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Turismo depois dos 60: viagens estimulam autonomia, vida ativa e novas experiências na terceira idade

Fazer as malas e conhecer novos destinos tem se tornado parte da rotina de uma parcela significativa dos brasileiros com mais de 60 anos. Uma pesquisa realizada com mais de mil pessoas dessa faixa etária, de diferentes regiões do país, mostra que 52% viajam pelo menos três vezes por ano. Mais do que lazer, para muitos, colocar o pé na estrada também está relacionado à possibilidade de continuar fazendo planos, exercendo a autonomia e vivendo novas experiências.

O turismo para idosos (público 60+) é um dos segmentos que mais cresce no Brasil. Viajar nesta fase melhora a memória, reduz a ansiedade e promove o bem-estar. (Foto: Getty Images)

É o que tem acontecido com a pensionista Socorro Santos, de 74 anos. Durante grande parte da vida, viajar não esteve entre suas prioridades. Com os filhos ainda pequenos e uma família para cuidar, conhecer novos lugares era um desejo que acabava ficando para depois. O tempo passou, os filhos cresceram e, há pouco mais de dois anos, ela perdeu o marido. Diante de uma nova fase da vida, Socorro decidiu que também era hora de realizar algumas das coisas que não havia conseguido fazer quando mais jovem.

Há cerca de um ano, as viagens passaram a fazer parte de sua rotina com mais frequência. Entre os destinos, ela tem um carinho especial pelo turismo religioso, mas não dispensa a oportunidade de conhecer os pontos turísticos, a história e as belezas das cidades por onde passa.

Em Laranjeiras do Sul, no Paraná, Socorro aproveitou para conhecer igrejas e monumentos (Foto: Acervo pessoal)

“Para mim, viajar tem uma importância muito grande. Eu não pude fazer isso em muitos anos da minha vida. Também não culpo ninguém. Foram escolhas que fiz e não me arrependo. Agora, se estou tendo essa oportunidade, quero aproveitar”, conta.

A experiência de Socorro se aproxima de outro resultado do levantamento: 61% dos entrevistados consideram que viajar depois dos 60 é uma forma de preservar a própria independência. A autonomia também aparece no aspecto financeiro. Entre os participantes, 96% afirmam não utilizar dinheiro de filhos ou parentes para viajar e 34% gastam mais de R$ 10 mil por ano com turismo.

Os números fazem parte da pesquisa Turismo 60+: O Brasil que Viaja Depois dos 60”, apresentada durante o IV Expo Fórum de Turismo 60+, realizado em São Paulo, em maio deste ano, com apoio do Ministério do Turismo.

Mais do que revelar um mercado em expansão, os dados ajudam a mostrar uma mudança na maneira de viver o envelhecimento. Viajar envolve fazer planos, tomar decisões, circular por ambientes diferentes, conhecer pessoas e experimentar novas atividades, experiências que podem contribuir para manter uma rotina mais ativa e ampliar as possibilidades de convivência social.

Muito além do lazer

Para Socorro, conhecer novos lugares ganhou um significado que ultrapassa o passeio. Em pouco tempo, a vontade de viajar a levou a diferentes destinos do Sul do país. Só no Paraná, ela conta já ter conhecido 21 cidades. Em Santa Catarina, passou por lugares como Blumenau, Nova Trento, Balneário Camboriú e Brusque, além de visitar o Beto Carrero World. No Rio Grande do Sul, Gramado, Canela e Porto Alegre também entraram no roteiro.

Entre tantas viagens, algumas ficaram especialmente marcadas na memória. Blumenau foi a primeira cidade que conheceu no Sul. No Paraná, Socorro destaca Morretes, cidade histórica onde fez o tradicional passeio de trem pela Serra do Mar, e Lunardelli, destino conhecido pelo turismo religioso. E os planos continuam: Maringá e Londrina estão entre os lugares que ainda deseja conhecer.

O turismo religioso está entre os destinos favoritos de Socorro (Foto: Acervo pessoal)

Mais do que acumular destinos, porém, é o que encontra em cada um deles que faz Socorro querer continuar viajando.

“É sinônimo de liberdade e também de conhecimento, de saber a origem de cada cidade. Gosto muito do turismo religioso, mas também gosto de turistar, conhecer os pontos turísticos e as belezas que existem nas cidades. Isso, para mim, tem uma importância muito grande”, afirma.

Envelhecer de maneira saudável não significa apenas chegar a uma idade avançada sem doenças. O Ministério da Saúde destaca que o cuidado com pessoas idosas deve considerar também aspectos como funcionalidade, contexto de vida, suporte social, autonomia e independência.

Viagens em grupo são importantes para fortalecer socialidades. (Foto: Acervo pessoal)

Nesse sentido, uma viagem pode reunir diferentes experiências. Há o movimento físico envolvido nos passeios, mas também o planejamento, as escolhas e o contato com novos ambientes e pessoas. Conhecer uma cidade, visitar um museu, caminhar por um centro histórico ou experimentar a gastronomia local são situações que rompem com a rotina e oferecem novos estímulos.

Viajar não substitui uma rotina regular de exercícios, mas pode criar oportunidades para se movimentar e permanecer socialmente ativo, especialmente quando os roteiros incluem caminhadas, passeios e outras atividades.

Aos 74 anos, Socorro valoriza justamente a possibilidade de continuar se deslocando e fazendo suas próprias escolhas.

“A gente se sente feliz. E, ainda mais na minha idade, se sente importante por ter condições de viajar e conhecer, não só pela parte financeira, mas pela parte física. Ainda tenho mobilidade para me deslocar e tenho essa oportunidade que Deus me dá”, diz.

Socorro conheceu o Parque Beto Carreiro World com a filha e os netos (Foto: Acervo pessoal)

Novos lugares, novas relações

Os benefícios de sair da rotina não estão apenas nas paisagens ou atrações conhecidas durante uma viagem. O contato com outras pessoas também ocupa um espaço importante na experiência.

A pesquisa “Turismo 60+: O Brasil que Viaja Depois dos 60” identificou diferenças inclusive nas companhias escolhidas para viajar. Enquanto 76% dos homens entrevistados costumam viajar com seus cônjuges, 60% das mulheres viajam em grupos com filhas, amigas e netos.

O dado chama atenção para uma dimensão de convivência que acompanha o turismo nessa fase da vida. Viagens em família, com amigos ou em grupos organizados podem fortalecer relações já existentes e também criar oportunidades para conhecer novas pessoas.

A socialização é um doas aspectos mais importantes nas viagens entre pessoas acima de 60 anos. (Foto: Divulgação)

Esse aspecto ganha importância diante dos impactos que a solidão e o isolamento social podem provocar durante o envelhecimento. O Ministério da Saúde alerta que ambos podem afetar negativamente a saúde e recomenda, entre as estratégias de cuidado com a saúde mental, participar de atividades sociais e em grupo, manter amizades e buscar novos aprendizados.

Quando a experiência reúne diferentes gerações, há ainda a possibilidade de fortalecer a convivência familiar. Viagens entre avós, filhos e netos, por exemplo, criam momentos compartilhados fora da rotina e oportunidades para construir novas memórias em família.