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A arte liberta

Foi graças à infância marcada por passeios pelos verdadeiros cartões postais de Belém na companhia do pai que a arquiteta e artista plástica Dina de Oliveira começou a construir seu olhar criador. Mesmo não entendendo nada dessas duas áreas à época, a artista considera de extrema relevância ter tido a oportunidade de conhecer a cidade como era - e, hoje, saber onde se localizam as mudanças e como elas interagem com o valor dos traços do passado. O resultado dessa fusão é algo como uma memória inabalável de sensações.

Na vida de Dina de Oliveira, as coisas não aconteceram uma por vez: arquitetura e arte vieram de mãos dadas e, praticamente, sempre se complementaram. Com uma paixão também pelo ofício de professora, Dina confessa que esta é uma de suas ocupações favoritas - principalmente por poder contribuir na formação e desenvolvimento do conhecimento da próxima geração de profissionais. A Revista Leal Moreira bateu um papo com a arquiteta e artista sobre seus os aprendizados e convicções que são frutos de seu agridoce e produtivo trabalho. Vale a pena conferir:

Revista Leal Moreira – Você se interessou primeiro pela arte ou pela arquitetura?

Dina Oliveira – Eu não separo muito as coisas. Eu vejo hoje a arquitetura como uma grande escultura da sociedade. Lógico que a arquitetura tem uma interface técnica muito mais forte - que a arte também tem na questão do pensamento, da filosofia, dos conceitos da história. Mas eu não separo porque eu vejo as duas muito irmãs, alimentando um processo.

Revista Leal Moreira – Quão intensa é a presença da arquitetura na sua vida?

Dina Oliveira – Eu trabalhei muito pouco. Trabalhei mais em restauração, na (Fundação) Curro Velho, na Casa da Linguagem e casas antigas da Cidade Velha. Interessei-me muito pela questão da memória da cidade e projetos mais desligados. Eu me dividi na questão do ensino na universidade, da gestão publica. E na minha atividade como pintora, artista plástica, criadora visual.


Revista Leal Moreira – O que deu mais liberdade então foi a arte?

Dina Oliveira – Não, não sei. Na verdade, eu gosto de música, de arquitetura, cinema de artes plásticas, o universo.  Adoro quando vejo uma criança conseguir ter a liberdade da fantasia, de criar coisas inusitadas. Eu acho que o produto humano ligado a expressão, a representação e a arte, é sempre muito libertador, criador; salva mesmo a cabeça, o espírito; liberta o ser humano.

Revista Leal Moreira – Você acha que essa é uma das funções da arte?

Dina Oliveira – Acredito sim. Ela é um espaço de libertação, como trabalho, ciência, pesquisa. Acho que são espaços privilegiados de crescimento humano, desenvolvimento de conhecimento, enfim. E principalmente de relações, de trabalhar as necessidades humanas, as relações humanas, melhorar a nossa condição de vida, nossa passagem rápida por aqui.


Revista Leal Moreira – Por que a arte auxilia, especificamente, nesse aspecto?

Dina Oliveira – Eu acredito que todos esses aspectos se somem como alimento espiritual necessário para os seres humanos. Não é à toa que tudo isto existe e que todos valorizam muito o conhecimento, a criação, a expressão, a invenção a possibilidade de pensar e construir, pensar e realizar, sonhar, criar conceitos, novas ideias. Isso tudo tem a ver com este mundo que a educação, a ciência que e a arte nos propicia. E também a casa, a família e a sociedade são as alavancas para isso, que conduzem tudo isso a esses valores. Que no final das contas podem te dar - e se espera que dêem - uma condição ética e estética. Eu acredito nisso: se você dá acesso a valores éticos e estéticos a um maior número de pessoas, você vai ter mais harmonia, paz, diálogo e crescimento de um conjunto de pessoas.

Revista Leal Moreira – Há quanto tempo você conhece o universo da arquitetura e da arte?

Dina Oliveira – Desde muito cedo. Desde adolescente eu frequento atelier, oficinas; tive acesso a materiais, revistas e livros. Tive a felicidade de encontrar, ao longo da minha vida, pessoas fantásticas que são referências. Meu pai, minha mãe, que foram pessoa fundamentais até para imitá-los, serem os ícones e referenciais desta história.

Revista Leal Moreira – Da sua adolescência para cá dá para fazer um balanço do que mudou na arquitetura?

Dina Oliveira – Eu me lembro de Belém. De ir ao comércio, de uma João Alfredo que era linda, com lojas, armários. Lembro da Palmeira (famosa loja antiga), do Grande Hotel. Fica difícil comparar. Também me lembro de meu pai, que me levava para conhecer a cidade. Fomos à Vila da Barca, ao Largo do Carmo, nas baixadas; eu já olhava uma arquitetura ribeirinha, da madeira, onde você tem processos muito interessantes que não foram, talvez ainda, muito valorizados. Processo até com uma geometria, uma matemática e sabedoria. Era outra Belém, outra cidade, outro contexto. Hoje você tem muitos edifícios, um trânsito caótico, mas isso é a cidade, um grande desafio – não é Belém, é o mundo inteiro. O desafio do século são as cidades para a própria arquitetura e planejamento urbano. A cidade é o grande problema urbano. É tão complexo para avaliar... Algumas coisas foram mais democratizadas - que é o que se quer. Outros elementos interferem na arquitetura. É muito complicado você ver as casas todas gradeadas. Isso não é um problema da arquitetura, mas sim da instabilidade social, do medo. Tem outros componentes para gente pensar a arquitetura. A arquitetura é o espaço urbano, é a qualidade de vida. Não é só dentro da sua “caixinha”, mas és tu você, teu vizinho, teu quarteirão, teu entorno. Acho que o mundo hoje tem uns desafios muito complexos para resolver. Fica difícil dizer que está mais bonito.

Revista Leal Moreira – Os fatores sociais e urbanos influenciam diretamente na arquitetura?

Dina Oliveira – Com certeza. Ele faz parte, é um dos itens. A mobilidade, por exemplo. Não adianta, tu podes estar em um belo carro, mas tu vais ficar no meio do congestionamento sim, igual ao ônibus. Então, quer dizer, são pontos que interferem diretamente na questão do desenho da cidade, até da própria unidade habitacional, que é uma célula. Quem olha arquitetura com um olhar mais crítico não pode deixar de perceber isso, as diferenças sociais, qualidade de vida etc. A própria mobilidade urbana é um quesito dentro da questão do espaço urbano. Em arquitetura e urbanismo, você não pode pensar só na casa, apartamento, mas nela enquanto espaço, unidade-célula dentro de um sistema, de um conjunto.

Revista Leal Moreira – Então essa é a chave para pensar em arquitetura?

Dina Oliveira – Sim, você tem que pensar na unidade. E pensar que isso tem que se relacionar com o grande, com a cidade, com seus valores éticos e estéticos - e volta novamente à cidade interferindo na tua unidade, nessa pequena unidade que as vezes é o teu quarto.

Revista Leal Moreira – O que inspirou você na restauração do seu casarão?

Dina Oliveira – Paixão e até certo compromisso. Eu fui lá para olhar, e quando eu vi a casa na Cidade Velha, eu achei que dava para contribuir de alguma forma. Então saí durante muitos anos colando pequenas peças - uma restauração é muito cara. Saí coletando peças de demolição e juntando pequenas coisas para construir e colar, finalizar a obra. Estou formulando alguma ideia para que ela mantenha a vida. Ela é uma casa de arquitetura portuguesa. Tem alcova, varanda, jardim interno, porão, e tudo foi mantido. A restauração é você tentar pegar uma unidade e adequá-la ao modo de vida de hoje. Fazê-la ter vida, se preocupar com a saúde, a parte elétrica a parte hidráulica, estrutural. Revitalizar é trazer vida. Vida para o próprio objeto construído e vida no sentido de forma e função. De ter um atelier de viver, gente vivendo.


Revista Leal Moreira – Está faltando revitalização dos espaços em Belém?

Dina Oliveira – Seria muito bom se as pessoas começassem a jogar um pouco de energia nisso, particularmente. E procurando certa informação. O perigo, às vezes, é que as pessoas querem, mas para fazer um processo de revitalização você precisa ter profissionais. Às vezes você gasta um dinheirão, quer fazer e acaba detonando uma coisa delicada. Seria muito legal se também a gente tivesse um espaço de informação de processos para ajudar o cidadão a tomar atitudes corretas no que se refere a patrimônio. Não só da arquitetura. É muito fácil você, querendo alimentar um processo cultural, fazer um de aculturação - ou seja, de acabar sobrepondo outra cultura. Por exemplo, a questão açaí. É fantástica a geração de renda: está nas academias, no Rio é energético e tal... Mas é bom, também, que a gente mantenha o açaí com camarão, porque se não perdemos a identidade e esquecemos o tradicional. Existem atitudes para você adaptar um imóvel a sua necessidade atual, mas com certo cuidado para manter a identidade visual, cultural do objeto. Ao longo do tempo, interferir pode também causar a perda de algumas coisas da identidade cultural.

Revista Leal Moreira – Faz parte do papel do arquiteto preservar um pouco da história e cultura da cidade?

Dina Oliveira – Acho que é papel do arquiteto, mas é também do sociólogo, do cidadão, da sociedade como um todo. Isso é uma rede de civilidade, um problema geral da sociedade como um todo. Sempre é uma “bola dividida”, é uma construção. Eu sempre digo que uma cidade é uma escultura da sociedade. Se você tem, por exemplo, uma pirâmide, ela é exatamente a forma da sociedade. Se você vê uma cidade, você vê metáforas, representações dela. Arquitetura é criar um jogo, uma estratégia onde você leva em consideração a questão do espaço, da técnica, das identidades, seja das pessoas ou da cidade. É jogar com essas peças de uma forma criativa, responsável. Também deve ser de percepção dessa conjuntura que vivemos atualmente.

Revista Leal Moreira – O que seria essencial para entender o universo da arquitetura hoje?

Dina Oliveira – Dentro da arquitetura, eu sempre trabalhei com a questão da expressão, representação. Eu nunca me desligo da questão do espaço. A arquitetura é como se fosse um grande quebra cabeças de muitas partes, então não adianta você pensar só na cor da parede, mas que o teu espaço interno dialoga com espaço externo, que dialoga com a cidade e que essa cidade traz problemas... é um sistema interligado de partes e todos e todos e partes.

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