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Quase famoso

Andando pelo Leme, no Rio de Janeiro, Lúcio Mauro Filho parece personificar o próprio bairro e seu ar familiar. Acessível, simples, extremamente simpático... Nem parece famoso, é o que diriam alguns. Mas Lúcio, ou Lucinho, é assim mesmo. O riso fácil e o jeito tranquilo escondem uma rotina quase assustadora, reflexo do excelente momento profissional: dublagem, peça de teatro, televisão. E Lúcio ri da falta de tempo, passeia por entre suas muitas habilidades – autor, diretor, roteirista, ator, até compositor de trilha sonora para teatro – e aproveita cada instante que a correria lhe concede para estar presente dentro de casa.


E parece conseguir muito bem. No ar na série “A Grande Família” (exibida pela rede Globo às quintas de noite), terminando de gravar a voz do protagonista do segundo filme do “Kung Fu Panda” e em cartaz com o monólogo “Clichê”, ele recebeu a revista Leal Moreira em seu apartamento, numa manhã de segunda-feira, perdido em meio à mesa do café-da-manhã e aos muitos roteiros para estudar – e já meio de saída para um dia inteiro de gravações. Sem demonstrar pressa alguma e com o bom humor que lhe é peculiar, ele conversou com a gente e dividiu sua relação com a família, o trabalho, a música e suas inquietações. Você confere o resultado agora.

Você passa mais a sensação de pai de família do que a de celebridade. A imprensa também parece não ser tão invasiva com você.  Como é essa relação com a mídia e com a construção da sua imagem?

É uma relação muito boa, mas foi realmente uma relação construída. Primeiro, porque a nossa produtora aqui no Rio também trabalha com assessoria de imprensa de atores, e a agência começou na noite, com a Cíntia (esposa dele) produzindo eventos e tudo o mais. Então você acaba participando do outro lado. Muitos dos jornalistas que poderiam me perseguir foram meus colegas durante esse período. Por isso é uma relação diferente daquela entre a celebridade e o jornalista que perturba.

Seus filhos lhe acompanham em tudo: viajam para outros países, às vezes para lugares inóspitos, e vocês parecem ser muito companheiros uns com os outros. Como criá-los para mantê-los longe do deslumbre?

A gente procurou uma escola em que as crianças que são filhas de artistas não sejam tratadas como alienígenas. A escola onde os meninos estudam tem vários filhos de artistas, e não só da TV. Isso afasta o deslumbramento. Você só se deslumbra quando você é o diferente, quando você tem uma onda pra tirar. E isso eles não têm, porque todo mundo ali tem um pai bem-sucedido na sua área. Um dos parâmetros da criação deles é para que eles nunca usem desse artifício de ser filho de alguém pra conseguir qualquer coisa. E o próprio fato de eles terem sido criados com essas prerrogativas e essas precauções fez com que eles fossem bem resolvidos apesar de serem muito jovens. E essas viagens pra fora são uma oportunidade ótima de eles verem o pai sendo tratado como um ser humano normal, se virando como um cidadão comum. Eu gosto disso inclusive pra mim. É ótimo pra você não esquecer que às vezes você tem que resolver. E é por isso que eu também sou muito reticente com esse mundo VIP. Eu costumo dizer, e às vezes soa arrogante pra caramba, mas eu gosto de pagar por um serviço. Porque é aí que você tem autonomia e autoridade pra cobrar. Quando tá tudo de graça, muito no oba-oba, você fica refém daquele convite, e isso me dá uma certa agonia (risos).

Você sempre pegou papéis muito marcantes na televisão. Desde o “Zorra Total” com o Alfredinho, e agora já está com o Tuco em “A Grande Família” há tanto tempo... Você tem receio de ficar estereotipado pelos papéis que faz?

Eu tinha esse receio com o Zorra. Aliás, em vários sentidos o Alfredinho me quebrou paradigmas. Um deles foi esse negócio de que fazer um personagem gay ia me trazer coisas ruins na vida pessoal. E isso nunca aconteceu. E eu frequento o Maracanã, ando em lugares populares, onde eu interajo com o povão. E a minha surpresa foi perceber que o telespectador brasileiro é muito maduro, porque a televisão realmente faz parte da vida dele. Então a abordagem sempre foi carinhosa. Nunca me atrapalhou em nada, porque lá fui eu trabalhar com o Guel (Arraes) no teatro, ele ficou muito empolgado com a possibilidade de eu entrar n’A Grande Família, fiz testes com outros atores inclusive mais famosos do que eu...


No mercado sério, como é o caso da televisão, e numa empresa como a Globo, você sempre vai ter uma chance, mesmo tendo feito um personagem marcante, de fazer outro teste. E aí só vai depender de você. Eu acabei fazendo de tudo, de chanchadas a Hamlet. Foi o que me possibilitou correr atrás de outro papel, e eu acabei saindo do gay pro vagabundo, que é o Tuco (risos).

Como foi que você foi parar na dublagem do “Kung Fu Panda 2”?

Eu sempre fiz dublagens amadoras de brincadeira com VHS, ligando som e dublando filmes famosos, geralmente com histórias esdrúxulas e palavrões (risos). Era um hobby que eu tinha. E quando eu comecei a trabalhar e fui ficando um pouco mais conhecido, a notícia foi espalhando e os amigos perguntavam quando eu ia fazer de novo. Foi quando pintou uma campanha publicitária da Pepsi que eram dois limõezinhos e eu fui fazer um teste. Passamos eu e Bruno Mazzeo. Foi um encontro que tinha que dar certo. Ficou aquela coisa: o filho do Chico (Anysio) com o filho do Lúcio, uma parceria ancestral. O que era pra ser um comercial virou uma campanha de dois anos, e foi quando a Xuxa fez um filme de animação, o “Xuxinha e Guto Contra Os Monstros do Espaço”, e me chamou pra fazer o pai do Guto. A coisa foi rolando e a galera da Paramount me indicou pra Dreamworks pra fazer um teste pra Kung Fu Panda. Fiz, foi muito bom e caí nesse trabalho que é bem diferente. Os diretores vêm de lá pra te dirigir, o nível de exigência é de Hollywood. Foi um divisor de águas pra mim, não só no que tange à dublagem, mas como artista. Foi difícil, porque ao mesmo tempo eu sou muito gaiato, quero ficar fazendo graça, brincando com as vozes, e não é isso que eles querem. Eles não querem um imitador, não querem um palhaço. Eles querem um ator. E foi uma luta pra chegar à voz do Panda e não perder depois. Fiquei muito apaixonado pelo trabalho, me deu um orgulho danado.

Como foi a experiência de dividir o palco e rodar o país com pai e irmãos em Lúcio 80-30?

Foi uma benção. Fazer uma peça com o papai era um sonho antigo e quase que uma obrigação. Aí quando o papai foi internado, a princípio pra uns exames, que viraram uma internação de 8 dias, foi que eu percebi que não tinha me preparado nem um pouquinho pra essa fase final da vida dele. Eu achava que meu pai era indestrutível. Ele é tão seguro, tão forte, que a gente fingiu que ele é pra sempre. E ali eu percebi que ele não só não é imortal como se ele quiser desligar o disjuntor, já dá. A ideia foi inevitável, pela caída de ficha e pelo fato de que a partir dali tinha uma urgência, porque todo mundo ficou com medo do que podia acontecer. E aí a peça foi um argumento maravilhoso e emotivo pra dar um gás nele, do tipo “olha, falta essa peça, cara, e eu tô escrevendo, segura as pontas”. Foi quando o olhinho dele brilhou e eu levei 8 meses fazendo.


E como a peça passava num hospital, era impossível fazer sem pelo menos um médico e uma enfermeira. Aí eu pensei: “Cara, claro, Luly e Alexandre, meus irmãos que também são atores!”. Quando eu contei pro papai que tinha convidado os meninos, ele se desmanchou todo. E foi a melhor experiência da minha vida artística e afetiva. Ficou dois anos em cartaz e a gente conseguiu rodar todo o Brasil com ela. Claro que pra Belém a gente iria nem que fosse a pé, porque a história inclusive passa por lá. Pra ele foi uma injeção de vida, pra mim foi importantíssimo porque foi minha estreia como autor e como diretor de um espetáculo adulto, pra Luly e pro Alexandre foi importante pela oportunidade de trabalhar em família... Foi um projeto único, E que não acabou. Vai ser retomado, talvez na telona...

Me conta mais da peça “Clichê”, que é a que você está apresentando agora. Do que se trata?

O “Clichê” é um monólogo, e é uma peça muito diferente, começando pelo texto do Marcelo Pedreira.  Ele é todo composto por clichês, frases feitas e chavões. São mais de 600. Quando eu li a peça, fiquei chapado de ver como a gente usa frases feitas e respostas prontas, muitas vezes pra fugir de aprofundar uma questão. E como o clichê ajuda em determinados momentos e atrapalha terrivelmente em outros. Então eu queria passar no palco a mesma surpresa que eu senti quando li o texto. É uma peça que não demoniza o clichê, mas mostra que às vezes é melhor aprofundar o assunto que se esconder atrás de um. Como a peça ganhou outra dimensão e a gente teve de se preparar pra isso, a gente resolveu que só viajaria com o espetáculo em 2012, pra ter a oportunidade de testar a peça nos maiores mercados brasileiros, que são Rio e São Paulo. Agora, eu quero começar o tour por Belém. Não quero deixar por último porque no final do ano a cidade achata. Em outubro tem o Círio, aí em novembro já tem gente se preparando para o natal... Como a gente privilegia os lugares menores pra esse espetáculo, a ideia é fazer uma temporada de duas semanas em Belém, dependendo da receptividade. E como é um lugar onde eu tenho laços afetivos, é um público que já me olha com outro carinho. Seria lindo fazer o monólogo no Teatro da Paz, mas tiraria o intimismo, que é muito necessário pra dar certo porque a peça é uma conversa. No início, todo mundo fica meio desconfiado, mas quando as pessoas começam a prestar atenção no próprio ridículo, a peça ganha.

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