já dá bons frutos.

Unidos por muitas coisas em comum, principalmente pela admiração pelo filósofo e poeta Antonio Cícero, conhecido por compor para nomes como Marina Lima e Adriana Calcanhoto, Bruno e Arthur se preparam para subir juntos ao palco pela segunda vez. Porém, ao invés do estranhamento comum de um início, a interação entre os cantores parece fluir com a naturalidade de quem já se conhece há anos. “Nosso primeiro show foi no Rio de Janeiro e umas duas semanas após nos conhecermos. É engraçado como rápido nos afinamos”, relembra Arthur.

Na entrevista descontraída – que à pedido de Bruno aconteceu ao sabor de um sorvete de tapioca - saiba um pouco mais estes dois jovens artistas cujos trabalhos se tocam na força da palavra. Confira:

Um do Pará e outro, do Rio de Janeiro. A primeira pergunta não poderia ser outra: como vocês se conheceram?

Bruno – conheci o trabalho do Arthur após ver uma entrevista que o Antonio  Cícero citou o trabalho dele. Resolvi procurar conhecer porque realmente nunca me decepciono com as indicações de Cícero!  (risos). Logo depois procurei na internet e adorei! O que me chamou mais atenção no trabalho do Arthur foram as letras. Atualmente os compositores parecem dar pouco a atenção pra isso. A gente vê mais uma turma preocupada com elementos eletrônicos e a embalagem do produto e pouco atentos ao verso. Depois disso, mandei um e-mail para ele e começamos a trocar figurinhas. Duas semanas depois o Arthur já estava no rio para nosso primeiro show.

E você, Arthur, como recebeu o trabalho de Bruno?

Arthur – Quando recebi o e-mail do Bruno logo fui atrás do seu trabalho. Aí fiquei impressionado! Ouvi a música dele chamada  “Setembro”, com a letra do poeta  Eucanaã Ferraz, que tenho uma admiração imensa,  e isso me chamou muita atenção. Era a primeira vez que via os versos deste poeta musicados e a melodia de Bruno é realmente comovente. Da mesma forma como ele se atentou para as minhas letras, vi nele um cantor que se preocupa com a técnica da voz, que é algo que considero muito importante.

Então o trabalho de vocês se encontra no cuidado com a palavra? Existem outras semelhanças que vocês descobriram na produção de cada um?

Arthur – A gente realmente se identifica com a forma do outro de compor. Temos muitos ídolos em comum, principalmente na literatura. E essa coisa de entender a letra como a alma da música – claro que sem deixar de lado a preocupação com a sonoridade – é rara atualmente.  A poesia é o cerne do nosso trabalho.

Bruno- Outra semelhança interessante no nosso processo de composição é que ambos procuramos inspiração exatamente nestas referências que nos cercam. Nosso trabalho reflete esses sinais que chegam a nós.

O poeta Antonio Cícero é um elo importante entre vocês. Indiretamente, foi por ele que vocês se conheceram e ele também foi um dos convidados especiais do primeiro show que fizeram juntos.  Me falem um pouco sobre a importância desta figura para vocês.

Bruno - sou extremamente fã do Cícero, tanto como compositor e filósofo. É, sem dúvida, um dos maiores pensadores do país na contemporaneidade. Ele tem uma forma muito peculiar de escrever que é um ensinamento mesmo. Assim como ele consegue ser complexo em suas poesias, também sabe ser simples – porém, profundo – quando escrever músicas.

Arthur – Essa tranquilidade que o Cícero, grande poeta e compositor, espelha em seu trabalho, com sensibilidade e simplicidade, é sem dúvida uma das maiores inspirações para nós dois. Tê-lo no show que fizemos juntos no Rio de Janeiro foi um grande prazer.

Na apresentação feita no Rio de Janeiro vocês contaram com participações especiais e também se propuseram a cantar as composições do outro. O que mudou de lá para cá que pode ser percebido no show que vocês fizeram juntos agora em Belém?

Arthur – No Rio o show foi praticamente voz e violão, contando com a participação de um pianista em algumas canções. Em belémm, tivemos uma ótima banda de apoio que contou com os músicos paraenses Renato Torres (violão, guitarra) e Arthur Kunz (bateria, efeitos). Assim como no espetáculo que fizemos lá, aqui também trouxemos canções antigas dos nossos repertórios e clássicos de Vinicius de moraes e Marina Lima, por exemplo.

Bruno – Como nossa maior paixão é a poesia, assim como no Rio aqui também demos uma atenção especial para a poesia. Recitamos poemas que gostamos e outros trechos de textos. A ideia era mesmo a gente mostrar um pouco do que nos une. Também aproveitamos para arpresentar pela primeira vez a música que fizemos juntos, que fala exatamente sobre aquilo que mais amamos e que nos une: o processo de composição. E com certeza esse é o só o primeiro resultado dessa parceria, que muito possivelmente vai render um disco.

Um pouco mais sobre artistas:

Bruno Cosentino | Como integrante da banda Isadora (RJ), lançou o álbum "A eletrônica e musical figuração das coisas" em 2010. Prepara-se para gravar, em 2012, o primeiro álbum solo da carreira, no qual reunirá parcerias com os escritores Eucanaã Ferraz, Paulo Henriques Britto e Antonio Cicero.

Arthur Nogueira | Aos 23 anos, possui dois álbuns lançados, "Arthur Nogueira" (2007) e "Mundano" (2009), e um EP virtual, "Mundano " (2010). Tem parcerias com Antonio Cicero, Omar Salomão, Dand M e outros poetas. 

Para quem perdeu o show dos dois artistas, na próxima quarta-feira, 11 de abril, Arthur Nogueira - agora sozinho - volta a subir ao palco. Não perca!

SERVIÇO:

Show de Arthur Nogueira

Sesc Boleuvard – em frente à Estação das Docas

Dia 11 de abril, quarta-feira, às 19h

Entrada franca

 

 

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