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Vamos Fugir

Em tempos idos a tecnologia foi coadjuvante; atualmente tem papel principal na vida das pessoas que, sem querer, se aventuram em “inocentes” smartphones, tablets, computadores e muitos outros gadgets que estão saindo das linhas de produção enquanto você lê esta matéria. A indústria tecnológica é incansável. A cada lançamento de uma nova ferramenta – para manter-se conectado –, outras já estão em fase de planejamento, formando assim um ciclo infinito de atualizações, inovações e uma rede de usuários mais que conectados.

Fazendo uma análise do papel da tecnologia na História teremos sinais da sua forte influência em determinados períodos, mas nada comparado com a chegada do século XX. Nos últimos cem anos a humanidade presenciou mais avanços tecnológicos do que nos cinco mil anos anteriores, em vários âmbitos da vida cotidiana em sociedade. O computador, por exemplo, diminuiu em tamanho, ganhou mais bits, ficou mais leve, portátil e se disseminou de forma vertiginosa por meio de vários tipos de aparelhos eletrônicos e com ele, a internet, que saiu das mesas para o alcance dos dedos em qualquer lugar a qualquer hora.

Uma pesquisa feita pela Navegg – especializada em análise de audiências on-line – indica que em 2013, o Brasil atingiu 105 milhões de pessoas conectadas à internet, sendo que 12% deste total acessaram a rede por meio de aparelhos portáteis, fato que, inclusive, explica o avanço das vendas de smartphones, em relação aos modelos tradicionais. Ou seja, quais as chances de você conhecer alguém que não fique um tempo considerável dependurado nas telinhas com dedos febris a trocar mensagens, verificar redes sociais, mandar e-mails, compartilhar fotos etc? Quase nula.


Estar on-line, atualmente, é sinal de normalidade. Quem não aparece na rede, “anda sumido”. Mas segundo a psicóloga Luciana Castelo Branco esse “looping” de conferir, a todo momento, as redes sociais e ficar o tempo inteiro se relacionando via mensagem deflagram “um comportamento compulsivo nas pessoas. Como a comunicação é quase instantânea, as pessoas estão ficando mais impacientes com o tempo de resposta. Além de se cobrarem responder logo as demandas de ligações e mensagens (muitas vezes atendem e retornam em momentos inapropriados, porque se sentem obrigadas a dar o retorno imediato) também esperam que suas demandas sejam atendidas de imediato e quando isso não acontece a ansiedade comparece”.

E para driblar esse caos da vida cotidiana, muita gente anda fugindo da área de cobertura do celular e apostando em aventuras nos mais diversos ambientes naturais. Guilherme Padilha é sócio fundador e presidente da Aurora Eco, uma empresa que planeja viagens com este propósito de um contato mais íntimo com a natureza. Ele investe neste tipo de entretenimento já há treze anos e conta como a procura cresceu de lá para cá. “99% dos nossos programas são focados nessa fuga da rotina do dia a dia, não levamos as pessoas a grandes centros de compra e entretenimento. Só trabalhamos o lazer em destinos mais afastados, nosso apelo é fugir do caos das cidades mais movimentadas”.

Guilherme conta que decidiu trilhar este caminho quando ele mesmo era um turista em busca de vivências diferentes nas viagens que fazia, queria, realmente, poder “experimentar” a natureza mais profundamente e deixar para trás todo e qualquer stress que enfrentava no cotidiano. “Faltava uma qualidade na entrega da viagem, os serviços eram muito ruins. Existia uma deficiência na oferta fora do padrão comum e isso nos incentivou – meu sócio e eu – a começar um serviço melhor do que existia na época, focado em experiências mais autênticas, mais reais e ricas para o turistas”.

Ele explica que não há uma política que obrigue os clientes a se afastar dos seus dispositivos móveis, a maioria deles deixam de lado seus aparelhos, ou são impossibilitados já que escolhem destinos que não comportam essa atividade digital. “É comum ligarem e dizerem: ‘Quero uma pausa dessa loucura!’ As pessoas vão mesmo pra isso e em alguns lugares não tem sinal de celular, ou seja, nem que queira vai ter essa possibilidade porque não tem sinal. É muito restrita. Por exemplo, em uma viagem para Antártida essa pessoa não vai se conectar de jeito nenhum”.

Além de toda essa falta de estrutura digital – proposital – para ficar longe das conversas silenciosas e instantâneas, quem busca este tipo de aventura vai interagir com o ambiente da maneira mais ativa possível, característica destacada por Guilherme como “acting travel” (viagem ativa) – que envolve reduzir ao mínimo o deslocamento de carro. Caminhadas a pé e bicicleta são essenciais. Alimentação é do local – não faz sentido levar a pessoa para o deserto e oferecer lagosta, não – ela vai comer o que tem lá, mas de forma saborosa, claro. Tudo é uma questão de equilíbrio em vários aspectos”.

E essa viagem de atividade intensa – onde o turista não tem tempo livre para dedicar às mil e uma artimanhas da tecnologia – também pode ser encontrada na Eco Ação, empresa especializada em passeios na cidade de Brotas, no interior de São Paulo, onde o ecoturismo é forte já que não faltam belezas naturais para se encantar. Cristiani Vieira, gerente da empresa, garante “que a missão é proporcionar experiências ao ar livre para pessoas de todas as idades, com aventura e ecoturismo; uma verdadeira integração com a natureza”.

Cristiani afirma que, mesmo que dê aquela vontade de verificar se tem uma mensagem urgente – ou uma novíssima atualização no seu game preferido –, as possibilidades de andar com aparelhos eletrônicos a tiracolo são praticamente inexistentes. “Quando o turista vai pegar o transporte para o passeio, ele deixa os pertences na agência. No momento em que entra no nosso transporte, fica off-line. Não recomendamos levar aparelhos porque pode molhar e quebrar... Então, ele automaticamente se desliga”. Ela ainda completa que mesmo se alguém quiser correr o risco de levar seu inseparável celular, vai ter que deixá-lo de lado já que “para praticar as atividades não dá para conciliar, é muito interativo – tem que remar, sempre terá que usar as mãos. O turista precisa participar da atividade para concluí-la, então não dá pra ficar online, é praticamente impossível”.

Além disso, para quem procura mais especificamente fugir de tudo que deixa a ansiedade latente, vai encontrar o pacote “Detox digital” dentro das opções da Eco Ação. Onde todo o universo conspira para você ficar zen em uma realidade paralela de serenidade e calmaria. Ela explica como conseguir este feito: “Esta opção leva o turista para pousadas afastadas da cidade, onde é possível ficar mesmo desconectado – obrigatoriamente, porque não pega celular nem internet – é somente integração com a natureza. Uma desintoxicação digital naturalmente”.

E não falta gente interessada nesta fuga que parece indispensável nos dias atuais, onde tudo é urgente e muito importante. Cristiani comenta que “as pessoas estão querendo isso mesmo, se desconectar. Ver natureza para todos os lados, lugares nos quais não haja tanta gente, bem tranquilo, longe de toda a “confusão”. Uma oportunidade de ficar mais desligada”. Que é o caso de Marcela Mazone, 35, que sempre procura Cristiani para espairecer há, pelo menos, dez anos. E viu sua motivação mudar, mas o destino continuou o mesmo: o interior.

“Há muito anos eu já buscava alternativa de fugir de São Paulo. Lá você pode tanto ir com seus amigos para um turismo de aventura (que eu fiz muito na minha juventude), quanto ir com a família para descansar. Por exemplo, no fim do ano eu fui com meus parentes e meu filho que tem um ano e meio. Este tipo de passeio consegue tirar a gente da realidade que vivemos todo dia, fechados em nossos apartamentos. Principalmente em São Paulo, onde o meu filho tem um parquinho de diversão, mas é tudo muito limitado, e eu quero que meu filho tenha essa experiência com a terra, uma vida mais tranquila, por isso foi gratificante envolvê-lo em um ambiente que ele não está habituado”, esclarece Marcela.

Como a grande maioria das pessoas, Marcela embora reconheça a utilidade, reclama da vinculação da internet e aparelhos eletrônicos ao seu trabalho e vida pessoal, já que as atividades que desempenha nessas duas situações são imprescindíveis. “Eu tenho uma agência de pesquisa de mercado, então sou praticamente uma “escrava” do meu celular e computador, é um inferno”, para ela é mais do que essencial poder sair desta rotina onde tudo gira em torno da preocupação: “e se a bateria do celular acabar?”.

Ela esclarece que mesmo não tendo a oportunidade de tirar férias há algum tempo, os curtos períodos que vai para Brotas são redentores e ela não abre mão. “Da última vez que fui para lá, foi um alívio. É muito perturbador o quanto somos bombardeados pelas ferramentas da tecnologia. É claro que tem seu lado positivo, pois posso trabalhar em qualquer lugar – tenho parcerias fora do Brasil e a tecnologia me facilita a vida –, não tem como ficar alheio a tudo isso, é um processo irreversível. Os nossos escapes são poucos, mas dão um alívio tremendo, só de saber que o celular não vai tocar já recarrega a energia em mim”.

Tirar um tempo para si mesmo e para os mais próximos pode trazer muitos benefícios, isso é inegável, mas não pode se resumir a isso. Luciana Castelo Branco afirma que, embora viajar nos salve da exposição rotineira a esses estímulos, não correspondem à realidade do dia a dia. O ideal mesmo é trabalhar o equilíbrio deste uso desenfreado. “Estipular horários para entrar em certos aplicativos do celular. Informar as pessoas de seus contatos que nem sempre estará disponível para responder de imediato”, são boas formas de complementar esse processo de “desintoxicação”. Além disso, é importante combinar “que, se for urgente, que as pessoas então liguem para o celular. Ter sempre em mente que é indispensável priorizar quem está pessoalmente com você”.

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