
Sammliz em ação é algo de muito diferente do que se espera ver – tanto ao falar em música paraense quanto ao falar de cantoras de rock. O destaque dentro da primeira categoria é bem imediato: distante da atmosfera tropical que elevou o momento atual da cultura local ao estado de graça, o Madame Saatan – banda que completa 10 anos em 2013, e que tem Sammliz como frente – tem um som denso e pesado, beirando o sombrio em algumas ocasiões. A referência regional está nos detalhes e outras sugestões (sejam temáticas ou rítmicas), e a mistura rendeu ao grupo uma carreira sólida, bem-sucedida e ainda em ascensão entre roqueiros do país todo – sendo, talvez, a maior representante do nicho desde a lendária banda Stress. A segunda distinção, em relação ao que se imagina de uma cantora de rock, não é tão óbvia para os menos atentos. Mas basta ver uma apresentação ao vivo da banda sob o seu comando: embora muito bonita, Sammliz não é a bonequinha que entoa melodias suaves contrastantes com o peso do som. Não. Ela é senhora de seu palco, e impõe sua autoridade de maneira muito consciente: na voz grave e no cantar agressivo na medida certa, no domínio muito natural da plateia, e mesmo na composição das letras, assinadas por ela. Aliás, além de diferente, Sammliz tem muito de hipnotizante.
Nascida e criada em Belém, ela já almejava ser a voz que embalaria vidas desde criança. Começou a sentir o poder da música na voz da sua mãe antes de dormir, tomando seu lugar logo em seguida para ninar os sonhos do próprio irmão caçula com seu canto. Conheceu o rock na adolescência e nunca mais conseguiu se desvencilhar da atitude, do conceito e da pegada enérgica do gênero que a arrebatou e a moveu rumo ao que faz hoje – nos termos dela, uma música “visceral, pauleira, metal”. Hoje, a cantora, compositora e radialista soma CDs idolatrados pelo seu público e respeitados pela crítica, com visibilidade dentro e fora do Pará – e adianta uma possível tour internacional. Recém-chegada de uma apresentação irretocável na Virada Cultural de São Paulo, Sammliz nos abre uma porta para sua trajetória pessoal e artística. Confira a entrevista que ela concedeu ao site da Revista Leal Moreira.
RLM - Como foi a infância? Você já imaginava que iria para o lado da música?
Sammliz – Já. Eu já me imaginava cantando, em palcos, desde bem pequena mesmo. Eu tinha uma tia que me levava bastante à igreja, quando passava férias no interior; e engraçado que eu me imaginava cantando aquelas músicas, era o único momento em que eu prestava atenção. Mas antes disso, eu já queria ser cantora, antes mesmo de saber que eu podia cantar. Minha mãe cantava pra eu e minha irmã dormirmos, esse foi meu primeiro contato. Eu brincava muito de roda e sabia muitas cantigas quando bem criança. Depois de um tempo, era eu quem cantava pra meu irmão mais novo dormir, enquanto o embalava na rede.
RLM - Mas o vínculo sempre foi com o rock?
Sammliz - O rock definitivamente foi o tipo de música que realmente se conectou a mim assim que fui exposta a ele. Minha mãe é carioca e tinha vários discos de samba. Gostava de tudo, mas não dava muita confiança. Meus pais nos levavam para a praia e compravam cassetes com Pink Floyd, Queen... E isso embalava essas viagens. Estava com uns sete anos no Rio de Janeiro na época do Rock in Rio também, e isso foi marcante pra mim. Não pude ir ao festival, mas vivi aquela atmosfera e conheci diversas bandas que amo ate hoje. Fiquei alucinada ali.
RLM -Qual foi seu ídolo da adolescência? Como ele te influenciou?
Sammliz Samm - Acho que o primeiro cantor por quem fiquei encantada foi Fred Mercury, quando era criança. Mas não tive um ídolo apenas. Tive várias fases, mas todas as bandas que escutei na adolescência e infância me influenciaram.

RLM -Tem um top 3 das bandas preferidas?
Sammliz - Olha... Eu sou uma péssima fazedora de tops... (risos). Porque eu fui bombardeada por muita coisa - ainda bem - e gosto de todas. Led Zeppelin, Black Sabbath, Queen, Pink Floyd... Cream, Who... TIna Turner, AC/ DC... Gente... Não dá! Tive a fase blues - escutei muito blues na adolescência. Cantoras que conheci por meio da Janis Joplin. Conheci e fui atrás das referências dela. Ouvi Bessie Smith, fiquei doida nela um tempo e depois Billie (Holiday), Nina (Simone)... Ah, eu sofro por fazer tops.
RLM - Como foi o começo? Antes do Madame Saatan, você pensou em fazer outra coisa? Quando você viu que deveria parar o que estava fazendo para se dedicar à musica?
Sammliz - Eu sempre estive ligada à música. O Madame Saatan não foi minha primeira banda. Minha primeira banda foi quando eu tinha 15 anos. Fiz faculdades e tudo mais, mas nunca pensei em outra carreira que não fosse música. Na minha primeira banda, eu tocava baixo. Até ali, eu ainda era muito tímida. Sabia que sabia cantar, mas tinha vergonha de assumir. Me empurraram para o posto e eu, que "nem queria", fiquei . Até porque tocava baixo muito mal.
RLM - Qual era o nome da banda?
Sammliz - Morganas, uma banda formada por meninas. Acho que foi a primeira aqui, em 93.
RLM - Tocavam o que?
Sammliz -Punk rock/ hard core. Foi quando passei a compor minhas primeiras músicas.
RLM - E a família, quando viu você estava no caminho da música?
Sammliz - Acharam ótimo. Meu avô era músico, meu pai também é compositor. Sempre tivemos instrumentos em casa. Violão, teclado, flauta, gaita... Ajudavam em tudo. É assim até hoje. Eles sempre fizeram parte de um ambiente que pôde me proporcionar a liberdade de viver a música. Fui incentivada desde sempre.
RLM - E o Madame Saatan, como se encontrou?
Sammliz - Eu e Ícaro, baixista original, estávamos atrás de membros para montar um projeto autoral que pudesse unir elementos do metal com toques brasileiros e regionais. Chamei Zé Mário, que foi nosso primeiro guitarrista e que fazia faculdade comigo. Encontramos depois Ivan tocando em um bar tosco da cidade (nos chamou atenção porque tocava bem), e logo depois Ed, que vimos tocando em uma jam num clube da cidade. Nessa mesma época, eu estagiava no Setor de Artes Cênicas da Unama e o Paulo Santana estava montando um novo espetáculo baseado no Ubu Rei, de Alfred Jarry. Ele me chamou pra fazer a trilha, e o Madame fez sua estreia dentro do espetáculo.
RLM - Você fez faculdade de quê?
Sammliz - Eu fiz Relações Publicas, não terminei. Aí fiz Gestão Cultural; e agora, Radialismo. Ano que vem, sabe Deus (risos)!
RLM - Ser mulher atrapalhou no rock pesado, um meio tão dominado por homens?
Sammliz - É quase sempre complicado achar os membros certos para um projeto que você tem na cabeça. O processo pode ser meio estressante, mas, depois que acha, a coisa anda. Ser mulher é uma delícia, fazer rock também. Um feito para o outro. Sempre encontrei caminhos abertos.
RLM - Sério? Não teve resistência?
Sammliz - Olha, vivemos em um mundo que oferece vários tipos de resistência, preconceitos e coisas do tipo. Machismo no meio existe? Claro. Como eu vivo dentro disso? Seguindo em frente e fazendo o que tenho que fazer. Não ligo a mínima. Nunca liguei.
RLM - Vocês acabam de voltar da Virada Cultural. Como é quando as pessoas sabem que você e sua banda são do Pará? Eles se surpreendem? Afinal vocês tem uma pegada diferente do “regional”.
Sammliz - Acho que, hoje, mais gente entende que o Pará é um Estado capaz de parir a Gaby Amarantos, Calypso, Sebastião Tapajós, Stress, Madame Saatan, Márcia Aliverti e por aí vai. Logo quando chegamos a São Paulo, há seis anos, éramos considerados "exóticos" (risos). Ainda hoje perguntam: "mas como assim vocês são do Pará?", mas é cada vez mais raro.
RLM - Eles estão se acostumando então com a diversidade que vem daqui?
Sammliz – Sim, faz tempo .
RLM - O que inspira suas músicas?
Sammliz - O que eu vivo, o que vivi, de bom e de ruim, o que li, o que conversei, o que sonhei. Tudo inspira. Belém, que é a cidade onde nasci; São Paulo, onde também morei...
RLM - A Sammliz no palco é uma força da natureza. E fora dele? Quem é Sammliz?
Sammliz - Não sei. Todo dia estou na missão para descobrir.
RLM - Para você Belém é só o começo ou é porto seguro?
Sammliz - Belém é o meu coração, minha raiz materna. A minha lembrança. Para cá eu sempre volto, ainda que sinta necessidade de partir.
RLM - Vocês já têm projetos internacionais?
Sammliz - Sim. A gente vem recebendo vários convites e estamos estudando a possibilidade de uma tour na gringa para o ano que vem.
RLM - E trabalhar em rádio não atrapalha?
Sammliz - Nada. Não poderia trabalhar em lugar melhor.
RLM - O que devemos esperar do Madame? Já tem novo álbum, projeto em vista? Quando vão ser as próximas apresentações?
Sammliz – Vai ter gravação de DVD em comemoração aos 10 anos de banda, que tá prevista para o segundo semestre. O próximo show da banda em Belém será dia 23 de julho, na Mostra Terruá Pará de Música.
RLM - Desses 10 anos, qual o balanço que você faz?
Sammliz - 10 anos vivendo intensamente a música. 10 anos de estrada pelo Brasil e recebendo amor desse público tão apaixonado que é o paraense. Luta, suor, dores e delícias de se viver para a música. Quero mais 10.


Comentários
Neal Adams
July 21, 2022 at 8:24 pmGeeza show off show off pick your nose and blow off the BBC lavatory a blinding shot cack spend a penny bugger all mate brolly.
ReplyJim Séchen
July 21, 2022 at 10:44 pmThe little rotter my good sir faff about Charles bamboozled I such a fibber tomfoolery at public school.
ReplyJustin Case
July 21, 2022 at 17:44 pmThe little rotter my good sir faff about Charles bamboozled I such a fibber tomfoolery at public school.
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