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Muito além da brincadeira: colecionadores criam grandes acervos de bonecas e compartilham paixão, memórias e raridades nas redes sociais

Prateleiras ocupadas por personagens de diferentes épocas, caixas cuidadosamente preservadas, roupas em miniatura, acessórios e exemplares que podem levar anos até serem encontrados. Para muita gente, colecionar bonecas é um hobby que começou ainda na infância, mas ganhou outros significados na vida adulta. Com as redes sociais, esses acervos também deixaram o espaço privado para conquistar milhares, e até milhões de espectadores.

Foi assim com o capixaba Luiz Filipe de Marchi Brito, o Filipe DMB. Colecionador desde 2012, ele chegou a publicar um primeiro vídeo no YouTube em 2013, quando tinha menos de dez bonecas, mas a vergonha de se expor fez com que deixasse a produção de conteúdo de lado por um período.

Filipe recorda que gravou os primeiros vídeos de forma muito tímida de insegura, mas que ganhou confiança após perceber o interesse das pessoas em conhecer o seu trabalho. (Foto: Reprodução/Instagram)

A mudança aconteceu durante a pandemia de Covid-19. Com as aulas remotas da graduação em Artes Visuais e mais tempo dentro de casa, Filipe voltou a pegar as bonecas, gravar restaurações e publicar vídeos, desta vez também no TikTok. A resposta do público mudou os rumos da história.

“Como ficava muito em casa, peguei minhas bonecas e comecei a postar os vídeos na internet. As pessoas começaram a ver e se interessar, então nunca mais parei”, contou.

À medida que a audiência crescia, aumentavam também a produção de conteúdo e a coleção. Filipe acabou tomando uma decisão importante: trancou a graduação em Artes Visuais na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) para se dedicar integralmente ao trabalho nas redes sociais.

O acervo acompanhou essa transformação. Em 2023, reportagens já contabilizaram mais de 300 bonecas ocupando o quarto do colecionador. Em 2025, o número divulgado já ultrapassa 400. Desde então, a coleção continuou crescendo, embora Filipe não tenha divulgado publicamente uma contagem atualizada.

Filipe lembra que não tinha onde guardas as bonecas quando começou, hoje tem dois quartos, um para as bonecas que ainda não arrumou e outro para as bonecas arrumadas nos vídeos para as redes sociais (Foto: Reprodução/Instagram)

Quando colecionar vira conteúdo

A trajetória de Filipe ajuda a mostrar uma mudança que vai além do tamanho das coleções. Nas redes sociais, a chegada de uma boneca pode se transformar em unboxing; uma peça antiga, em vídeo de restauração; um lançamento, em análise; e a própria organização das prateleiras passa a interessar a quem acompanha esse universo.

Boa parte das novas peças é adquirida pela internet, especialmente quando se trata de lançamentos ou exemplares difíceis de encontrar no Brasil. Outras chegam pelas mãos dos próprios seguidores.

Algumas dessas bonecas foram guardadas durante anos antes de serem enviadas ao influenciador. “São bonecas de mulheres que guardaram desde a infância e que confiam em mim para cuidar delas”, explicou Filipe ao falar sobre as peças que recebe.

A coleção de Filipe conta hoje com mais de 400 bonecas, entre novas, restauradas e customizadas. (Foto: Reprodução/Instagram)

É nesse ponto que o colecionismo também encontra a memória afetiva. Uma boneca pode ser valiosa não porque é rara ou cara, mas porque pertenceu a alguém, marcou uma infância ou foi presente de uma pessoa importante.

Entre as histórias compartilhadas pelo colecionador está a restauração de uma Barbie da linha Princesa da Ilha. A peça possuía um mecanismo que permitia que cantasse, mas uma pilha havia enferrujado com o passar dos anos. Filipe desmontou e limpou o mecanismo até conseguir fazê-lo funcionar novamente.

Restaurar, nesse caso, significou recuperar mais do que a aparência de um brinquedo.

Outro nome que ganhou espaço entre os colecionadores nas redes é Floriano Laudomir. Seus conteúdos abordam bonecas como Monster High, além de organização, limpeza, conservação e outros aspectos do hobby.

Floriano ganhou grande destaque nas redes sociais ao unir sua formação como designe de moda a produção de conteúdo criativo sobre o universo de bonecas colecionáveis, especialmente franquias como Monster High, Barbie e Ever After High, (Foto: Reprodução/Instagram)

Filipe e Floriano também ajudam a aproximar colecionadores, que trocam informações sobre lançamentos, identificam edições e compartilham dicas para conservar cabelos, roupas e acessórios.

Da brincadeira de infância ao acervo adulto

Para Filipe, essa relação começou muito antes das redes sociais. Quando criança, costumava brincar com as bonecas de uma amiga. Ter uma, porém, não foi tão simples.

“Desde criança eu tenho esse anseio de pegar bonecas e brincar com elas, e pentear o cabelo. Mas por ser uma coisa que é negada aos meninos, meu primeiro contato com as bonecas foi quando eu ia na casa de uma amiga, porque lá sim eu era livre para brincar com as bonecas delas e trocar as roupas”, contou o colecionador em entrevista divulgada em 2023.

Depois de insistir com a mãe, ganhou a primeira boneca aos 10 anos: uma Monster High. A partir de 2012, começou efetivamente a colecionar.

Uma das coleções que Filipe mais valoriza são as bonecas que ele próprio customiza (Foto: Reprodução/Instagram)

Sem condições de comprar exemplares novos e lacrados, Filipe passou também a adquirir bonecas usadas e aprendeu, pela internet, a restaurá-las. Anos depois, essas transformações ajudariam seus vídeos a alcançar milhões de pessoas.

A experiência também coloca em discussão uma ideia que durante muito tempo acompanhou esses brinquedos: a de que bonecas seriam exclusivamente para meninas. O que na infância foi motivo de receio sobre o julgamento dos outros passou, na vida adulta, a ocupar prateleiras, vídeos e uma atividade profissional.