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Um papo com Cida Moreira

Ela estreou profissionalmente como atriz, em espetáculos e musicais de teatro em São Paulo. Fez parte, por exemplo, do elenco original da “Ópera do Malandro”, de Chico Buarque. Em 1981, abraçou a música, com a gravação do LP ao vivo “Summertime”, no lendário Teatro Lira Paulistana.

Transitando entre a música e o teatro, Cida Moreira traçou uma trajetória particular nos últimos trinta anos. Desde a década de 1980, empresta a sua voz dramática a compositores da cidade onde nasceu, São Paulo, dentre os quais José Miguel Wisnik e Arrigo Barnabé, e de vários lugares do Brasil e do mundo, como George Gershwin, Kurt Weill, Paulinho da Viola e Zé Rodrix.

Em sua densa discografia, que contabiliza 10 títulos, ela gravou álbuns antológicos sobre Bertolt Brecht, Chico Buarque e Cartola e, agora, reencontra o seu instrumento, o piano que aprendeu a tocar ainda criança, no CD e DVD “A Dama Indigna”.

De acordo com a cantora, uma dama se torna indigna “ao exercer, sem pudores, a sua dignidade na arte”. No novo trabalho, Cida interpreta compositores como Caetano Veloso, David Bowie, Renato Barros e Amy Winehouse.

Arrancando elogios da imprensa brasileira, o show “A Dama Indigna” estreou em fevereiro de 2011, no Auditório do Ibirapuera, em São Paulo. Trata-se de um convite íntimo à apreciação da musicalidade de uma mulher que, como bem apontou o produtor Zé Pedro Selistre na apresentação do CD, canta com “a fúria dos definitivos”. E, no início desse mês, Cida fez uma apresentação repleta de sentimento no palco do Centro Cultural Sesc Boulevard, dentro do projeto “Cartão Postal da MPB”.

À convite do Site da Revista Leal Moreira, o compositor paraense Arthur Nogueira conversou com a artista Cida Moreira sobre a carreira e o retorno a Belém, cidade que ela considera “absolutamente linda”.

 

Site da Revista Leal Moreira: O show "A Dama Indigna" reconecta você ao disco de estreia, "Summertime", de 1981, especialmente por causa do formato voz & piano. O que mudou em 31 anos?        
Cida: O que mudou... A minha vida, em todos os sentidos e direções, como ser humano. O que não mudou foi meu desejo de artista. Este só aumentou com a incrível aventura que tem sido esta mesma vida, vivida com plenitude e loucura, além de uma boa dose de coragem.
 
SRLM: Quando foi o último show em Belém e quais as lembranças da cidade?
Cida: Meu último show em Belém foi em dezembro de 2007, no Projeto Pixinguinha, junto com Arthur de Faria. As minhas lembranças são sempre poderosas, porque acho Belém uma cidade absolutamente linda, na qual eu moraria, por tudo, e também pela delicadeza das pessoas.   
 
SRLM: O show a ser apresentado em Belém vai ser o mesmo que originou o DVD "A Dama Indigna" ou haverá alguma mudança no roteiro?
Cida: O show é o mesmo, exatamente igual, sem nunca sê-lo.
 
SRLM: Como você, enquanto intérprete e instrumentista, consegue conciliar no mesmo repertório autores tão diferentes, como Chico Buarque, Tom Waits e Kurt Weill?
Cida: Para quem me conhece tão pouco, digo que estes autores são apenas estes poucos. Minha vida na música é habitada por muitos outros que não estão agora na jogada, e me sinto totalmente sem conflitos. Meus critérios vem dos meus ouvidos, da minha formação cultural sólida e do meu coração de mulher que canta.
 
SRLM: Em mais de três décadas de carreira, você jamais abriu mão da liberdade. Sempre cantou o que quis, com quem quis. Em algum momento sentiu o peso dessas escolhas?
Cida: Sinto o peso destas escolhas todos os dias da minha vida.      
 
SRLM: Ainda sobre o repertório, seus álbuns e shows são sempre marcados por uma competente pesquisa musical. Como é desenvolvido esse trabalho?
Cida: Minha pesquisa é a minha curiosidade e o meu interesse visceral pela música. É natural em mim essa busca, buscar sem fim...   
 
SRLM: Você ministra aulas de técnica vocal e tem conhecimento erudito. Mas me parece que, quando canta, se coloca primeiro a favor do sentimento. Como conciliar os dois extremos?
Cida: Minha técnica serve pra deixar livre a minha emoção, sem preocupações, e para ser livre. O meu canto é seguro tecnicamente e totalmente louco na liberdade do momento em que canto. Sem firulas ou falsas intelectualizações, coisas que tornam muitos bons artistas seres híbridos em sua arte.
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