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Realidade e percepção

 

O açaí é mais uma prova de que produto é produto e marca é marca. O mesmo açaí, euterpe oleracea, consegue ter personalidade e estilos bem diferentes em Belém do Pará e em outras regiões do Brasil e do mundo, onde faz cada vez maior sucesso. Quem nasce no Pará ou mais precisamente na região da Grande Belém, nos municípios vizinhos e até na Ilha de Marajó, aprende praticamente desde a amamentação a conviver com o açaí. O açaí para o povo de Belém é mais que alimento, está integrado à cultura local, ao meio ambiente, ao jeito de ser e viver desta região. As palmeiras magras e altas, as baiucas de vender o produto nos bairros do centro e da periferia, a artesanal bandeira metálica cor de açaí, que identifica os locais onde é vendido, os caroços jogados nas ruas depois que são tiradas deles as cascas que viram o vinho de açaí, tudo faz parte da alma de Belém.

Mas o aspecto do açaí o torna ainda mais integrado à vida local: é que para o paraense açaí é comida gostosamente pesada, um convite ao sono depois da refeição. A combinação de muito açaí com o calor úmido de quase 40 graus que faz em Belém depois do almoço sugere malemolência, barriga cheia, rede, cama ou qualquer plataforma que sirva para deitar depois de saborear esse quase sonífero com farinha de mandioca, com farinha de tapioca, com pirarucu seco, com jabá ou até mesmo com um suculento bife de filé de búfalo.

Curiosamente o sucesso que o açaí faz no restante do Brasil e em outros lugares do mundo está relacionado a uma percepção contrária a tudo isso. Principalmente nas cidades do litoral, o açaí é percebido como energético puro e natural, como fonte de força, quase como um elixir sagrado que concentra em sua composição toda a energia da floresta amazônica, a vitalidade dos índios e caboclos, a seiva sagrada vinda da mais importante biodiversidade do planeta Terra. A personalidade do açaí é uma no Pará e outra além das fronteiras paraenses. Aqui se toma e vai deitar, por aí se toma para ir malhar. Até mesmo a forma como é consumido, com acompanhamentos totalmente diferentes aos dos paraenses, como o açaí com granola, com banana, com morango e mesmo com o nosso guaraná é muito estranha para nós nativos. Para o povo de Belém é tão bizarro tomar açaí com estas invencionices, como para um carioca comer feijoada com mel de abelha.

É claro que não foi nenhuma campanha publicitária assinada por empresa ou instituição que fez o açaí ser percebido assim fora do Pará. O açaí é delicioso, tem seu valor nutritivo, mas acabou mesmo sendo beneficiado pela força de uma marca muito maior, chamada Amazônia. A mídia, aí entendida como imprensa, entretenimento e a publicidade em geral, criou toda uma aura mística em torno do universo amazônico. A maioria das pessoas de fora não vê a região como um lugar onde vivem mais de 18 milhões de pessoas, onde existem pelo menos duas grandes metrópoles e gigantescos empreendimentos empresariais. Para o imaginário geral a Amazônia é uma região de florestas nativas, de rios místicos, de uma fauna fantástica e que para evitar desmatamentos e conflitos deveria é permanecer intocada e deixar seus %u201Cíndios%u201D caçando e pescando. A gente que vive aqui sabe que isso não é bem assim, mas pode pescar de tudo isso umas boas ideias para ganhar com a força que essa propaganda pode gerar.

A comunicação, o marketing, quando feitos com técnica, profissionalismo e investimentos sistemáticos podem dar alma, criar vida e destacar atributos para praticamente tudo. Isso serve para empresas, pode ajudar a construir grandes patrimônios de imagem, mas pode também ser um excelente caminho para ajudar a Amazônia a encontrar o equilíbrio entre o crescimento econômico e o respeito ambiental. Podemos transformar todo interesse que a região desperta no mundo em grandes marcas sustentáveis no turismo, na indústria de alimentos, de cosméticos, produtos culturais, em milhares de possibilidades. Permitindo que as pessoas e empreendimentos possam viver da Amazônia deixando a Amazônia viver.  A gente aqui continua tomando açaí na nossa realidade e ganhando dinheiro só com o imaginário gostoso que o mundo tem da nossa região.

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