
Há mais de 50 anos, Toquinho mistura como poucos a arte de compor com a arte de tocar o violão e os mais variados sentimentos dos mais diferentes tipos de público – dentre essas conquistas, a amizade saudosa e a parceria eternizada com o dispensa-apresentações, Vinicius de Moraes. E a boa notícia é que ele não tem a menor intenção de parar de fazer isso tão cedo.
Uma fala mansa, um olhar doce e um sorriso quase que onipresente, sempre convidando a ouvir mais e mais uma vez canções eternizadas, que não cansam, que moram no imaginário de todos nós, por um motivo ou por outro. Nos dedos, um virtuosismo tão impressionante que lhe rendeu uma amizade que se transformou em uma das parcerias mais celebradas da história da música brasileira. Por vezes, Antônio Pecci Filho não merece o apelido que lhe tornou mundialmente conhecido como músico, o de Toquinho, tão grande é a sua contribuição enquanto artista. Por outro lado, a delicadeza e o esmero em cada construção poética lhe tornam tão apropriado a receber um apelido tão carinhoso que é difícil dizê-lo sem, ainda que timidamente, sorrir.
Aos 51 – frutíferos – anos de carreira e pertinho de iniciar sua sétima década de vida, Toquinho quer continuar fazendo aquilo que lhe faz... Toquinho. De tão íntimo do palco que se tornou, admite o quanto fica cada vez mais à vontade empunhando seu companheiro de cordas por longas horas. “Virou a sala de visitas de minha casa, algum dia vou colocar alguns sofás e a plateia para participar mais de perto!”, brinca, com a doçura que lhe é peculiar. Ainda na década de 70, o “poetinha” Vinicius de Moraes já dizia que seu grande companheiro de letra e música “não perde nunca o senso de humor e o seu jeito de garotão maravilhado com a vida e o que ela lhe está prodigalizando” – a ponto de chamá-lo de “jovem menestrel moderno”. Em entrevista exclusiva a Leal Moreira durante passagem rápida por Belém em julho último, onde participou de um show comemorativo aos 73 anos de existência do Banco da Amazônia, o cantor fala de sua obra, parceiros, Vinicius, futebol, de suas influências da ascendência italiana e anuncia que da música quer viver muitos e muitos anos ainda. “Tantos quantos a saúde me permitir”, reforça. Confira a entrevista:
Ouço um compilado de suas músicas enquanto escrevo essas perguntas e, é impossível não começar tratando da sensibilidade de suas canções - nem falo de letra, falo de melodia mesmo, afinal, como dizia Vinicius, você 'janta' o violão. Você consegue ter uma real dimensão desse 'banquete' ou ao reescutar sua obra os resultados lhe soam como algo natural para a época ou para o período de vida que você vivia quando compôs determinada canção?
As canções criam vida própria, como filhos. Às vezes escuto uma delas, escondida lá atrás da memória, e é como se a abraçasse, ela volta para meu violão, a letra me remete ao lugar de origem, é como se passeássemos de mãos dadas por um caminho que se repete na outra canção que ainda não nasceu... Elas refletem vários Toquinhos que, no fundo, em todas elas, são um só.

O assunto da parceria com Vinicius é uma constante na sua vida, e inclusive nos shows você não se furta de contar histórias hilárias vivenciadas ao lado do poeta com quem sua parceria foi tão frutífera. A falta dele chegou a te fazer pensar em parar, ou por falta de vontade, ou por falta de inspiração...? Você deu uma entrevista à TV Cultura quando a morte dele completou dez anos dizendo que a presença dele é tão marcante que você o encontra em todo lugar, numa música que pedem, na marca de uísque que ele gostava... Ainda é assim? A falta do amigo, parceiro musical ainda é muito sentida ou é, digamos, administrada de outra forma?
A presença de Vinicius em minha vida é constante, não pode deixar de ser. Foram dez anos de uma convivência enraizada em músicas, amigos, viagens, diversas cumplicidades, cercada sempre da alegria de fazer o que fazíamos, sempre com muito prazer. Mas, de fato, do que mais sinto falta é do Vinicius amigo, dos papos descontraídos, das tiradas inteligentes, de sua generosidade poética diante da vida e das pessoas.
Qual sua paixão maior, o violão ou a bola? Também são muitas as suas histórias com o futebol, especialmente quando criança. Você escolheu um pelo outro ou foi, digamos, 'tomado' por um que se transformou em maior que o outro? Qual seu time do coração?
São duas paixões, sendo que uma não elimina a outra. Às vezes estão juntas, quando assisto a um jogo com violão na mão, numa participação meio inconsciente, talvez para abrandar as ansiedades. Quando criança, meu pai me levava aos treinos do Corinthians e eu podia ver de perto aqueles jogadores, meus ídolos daquela época. Não resisti à paixão pelo Corinthians, já compus até um hino a esse time que arrebata multidões, e eu sou um desse bando de loucos.
Paulinho Nogueira, Vinicius, Tom, Chico e tantos outros... Parceiros, amigos ou mestres ou tudo isso junto? Você imagina outros rumos para a sua carreira se não tivesse estado com um ou com outro?
Sou um privilegiado por ter encontrado e convivido com pessoas tão especiais, como amigos e como parceiros em várias circunstâncias. Sou um dos herdeiros da Bossa Nova, toda minha geração carrega na sua criatividade a estrutura que define essa época como a mais bela da música popular brasileira. Tudo isso fez com que eu seguisse a trajetória que segui.
É muito injusto perguntar qual a sua composição favorita, aquela peça que você, mais do que se orgulha, mas se sente feliz de ter criado? Pode contar por quê?
Realmente é uma injustiça! Mas tem uma que pode ser citada pela minha importância como compositor perante Vinicius de Moraes. Era praticamente o início de nossa parceria e eu fiz, sem ele saber, a melodia de uma poesia que ele ia dar para Dorival Caymmi musicar. Quando mostrei, ele gostou demais e foi depois dessa canção que ele passou a ter mais confiança em compor comigo. Foi com a canção “Tarde em Itapoan” que ganhei o poeta.

A minha geração, a da década de 80, te reconhece muito por um trabalho que atingiu em cheio mesmo foi o público infantil. O fato de a aclamação durar até hoje te chama a atenção ou mesmo te faz pensar em retomar isso?
As músicas infantis são uma das facetas mais importantes de minha carreira. Elas renovam gerações. Hoje, pais cantam com seus filhos essas canções que cantaram quando tinham quatro, cinco anos. E assim será daqui para frente. São canções eternas que garantem um público constante.
Você completou 69 anos no início desse mês. Podemos esperar um trabalho comemorativo, do tipo vida & obra, para o ano que vem, quando você completa 70 anos? Se sim, já pode adiantar alguma ideia...?
Outro dia, conversando com meu empresário, falei que ia fazer 70 anos. E ele me alertou: é 69! Ganhei um ano! Para 70 falta muito, até lá decidirei como será a passagem para mais uma década...
Seu último lançamento é de 2011, o "Quem Viver, Verá". E atualmente, você tem composto? O que tem ouvido? Tem vontade ou planos de compartilhar com o público isso?
O violão é um companheiro de todos os dias, estimulando a procura de novas composições. Não fico ansioso por achá-las, virão na hora certa. Há algumas sendo completadas, outras iniciadas, e assim vão surgindo devagar. Há que deixar o tempo decidir a hora de gravá-las.
Vi um show seu em 2013 e é impossível não se deixar levar pelo clima de bate-papo que vira o concerto; entre uma brincadeira, uma história, um ‘causo’ e outro, você presenteia o público com as músicas, e uma composição sempre puxa uma outra história, que puxa uma outra música... Em entrevistas diversas você sempre fala de turnês muito extensas, dentro e fora do Brasil, algumas com mais de cem shows, por anos e anos, algo cansativo para qualquer artista. O que é hoje estar no palco pra você? É uma atividade com prazo de validade pra você hoje em dia?
Amo o que faço, e faço com muito prazer. É uma diversão, quase um trabalho... O palco para mim virou a sala de visitas de minha casa, algum dia vou colocar alguns sofás e convidar pessoas da plateia para participarem mais de perto. Meu show é isso, momentos de intimidade que revelam, além do artista, o homem e seus disfarces. Eu pretendo tocar ainda por muitos anos, tantos quantos a saúde me permitir, pois jamais me faltarão entusiasmo e prazer.
É por causa da sua ascendência italiana algumas experiências que você teve cantando nesse idioma nas décadas de 70, 80 e 90? Como foi para um artista de som tão, tão brasileiro fazer essa, digamos, transposição? Se não me engano foi a gravação de "Aquarela" no idioma que te rendeu um disco de ouro na Itália, o primeiro dado a um brasileiro até então, certo? Tem vontade de fazer novamente?
Minha ascendência é toda italiana, por parte de pai e de mãe. Tenho a Itália como minha segunda pátria e, desde o começo de minha parceria com Vinicius, me apresento constantemente por lá. Mas minha popularidade cresceu mesmo a partir de 1982, quando gravei o disco “Acuarello”, o primeiro Disco de Ouro conferido a um brasileiro. Depois desse disco gravei mais três com canções letradas em italiano e algumas traduzidas por mim para o português e gravadas aqui também. A Itália continua constantemente em minha agenda, e há um projeto para o ano de se gravar um DVD na terra onde nasceu meu avô paterno, em Campobasso, região de Molise, onde tudo isso começou.
E pra fechar: o Toquinho cantor, compositor, violonista já fez tudo o que queria fazer, está fazendo ou ainda vai fazer?
O importante é não recusar as boas propostas que a vida nos traz, e enfrentá-las com dignidade, perseverança e otimismo. Cada novo show, cada nova gravação, é como se fossem os primeiros, tamanho o prazer que sinto em fazer música. Assim, sempre temos algo a fazer, apesar de já termos feito tanto.
