No dia primeiro de janeiro de 2013, um novo prefeito assumirá a gestão da capital paraense. A contagem regressiva, a partir daí, está deflagrada – mais três anos e Belém será uma senhora “quatrocentona” e o prefeito eleito, Zenaldo Coutinho, estará à frente do maior município [em número de habitantes] do estado.
A expectativa é enorme, pois quem é belenense [por origem ou adoção] anseia por ver sua cidade recuperar o viço de outrora, quando vivenciou o ciclo da Borracha, que legou a Belém o epíteto de “francesinha do Norte”, tal era sua semelhança com a Paris do mesmo período e de um arrojado planejamento do intendente-geral [cargo equivalente ao do prefeito nos dias atuais], à época, Antônio José Lemos [1897 a 1912].
Na aurora do século XX, Lemos, considerado por seus estudiosos um político hábil e homem sensível, era um visionário, uma vez que iniciou as políticas públicas higienistas [saneamento básico] e mandou reformular o Código de Posturas do Município. A revolução urbana foi o gatilho inicial que movimentou outras revoluções: sanitárias, arquitetônicas e comportamentais.
A elite usava fraque, cartola, vestidos sobre numerosas anáguas, chapéus e luvas. No esplendoroso Theatro da Paz, companhias europeias encenavam espetáculos que não chegavam ao Rio de Janeiro, então capital do Brasil. As sessões do Olympia [a mais antiga sala de cinema ainda em funcionamento no país] eram o ponto de encontro da high society paraense.
E Lemos, maranhense de nascimento, porém com um amor incondicional por Belém, foi, talvez, o grande responsável pela revolução que Santa Maria de Belém do Grão Pará viveu naqueles dias. O intendente, entretanto, não estava só. Para suprir a ausência de estudo e o peso de um sobrenome tradicional [Antônio Lemos só possuía o liceu – o ensino médio dos dias atuais, mesclado ao ensino profissionalizante – e chegara a Belém como taifero da Marinha do Brasil], cercou-se de nomes importantíssimos das ciências e de intelectuais que o ajudaram a levar em frente seu projeto visionário.
O tempo não foi generoso com a cidade. O belo projeto de Lemos foi engolido pela decadência, pela ausência da continuidade de seus planos. A cidade explodiu e, portanto, cresceu desordenadamente. Não havia estudo para abrir ruas e elas foram abertas como feridas expostas. A cidade deu as costas para o rio – a orla da cidade [talvez um dos maiores ressentimentos e críticas habituais de seus moradores] foi tomada por ocupações irregulares.
A Revista Leal Moreira “abre suas portas” pela primeira vez, em quase dez anos de existência, para o gestor da cidade falar sobre seus planos para Belém. O motivo? A “Feliz Lusitânia” precisa voltar a sorrir. E foi com esta proposta – ouvir as intenções do prefeito eleito – que convidamos o advogado Zenaldo Coutinho, 51 anos, a inaugurar a série de matérias especiais que a RLM fará sobre os caminhos que nos levam aos quatro séculos, pelos próximos três anos.

Como cidadão belenense e usando uma frase que o senhor usa em seu plano de governo, como devolver o título “Metrópole da Amazônia” para Belém?
Tem que ser um conjunto de ações, ações estruturantes, de políticas públicas de inclusão social e de envolvimento com a comunidade e o povo em geral. Isso passa pelos serviços públicos e eu vou citar o mais simples: limpeza pública, que é fundamental. Belém não é uma cidade limpa. E isso passa pela questão, obviamente, da saúde pública. Passa igualmente pela valorização da nossa cultura, que tem uma riqueza extraordinária e precisa ser valorizada, induzida, apoiada... evidenciada. Passa pela identificação, estímulo, valorização e aprimoramento dos nossos talentos, de áreas como esporte e educação. Uma cidade tem que ter evidenciada sua identidade e isso decorre de sua cultura, de sua história e também do momento que se vive, do que está se produzindo na cidade – aí entra a cultura, entra o esporte... a gastronomia. Como nós queremos retomar o título de “Metrópole da Amazônia” se nós somos a pior capital em termos de arborização no país? Como compreender uma cidade, na Amazônia, sem árvores? Imagino, por exemplo, aos quatrocentos anos, que já tenhamos a nossa “Bienal das Artes”.
Ah, então o senhor pensa em uma Bienal das Artes?
Sim. Começaremos no final do primeiro ano e teremos um grande momento em nossos 400 anos. Tem que ser uma cidade onde as pessoas se sintam, na rua, estando na própria casa. A gente precisa ter essa ‘patrimonialização’ coletiva da cidade.
Como incutir esse sentimento em nossa gente?
Diria que, quando a gente tem o poder público prestando seus serviços com regularidade, com eficiência, teremos a boa contaminação, o bom contágio para envolver as pessoas na contraprestação desses serviços. Vou te dar um exemplo: no shopping center, ninguém joga lixo no chão. Primeiro, porque o chão está limpo; segundo, porque tem gente olhando; terceiro, porque eu não vou passar vergonha; mas, na rua, as pessoas jogam o lixo no bueiro e por várias razões: a cidade não está limpa, a rua está suja, ou seja, não se sente o compromisso com a qualidade daquela rua, pois não tem ninguém olhando.

O senhor não acha que essas situações sejam um reflexo da nossa pouca auto-estima?
O paraense tem muito orgulho de ser paraense. O que precisamos é transformar esse orgulho em nossas práticas cotidianas. E isso passa do poder público para o cidadão.
O senhor pensa em estimular algum tipo de campanha para valorizar esse sentimento?
Nós precisaremos ter, dentro de Belém, movimentos culturais – e não somente do material, do patrimônio palpável – em prol do prazer de morar em Belém, de sermos partícipes da história. Como prefeito, quero ser um grande mobilizador, quero atrair e mobilizar pessoas, as comunidades a me ajudarem a fazer isso. E quero começar com as coisas simples: uma cidade limpa, com jardins bonitos, bem cuidados. Consolidar parcerias com a sociedade civil – a exemplo dos “amigos da praça Batista Campos”, que vigia, cuida... Se a gente conseguir estabelecer essa corresponsabilidade com a qualidade de vida na cidade, teremos uma cidade melhor. E é nisso que aposto: a união do povo, neste momento de reconstrução, será fundamental.
E o que pensa o cidadão Zenaldo? O que tem de melhor em Belém? E o que mais o entristece, ao ponto de o senhor achar que é algo que deve ser trabalhado urgentemente?
O que eu mais gosto em Belém é a gente de Belém. É o que mais me dá alegria; o nosso povo, que é extremamente acolhedor, alegre, orgulhoso de ser paraense. Lembro que foi esse mesmo povo que foi às urnas votar contra a divisão do Estado. 96% dos belenenses disseram “não” à divisão do Pará em um claro apoio à nossa unidade. Outra coisa que me encanta em Belém é o nosso patrimônio histórico e arquitetônico, nossos prédios, nossa cidade velha, a nossa culinária. Eu adoro comer bem (risos). Encanta a água que banha a cidade, nossos rios, a possibilidade de a gente poder retomar essa ligação com a água, com o rio. Quer um aspecto interessante? O belenense não tem o hábito de passear de barco no rio. Para os ilhéus, esse é o meio de transporte do dia a dia, mas, para quem vive no continente, é algo fora do comum. Meu objetivo é criar linhas do que eu vou chamar de “ônibus do rio”, vários pequenos portos, interligados às paradas de ônibus, fazendo transporte intermodal, de modo que você possa sair do Jurunas para o Guamá em um ônibus de rio, ou seja, podemos ter um transporte complementar do rio, integrado ao transporte rodoviário.

E o que o entristece em Belém?
A falta de cuidado com a nossa cidade, ver crianças e jovens dependentes químicos, morando nas ruas, mendigando a sobrevivência deles. Me entristece muitíssimo uma saúde que não funciona, ver gente morrendo na porta do Pronto-Socorro. Aí a gente vê, de maneira generalizada, o mau trato multiplicado, a violência...
O senhor mencionou Lemos, um dos gestores mais apaixonados por Belém, portanto, não posso deixar de perguntar sobre nossas mangueiras...
Há que se lembrar que, na época do Lemos, Belém vivia o apogeu do ciclo da borracha: a cidade recebia grupos de ópera que não iam para o Rio de Janeiro, por exemplo; as famílias de posses mandavam lavar suas roupas em Paris... Lemos, portanto, é uma referência importante. Atualmente, temos um trânsito caótico e até hoje a cidade não tem um plano viário global, é um absurdo! A questão das mangueiras, embora você coloque como um problema pontual, entendo ser um problema simbólico – as mangueiras, as calçadas, as pedras portuguesas, as pedras de lioz, a nossa cidade velha... Ou a gente leva as mangueiras para toda a cidade e retoma o conceito de “cidade das mangueiras”, ou cuidamos dos exemplares centenários que ainda temos, ampliando, com essências nativas, a arborização da cidade. Até porque as mangueiras, embora sejam lindas e sirvam de alimento pra muita gente, são exóticas – a mangueira veio da Índia. E nós temos também belas e grandes árvores daqui da região que poderiam ser plantadas. Mas é prioridade iniciar a arborização – é impensável que a capital do Pará detenha o título de capital menos arborizada no Brasil.
Há uma grande expectativa acerca de sua gestão, afinal, o senhor estará à frente da prefeitura quando Belém completar 400 anos. Quatro anos, entretanto, é um período muito curto para sanear o passivo e ainda pensar em soluções para o futuro. O senhor está trabalhando com metas factíveis?
Eu tenho essa consciência e, durante a campanha, deixei claro que não conseguiria resolver tudo em apenas quatro anos, mas farei o máximo possível. Tanto que, desde o resultado das eleições, já entrei no processo de transição: quis me apropriar de informações, não tirei folga, nem me permiti uma semana de férias (risos). Tenho conversado com outros prefeitos, inclusive, e visitado outros exemplos [de fora] de sucesso. Já fiz reuniões sobre o BRT, a Estrada Nova, saúde, educação. Eu tenho a esperança de, ao final dos meus quatro anos à frente da prefeitura, dizer “falta muito, mas muito já foi feito”. Essa é minha expectativa.
Seus planos para a educação ...
Ampliar e melhorar a educação fundamental, fazendo gradualmente a entrada do tempo integral. Investir na qualificação profissional é fundamental – que a gente consiga instituir a escola técnica municipal, instituir vestibular de excelência para os alunos de ensino público, além ampliar o número de creches.
Seus planos para a Saúde...
Começar com a ampliação do programa “Saúde da Família”. Colocar para funcionar corretamente os postos de saúde e prontos socorros com remédios e médicos. Inicialmente, essas são minhas prioridades. Em seguida – e eu até já articulei uma emenda com a bancada federal – a construção do Pronto-Socorro de Icoaraci, onde há uma das grandes demandas e já no ano que vem construir duas UPAs.
O que o senhor pensa para o patrimônio histórico e arquitetônico?
Estimular a iniciativa privada e que a gente possa preservar o patrimônio. Retomar alguns contatos que foram suspensos e cancelados com o BID, o programa “Monumenta” e com o Ministério da Cultura.
Para a cultura...
Quero que tenhamos nossa “Bienal das Artes”. Apoiar a cultura popular. Tenho o projeto de fazer o Teatro Municipal de Belém. Dar evidência aos nossos talentos locais, aproveitar esse momento em que Belém tem as atenções da mídia e fazer com que a prefeitura também seja partícipe desse movimento, e, ainda, trabalhar junto com o Governo. E vamos lembrar que temos movimentos locais naturais: nossas quadrilhas, os bois, os pássaros, o carnaval de rua e precisamos encontrar locais para que eles possam ser exercidos.
O senhor nunca cogitou dar ao mercado de São Braz uma destinação como um grande centro gastronômico? A exemplo de outras capitais, como São Paulo, Curitiba..?
Já conversaram comigo a respeito. Outra ideia é de que ali pudesse ser o Teatro Municipal de Belém. Mas é importante lembrar que lá há uma ocupação comercial, pelo menos quinhentas pessoas trabalham e tiram o sustento de lá. Mas, para isso, é preciso pensar em outras alternativas, dar um outro local para que essas pessoas possam trabalhar ou colocaremos 500 famílias em risco. Ainda não amadureci essa ideia, mas é prioridade dar dignidade àquelas pessoas.
Nos seus raros momentos livres, como o senhor aproveita seu tempo?
Gosto de passar meu tempo com minha família. Gosto de jogar tênis, futebol. Gosto de ler. Tenho múltiplos prazeres, graças a Deus. Gosto de escrever e até tenho livro de poesias publicado. Também sou fotógrafo amador [risos].
Acesse o plano de gestão do prefeito eleito Zenaldo Coutinho: www.lealmoreira.com.br/

Comentários
Neal Adams
July 21, 2022 at 8:24 pmGeeza show off show off pick your nose and blow off the BBC lavatory a blinding shot cack spend a penny bugger all mate brolly.
ReplyJim Séchen
July 21, 2022 at 10:44 pmThe little rotter my good sir faff about Charles bamboozled I such a fibber tomfoolery at public school.
ReplyJustin Case
July 21, 2022 at 17:44 pmThe little rotter my good sir faff about Charles bamboozled I such a fibber tomfoolery at public school.
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