Quem costuma visitar praias como Salinópolis, Soure e Ajuruteua entre os meses de setembro e novembro provavelmente já percebeu uma mudança na paisagem: o mar ganha tons mais verdes e transparentes, um cenário que chama ainda mais atenção de moradores e turistas.
O que muita gente não sabe é que esse fenômeno acontece todos os anos e tem uma explicação científica ligada ao comportamento das águas do rio Amazonas e ao período de estiagem na região. Para entender por que isso acontece e quais fatores influenciam essa transformação na paisagem, a LiV conversou com especialistas no assunto.

A influência do rio Amazonas
Segundo o oceanógrafo Eduardo Tavares Paes, doutor em Oceanografia pela Universidade de São Paulo (USP), professor da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA) e coordenador do Laboratório de Ecologia Marinha e Oceanografia Pesqueira da Amazônia (LEMOPA), a mudança é um fenômeno natural e recorrente.
"As águas ficam mais verdes de setembro a novembro sempre. Inicia em setembro e o máximo é aproximadamente final de outubro e comecinho de dezembro, quando elas estão mais claras e mais verdes. Isso acontece todos os anos", diz.

De acordo com o pesquisador, a principal responsável por essa transformação é a chamada pluma do Amazonas, enorme massa de água doce que o rio despeja diariamente no Oceano Atlântico. Durante o período mais chuvoso, o Amazonas transporta grandes quantidades de sedimentos, matéria orgânica e partículas em suspensão, deixando o mar mais escuro e barrento ao longo de boa parte do litoral paraense. Já entre setembro e novembro, com a diminuição das chuvas na Amazônia, a vazão do rio reduz e essa influência também diminui.
"Essa água barrenta que entra no mar se expande devido a alta quantidade que tem e influencia até a região de Salinas, inclisve, até depois de Salinas. Essa água da pluma ocupa o litoral quase todo, e tem um tem um nome para isso que é o 'máximo climatológico', que é em maio e o 'mínimo climatológico' é em novembro. Então novembro a pluma está bem recuada, bem perto da costa do Amapá e do Marajó. Não ocorre pelo litoral do Salgado", explica.
Por que a água fica mais transparente?
O professor Alexander Turra, do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador da Cátedra Unesco para a Sustentabilidade do Oceano, destaca que o fenômeno acontece não apenas em Salinópolis, mas também em outras praias da margem equatorial brasileira, como Soure e Ajuruteua.
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Segundo ele, a mudança está diretamente relacionada à transição entre o inverno e o verão amazônico. "Esse fenômeno está associado basicamente à redução da vazão dos rios da região, ou seja, ao período do verão amazônico, quando a pluviosidade é menor e a água que desce pelos rios chega em menor quantidade ao mar", ressalta.

Com menos água doce chegando ao oceano, também diminui o transporte de sedimentos, permitindo que predominem as características naturais da água marinha.
"Acaba predominando a água do mar, que tem outras características, inclusive de transparência, e confere esse aspecto esverdeado típico observado nessa região da margem equatorial brasileira", destaca o oceanógrafo.
O El Niño pode prolongar esse cenário
Além do ciclo natural, os especialistas explicam que eventos climáticos também podem influenciar a duração do fenômeno. É o caso do El Niño, previsto para atuar entre 2026 e 2027.
Segundo Eduardo Paes, a redução das chuvas provocada pelo fenômeno climático deve diminuir ainda mais a vazão do rio Amazonas, antecipando e prolongando o período de águas mais claras. "Como vai chover menos, as águas vão ficar mais claras mais cedo e devem permanecer assim por mais tempo. O mar vai avançar mais sobre a costa e a pluma do Amazonas ficará mais recuada, porque haverá menos chuva em toda a bacia amazônica", afirma.

Alexander Turra reforça que períodos de estiagem mais prolongados também tendem a ampliar esse comportamento natural. "Em períodos de El Niño há uma tendência de a estiagem ser maior. Com isso, a possibilidade desse período de predomínio das águas marinhas também ser mais longo aumenta", finaliza.
