Entre junho e setembro, a paisagem de diferentes cidades brasileiras muda de cor. Árvores quase sem folhas ganham copas cobertas de flores amarelas, rosas, roxas ou brancas, transformando, ainda que por poucos dias, o cenário de ruas, praças e avenidas.
A beleza das floradas fez com que a árvore ultrapassasse a função paisagística e se tornasse parte da identidade de alguns municípios. Campo Grande, Goiânia, Brasília, Maringá e Sinop estão entre as cidades fortemente associadas aos ipês, seja por políticas de arborização, pela quantidade de exemplares espalhados pelo espaço urbano ou pela apropriação da espécie como elemento de promoção turística.
Cidades que florescem
Em Campo Grande, os ipês representam cerca de 10% das árvores da arborização urbana e estão distribuídos em dez espécies diferentes. A variedade faz com que as floradas ocorram em momentos distintos, prolongando o período em que ruas e espaços públicos ganham novas cores.

Goiânia também construiu uma forte associação com os ipês dentro de uma tradição mais ampla de arborização urbana. Na estação seca, as floradas se espalham por diferentes pontos da capital e transformam ruas e avenidas em cenários procurados para passeios e fotografias.
Em Brasília, a imagem ganhou contornos ainda mais particulares. É justamente durante a estiagem do Cerrado que os ipês perdem as folhas e florescem. As copas coloridas contrastam com o céu e com a arquitetura modernista e passaram a integrar o imaginário visual da capital federal.

Maringá, no Paraná, e Sinop, em Mato Grosso, também aparecem entre as cidades brasileiras em que os ipês ganham destaque na paisagem urbana.
E quando a árvore vira parte da identidade de uma cidade?
A relação entre árvores e identidade urbana não se limita aos ipês. Na Amazônia, Belém oferece um dos exemplos mais conhecidos do país.

A capital paraense também ganha pontos amarelos, rosas e roxos durante a floração dos ipês. A Avenida Almirante Barroso é um dos exemplos mais conhecidos: dados divulgados pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente em 2020 indicavam que cerca de 99% das árvores do canteiro central no trecho entre São Brás, Marco e Souza eram ipês.
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Belém é a Cidade das Mangueiras.
Os grandes exemplares que formam túneis verdes sobre ruas e avenidas não surgiram por acaso. As mangueiras já estavam presentes na cidade no século XVIII, mas foi entre o final do século XIX e o início do XX que elas passaram a ocupar de maneira marcante a paisagem urbana.
Durante a administração do intendente Antônio Lemos, entre 1898 e 1911, Belém vivia as transformações impulsionadas pela economia da borracha. Ruas foram abertas e pavimentadas, praças remodeladas e edifícios monumentais construídos em um projeto que buscava modernizar a capital. A arborização também fazia parte dessa transformação.
As mangueiras, que são originárias das regiões sul e sudeste da Ásia, foram plantadas em larga escala e ajudaram a criar uma característica que atravessaria o século seguinte: grandes copas encontrando-se sobre as vias e formando verdadeiros corredores verdes.
Mais de 2,6 mangueiras em um único distrito
A presença dessas árvores na paisagem belenense pode ser medida. Um estudo publicado em 2016 na Revista Geografar, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), percorreu 424,45 quilômetros da malha viária do Distrito Administrativo de Belém (Dabel) e contabilizou 2.649 mangueiras. Nazaré, Batista Campos e Umarizal apresentaram a maior quantidade de calçadas arborizadas com mangueiras, concentrando, juntos, aproximadamente 63% das ocorrências registradas pelo estudo.
A relação tornou-se também patrimônio. Em 1983, mangueiras e samaumeiras existentes em ruas, praças e parques da Região Metropolitana de Belém foram tombadas pelo patrimônio estadual.
Mas talvez a força do título “Cidade das Mangueiras” não possa ser explicada apenas pelos números.
Ela está nos túneis formados pelas copas, na sombra sobre as calçadas, nas mangas que caem no asfalto durante determinadas épocas do ano e em uma paisagem que acompanha sucessivas gerações de moradores.
Quando a paisagem conta quem somos
De um lado, ipês que explodem em cores durante algumas semanas e transformam cidades do Cerrado e de outras regiões brasileiras. Do outro, mangueiras centenárias que se incorporaram à história de uma capital amazônica.
São relações construídas de maneiras diferentes, mas que revelam algo em comum: a arborização também pode participar da construção da identidade de uma cidade.

Quando determinadas árvores permanecem na paisagem por décadas, deixam de ser apenas elementos decorativos. Tornam-se pontos de referência, aparecem nas fotografias, entram nas lembranças e passam a fazer parte da maneira como moradores reconhecem o lugar onde vivem.
Em Campo Grande, os ipês anunciam a estação das flores. Em Brasília, colorem a seca. E, em Belém, basta caminhar sob uma sequência de grandes copas para entender por que, mesmo cercada por tantas espécies amazônicas, a cidade continua sendo lembrada por uma árvore que veio de muito longe: a mangueira.
