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Realeza  cubana

É quase impossível ouvir a canção "Guantanamera" e não mexer ao menos o dedão do pé. Quando "Chan Chan" é a batida na vitrola, fica difícil recusar uma dança a dois no salão. E se Ibrahim Ferrer estiver cantando "Candela", é muito fácil se deixar hipnotizar. O compasso alegre e contagiante da música de Cuba é sempre um convite a viver momentos de pura emoção. A mistura de vários ritmos, herdados dos colonizadores espanhóis e dos escravos negros da África, como a salsa, o merengue, mambo e rumba, por exemplo, faz da música cubana uma das mais sinestésicas, charmosas e envolventes. Com tanta efervescência e diversidade cultural presente em Cuba, manter uma classificação exata para o estilo de música deste país seria extremamente injusto.

Orquestra foi recebendo a adição de novos integrantes desde a união dos veteranos para o projeto que resultou no premiado álbum de estreia do grupo

Referência no cenário musical cubano, os artistas da Orquestra Buena Vista Social Club ganharam espaço e destaque, além de darem visibilidade mundial à arte e cultura da Cuba natal de Fidel Castro. Com carisma e simplicidade de sobra, o Buena Vista, até hoje, encanta e arranca aplausos de pé por onde passa. Na década de 1940, em Havana, Buena Vista Social Club era o nome de uma antiga casa de shows onde os músicos locais se encontravam, tocavam e dançavam. Sem grandes pretensões iniciais, mas com muita propriedade em termos musicais, talentos como Omara Portuondo, Rúben González, Ibrahim Ferrer, Compay Segundo, entre outros nomes de peso da música cubana, puderam revelar nesse ambiente preciosidades artísticas em instrumentos, vozes e composições.

Admirador ferrenho da música cubana, Ry Cooder, guitarrista e produtor musical, teve o desejo de reunir músicos cubanos de vanguarda para gravar um disco. Dado o passo, mal ele imaginava que pouco depois a ideia em ação seria o portal de exposição da música cubana para o mundo e a formação consolidada do Buena Vista Social Club, que na verdade nunca havia existido concretamente.

A cantora Omara Portuondo, remanescente da orquestra original, é reverenciada pelo que representa a música latino-americana. Aqui, ela recebe o carinho da brasileira Vanessa da Mata

Retrato em celuloide
Quarenta anos após o famoso clube fechar as portas, o diretor alemão Wim Wenders, outro fascinado pela música popular cubana, resolveu documentar o momento histórico, com as cenas das gravações em estúdio, depoimentos dos músicos sobre suas vidas em Cuba e os momentos emocionantes das apresentações do grupo em Amsterdã e Nova York. Considerado um dos principais trabalhos de Wenders, o documentário recebeu indicações ao Oscar de melhor documentário e ganhou o prêmio Cinema Brasil de Melhor Filme Estrangeiro, em 1999.

A cadência da música cubana se espalhou pelo mundo, os ouvidos e corpos cederam ao magnetismo percussivo da sua sonoridade e o mercado pop não fez diferente. Em 2005, o projeto Rhythms del Mundo %u2013 o último com a participação de Ibrahim, que faleceu naquele ano %u2013 uniu os músicos do Buena Vista e as vozes de Ferrer e Omara em rearranjos de hits do mainstream mundial. U2, Maroon 5, Quincy Jones e os modernos Radiohead, Franz Ferdinand e Arctic Monkeys se renderam às peculiaridades do balanço cubano e viram suas obras ganharem outros ares, provando que a tipicidade latina extrapolou o caráter folclórico e tornou-se referência cosmopolita.

É difícil dimensionar aos menos atentos à história recente da música no mundo a grandeza de um grupo que, com o seu som, rompeu fronteiras políticas e tornou-se um cartão-postal mais luminoso que a ensolarada Havana. Representando a linguagem sonora de um povo que viveu revoluções, as dores de um sistema político hermético %u2013 sobre o qual ainda hoje é incômodo conversar, mesmo para o grupo %u2013 e outras limitações decorrentes desse período, o grupo de artistas que somou seus talentos representa também a soma de tantos sentimentos e memórias afetivas cubanas, que nunca sucumbiram ao ranço dos momentos mais difíceis. Falar de Buena Vista é passear pela história cultural de um país inteiro.

Em uma breve e concorrida entrevista concedida à Revista Leal Moreira, o Buena Vista Social Club (em especial o trompetista Manuel "Guajiro" Mirabal, da formação original da banda) falou sobre a última passagem pelo Brasil, em outubro e novembro de 2011, Amazônia, diversidade musical e, claro, cultura e música cubanas.

A música cubana é marcante, revela um povo que a vê como formadora de sua própria identidade, não há como desvinculá-la disso. O estilo afro-caribenho mundialmente conhecido da Orquestra Buena Vista Social Club mostrou ao mundo, de forma intensa e poética, não apenas o ritmo musical cubano, mas a história e cultura do povo de Cuba. Vocês poderiam explicar, brevemente, a relação que existe entre a música, cultura e história cubanas no Buena Vista Social Club?
Achamos que a música e a história cubanas são muito ricas; mostra disso é o projeto Buena Vista Social Club, como um grupo de músicos reunidos, que em uma sessão de gravação puderam resumir em um CD parte do nosso talento, da nossa variedade de gêneros, grandeza musical e, além disso, contar parte da história de Cuba também, desde a dança até o som. Mostramos nossa música e história em forma de acordes e sons que, em conjunto, dão ao mundo de presente o Buena Vista.

Uma das principais características da música e cultura cubana é a diversidade. O Brasil também é um país de muita diversidade musical e cultural. Nessa última turnê de vocês no Brasil, em outubro passado, vocês passaram por centros urbanos brasileiros: São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Recife e Porto Alegre. O que chama mais atenção de vocês na cultura e música brasileiras?
Brasil e Cuba são dois países que têm muita riqueza cultural e um dos pontos de encontro é a música. Tanto os brasileiros como os cubanos são muito rítmicos; o cubano com a clave, o brasileiro com o pandeiro, o bumbo. Tudo isso pudemos comprovar em nossas apresentações no gigante da América do Sul, com muitos coros, aplausos e ovações.

O Buena Vista Social Club foi um espaço de música e dança onde se reunia a boemia de Havana. Apesar de ter durado poucos anos, entre as décadas de 1940 e 1950, o local está até hoje vivo na memória dos cubanos. Qual a principal influência negativa para a cena musical cubana com o fechamento do clube, ordenado pelo presidente de Cuba Fidel Castro, na época?
A verdade é que entendemos mais de música que de política... Muitos de nós não vivemos esse momento...

 

No Rio, vocês chegaram a visitar a velha guarda de escolas de samba, que são uma espécie de Buena Vista do samba carioca. Como foi esse encontro histórico e de ritmos, com direito até a feijoada?
No Rio, tivemos mesmo a oportunidade de visitar uma escola de samba. Foi impressionante, pois pudemos ver, viver e sentir toda a energia reunida naquele lugar: a bateria, as bailarinas, a famosa feijoada. Foi um encontro muito fraternal entre duas culturas próximas, pois tanto eles como nós temos variedade de ritmos, cadências, formas de harmonizar. Achamos isso uma grande experiência, pois vivemos bem de perto uma parte muito importante da cultura brasileira, pois uma das razões pelas quais o Brasil é mundialmente conhecido, e especificamente o Rio de Janeiro, são os desfiles das escolas de samba.

A região Norte do Brasil, onde está localizada a Amazônia, também tem bastante riqueza cultural e diversidade nos estilos musicais. Algum de vocês já teve a oportunidade de conhecer a Amazônia? Pensam em fazer algum show no Norte do país?
Não estivemos na Amazônia e sempre gostamos de viajar a lugares novos. Ficaríamos encantados de poder descobrir este pedaço do Brasil.

A performance ao vivo da Orquesta Buena Vista Social Club é sempre elogiada pela imprensa de todo o mundo. Mesmo após 14 anos do lançamento do documentário "Buena Vista Social Club", ainda hoje o DVD é muito comentado pelo público, tanto pela qualidade e conteúdo da produção, quanto pelo som da orquestra. O que vocês acham dessa repercussão positiva existente até os dias atuais?
Acreditamos que a ideia da realização do documentário apoiando o lançamento do disco foi genial, pois o filme explicou um pouco ao mundo a carreira desenvolvida pelos membros originais, sua vida, como se reuniram. O fato de tudo isso ter sido registrado na tela grande foi muito importante, pois confirma as grandezas como artistas e pessoas de cada um dos integrantes da orquestra. Atualmente, além de todos os sons, é como uma identidade mundial.

Atualmente, a orquestra une músicos cubanos veteranos e novos integrantes. Como é o trabalho dos artistas mais antigos com os novatos?
Para todos nós é, primeiramente, um grande privilégio compartilhar o cenário com grandes artistas, virtuosos em seus instrumentos. Desde o primeiro momento, os membros veteranos do grupo brindaram os mais novos com muito apoio e conselhos. O fato de os integrantes mais recentes continuarem o trabalho que vem sendo feito há um tempo é uma tarefa muito difícil, pois apesar das gerações serem distintas, é preciso manter o selo, a originalidade, a tradição de nossa música, que é a essência da nossa orquestra. E no caso dos mais atuais, acrescentar também o pequeno grão de areia ao longo dos espetáculos.

Box
A capa do álbum "Buena Vista Social Club" (1997) mostra o músico Ibrahim Ferrer em uma caminhada descompromissada pelas ruas de Havana. A foto, do arquivo pessoal do artista, foi feita na época em que a casa de dança Buena Vista Social Club era a sensação na capital cubana, nos idos da década de 1940. Win Wenders ficou fascinado pela imagem e a usou para compor o cartaz do filme homônimo, lançado em 1999. O apelo histórico e a elegância do retratado foram decisivos na escolha.

Set list do disco
1. Chan Chan
2. De Camino A La Vereda
3. El Cuarto De Tula
4. Pueblo Nuevo
5. Dos Gardenias
6. Y Tú Qué Hs Hecho
7. Veinte Años
8. El Carretero
9. Candela
10. Amor De Loca Juventud
11. Orgullecida
12. Murmullo
13. Buena Vista Social Club
14. La Bayamesa
Formação original do grupo
Ibrahim Ferrer
Juan de Marcos González
Rubén González
Compay Segundo
Ry Cooder

Manuel "Puntillita" Licea
Orlando "Cachaito" López
Manuel "Guajiro" Mirabal
Eliades Ochoa
Omara Portuondo

Amadito "Tito" Valdés
Pio Leyva

Perdas
- Em 2003, o Buena Vista perdeu dois de seus integrantes mais famosos,  

- Ibrahim Ferrer, talvez o mais conhecido dos músicos do grupo, morreu

- Em 2009, nova perda, dessa vez do baixista Orlando "Cachaito" López.
- Em julho deste ano, o grupo perdeu mais um integrante, o
   violonista Manuel Galbán.

Solos
Muitos dos integrantes do Buena Vista aproveitaram o disco e filme para voltar à música. Destacam-se Ibrahim Ferrer, que lançou dois trabalhos individuais, Compay Segundo (que durante 40 anos trabalhou como agricultor) e Omara Portuondo, cantora conhecida do público brasileiro pela parceria recente com Maria Bethânia.
Site oficial da banda: www.buenavistaosocialclub.com.

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