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A voz da alma brasileira

Algumas vozes são eternas. Tornam-se maiores que quem as emite, transcendem os limites da individualidade e passam a traduzir bem mais – o povo, a consciência coletiva, a cultura de um país. A voz vira a própria bandeira pátria. No Brasil, muitos timbres marcaram, mas poucos de maneira tão completa e legítima a ponto de transformar o artista em significado. Maria Bethânia está entre os raros que detêm esse poder. E, apesar da responsabilidade que tal capacidade carrega, o som que a baiana produz vibra na frequência da liberdade. Insubmissa ao peso de si mesma, como sugeriria Chico César em uma das canções gravadas pela diva em seu mais novo trabalho, intitulado Meus Quintais.

No disco novo, Bethânia – completa e consagrada – conseguiu, mais uma vez, transparecer sua solidez. A obra é resultado de uma busca pessoal, em que a intérprete voltou às suas raízes, ao seu tempo de infância para fazer o que sabe melhor: amar o Brasil. Ao retornar ao seu quintal, em Santo Amaro, a então menina, caçula de Zezinho e Canô, simplifica e amplia os sentimentos. É inocente como a criança que foi – tocada pelos sons, cores, aromas e sensações de sua idade mais tenra. Estão lá todos os símbolos brasileiros apresentados a ela quando pequena: a sabedoria dos índios, as florestas, a Iara, a onça. A voz se identifica com todos. Chama a si própria de onça, de índia velha. Está em casa com todos os nossos mais nobres patrimônios culturais.

É ao transformar todo esse amor em música, como mulher e cantora, que Maria cria uma obra de muito valor, tanto técnico quanto artístico. É perceptível o cuidado extremo com quais canções foram escolhidas e com a maneira pela qual elas se apresentam. Logo na primeira faixa, Alguma voz – peça linda de Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro – o ouvinte já é arrebatado. O piano de André Mehmari é suave, convidativo. Ela sabe bem porque o trouxe ao projeto. “O André se apoia no clássico para criar as composições dele, é lindo como ele brinca”, diz. A voz de Bethânia não mudou – permeia com sua qualidade o restante das canções. Elas resgatam o Brasil inteiro, de todas as infâncias, aquele que cabe no quintal de Santo Amaro da Purificação, onde a pequena se divertia com seu irmão Caetano. Para “brincar” com ela em seu disco, vieram amigos queridos e compositores consagrados: Dori, Paulo César Pinheiro, Chico César, Adriana Calcanhoto e muitos mais. Há também bons nomes novos, como o de Leandro Fregonesi, autor de Povos do Brasil.

Desse imaginário, poderiam emergir cantigas de rodas, cantilenas de jardim, cirandas. Inspirada por tudo isso e mais nossas violas e cancioneiros, Bethânia prossegue. Canta os índios em Xavante, Arco da Velha Índia; a beleza interiorana em Casa de Caboclo, Lua Bonita. Termina com o clássico Dindi, pela primeira vez em sua voz, com o belo piano de Wagner Tiso. Este é o 51º CD da carreira, que completa 50 anos em 13 de fevereiro de 2015, cinco décadas depois daquele inesquecível começo no show Opinião.

Na entrevista a seguir, Maria Bethânia conta sobre o desenvolvimento do conceito de Meus Quintais, divide memórias e revela o respeito que tem pelos músicos que dão base à voz que simboliza a alma brasileira. Confira:

Nesse novo trabalho, você gravou duas músicas de Chico César. Como é a relação entre vocês?

Desde quando o Chico apareceu na minha vida, ele está sempre presente em shows e em discos. É meu querido amigo, um iluminado. Eu acho que a volta dele à Paraíba, para trabalhar na sua terra, na sua região, favoreceu muito a criatividade dele. Ele se renovou de maneira muito bonita, muito nobre. Chico é inspirado e corajoso, é livre. Eu joguei uma pequena semente nele e ele me mandou duas canções. Uma é Arco da Velha Índia, que ele fez para mim - o que é uma grande honra. É um dos poemas mais bonitos que eu já recebi em canção. E depois ele fez Xavante, na qual está o pensamento dele como autor, lindo, e que tinha a ver com o meu projeto.

 

Meus Quintais lembra em alguma coisa o Brasileirinho?

Não. O quintal é meu, uma coisa pequenininha, uma situação íntima. Brasileirinho era o povo, o sentimento brasileiro. É bem diferente. Aqui é uma coisa individual, pessoal.

 

O que a imagem do quintal sugere a você?

Eu acho o quintal o melhor lugar do mundo. É onde se aprende muito. Tinha a casa, que é a sede da segurança – onde tem o alimento, a roupa, o agasalho, a cobertura, o amor, o ensino... Mas o quintal era a liberdade. Era o inverso, era onde você podia imaginar. Eu acho “quintal” os primeiros passos. É aprendiz. É isso o que eu acho bonito no quintal. Pelo menos pra mim, na minha história, foi assim, e foi isso que eu quis falar. Tive a sorte de ter um irmão perto de mim. Eu sou a caçula e, acima de mim, vem Caetano. Então, ter um irmão como Caetano para brincar no quintal é um privilégio. A gente se entendia muito bem. Gostávamos das brincadeiras loucas que inventávamos, ou então do silêncio, da observação. Quintal é onde aprendi a água, aprendi a folha, aprendi o vento, aprendi a cantar, a errar, a acertar, a namorar. É família, é agasalho, é sexo. Tudo começa ali. E o meu quintal não fica restrito ao quintal que eu vivi não. Acho que o quintal é de ninguém. Quintal é liberdade, e liberdade tem bons perfumes, boas essências, é delas que eu gosto.

 

Os arranjos de piano foram um destaque neste trabalho. A música de Dori (Alguma voz), que abre o disco, ficou muito bonita. Como foi feita essa opção pela valorização do instrumento?

Os pianos de André Mehmari e do Wagner Tiso são diferentes e extraordinários. É um privilégio poder contar com esses dois artistas hoje pra poder cantar junto com essa sonoridade. Felizmente, eles têm um entendimento do meu jeito de interpretar, de cantar. O piano do André é um espetáculo. Mas foi o Paulinho [Paulo César Pinheiro], o autor do poema, quem me telefonou, há um ano, me leu essa letra e disse: “essa é sua”. E eu escolhi essa canção para abrir o disco porque, de algum modo, é uma memória minha e dos meus irmãos todos. Esse disco, no fundo, é para os meus, os da minha casa. No meu sentimento, cantar essa canção era como uma oração por todos nós – porque Deus está sempre ali, na janela do horizonte, cantando, rezando e cuidando de nós.

 

Outro ponto muito marcante musicalmente falando é o requinte...

Bethânia – Mas quintal é muito requintado. Quintal não é qualquer lugar não. É a nobreza do piano, que já é um instrumento nobre. O André Mehmari se apoia no clássico para criar as composições dele, é lindo como ele brinca. É um piano do tamanho do mar. E o Wagner tem Minas, que é outro piano. São aqueles horizontes todos, aqueles serras e montes, aquelas luzes, aqueles silêncios, aquelas alterosas. Wagner é muito grandioso. Foi uma honra ele vir fazer Carta de Amor e aceitar fazer Dindi. Eu desejo fazer um disco só com piano, e gostaria de fazer com o André.

 

Como foi a decisão de gravar uma inédita de Adriana Calcanhoto?

Já gravei tantas! Adriana é outra compositora que faz canções especialmente para a minha voz, para a minha interpretação, o que muito me alegra, me comove. Eu declarei que estava começando a pensar em fazer um novo trabalho com o Chico César, começando a pedir algumas canções, a sugerir alguns motivos para o Chico escrever para mim. E ela, delicadamente, mandou um e-mail muito simpático... O assunto era “Ciúmes do Chico César” (risos). Aí eu liguei pra ela – eu acho lindo isso! – e disse: “Adriana, a gente tá na roça, no mato, você é do sul, tão urbana e sofisticada... mas acho uma delícia, acho que você devia vir”. Ela me mandou canções lindas de amor, como sempre muito bem feitas, com aquele estilo nítido da Adriana... mas não era o caso de cantar amor aqui. Então, eu voltei a procurá-la e disse que, se ela quisesse mesmo entrar na nossa conversa, “por que não compor alguma coisa para aquela morena linda que fica dormindo na Vitória Régia, a Iara?”. Um silêncio. Alguns dias depois, recebi outro e-mail escrito: “Uma Iara. Comecei a trabalhar nisso”. E foi exatamente o que eu gravei porque já estava pronta pra mim... e linda. Acho uma das coisas mais bonitas da Adriana. É lindo que uma menina do Rio Grande do Sul olhe a Amazônia, misture com Grécia, tragédia, tudo ligado a um mito nosso. A Iara me fascina. É a nossa sereia, a morena de olhos negros. Diferente da europeia, que é loira, de olhos azuis... E que é linda também.  Mas a Iara é nossa.

 

Você gravou duas canções que já possuem registros anteriores e muito famosos. Lua Bonita, de Zé do Norte, na voz de Raul Seixas. E Moda da Onça, por Inezita Barroso. Você se lembra dessas gravações?

Lua Bonita eu conheço desde que nasci. Minha mãe a cantava lindamente. Caetano já cantou um trecho da música com ela no DVD Pedrinha de Aruanda. A gravação do Raul é extraordinária; eu a estudei para fazer a minha versão. Chamei o Tira Poeira - um grupo que tem uma sonoridade diferente de tudo, meninos encantados que eu adoro - e entreguei na mão deles. A outra canção, Moda da Onça, eu conheci agora. Quem me apresentou foi um grupo de professores e estudantes de História da Universidade Federal de Minas Gerais. Eles me mandaram um disco e eu fiquei apaixonada. Adoro onça. E o Vanzolini (Paulo Vanzolini), que fez Ronda, fazer também a Moda da Onça... É uma coisa demais de bonita. Acho que só no Brasil pra ter um milagre desses. Depois que eu conheci a música, eu fui procurar saber quem tinha gravado e da dona Inezita eu sou fã. Até hoje eu assisto aos seus programas, minha mãe nunca perdeu um. Essa mulher é extraordinária. Uma grande intérprete, uma grande cantora brasileira. E sua versão certamente tem autoridade.

 

Por que usar fotos de entalhes em madeira no encarte? E qual a intenção de chamar a atenção para os povos indígenas?

O índio não sai da minha cabeça. Eu o tenho no meu sangue. Sabemos que temos, na nossa família, uma hereditariedade com os pataxós. Por isso, falar neles, pensar neles, me interessa sim. O índio é o dono da terra. Eu sou parda, sou misturada, mas eles estão aqui, inteirinhos. Eles são o chão, eles são o Brasil. Eu sou intérprete deles. Justo quando a gente vê a Amazônia se acabando, quando a gente vê a pouca importância dada à tão bonita e real vida brasileira, é que os índios preservam. Eles sabem lidar com essa vida. É a casa deles, é o quintal deles, é útil e comovente pra mim. Quanto aos meus entalhes, eu sempre gostei de mexer com qualquer coisa. Eu estudei no Convento dos Humildes, em Santo Amaro, e você podia escolher o que fazer com as mãos. Eu aprendi a bordar, mas bordado você tem que continuar. E tinha um senhor que fazia umas peças bonitas, trabalhando, cortando madeira. Eu ficava observando. Nunca fui boa aluna, mas tudo o que sou obrigada a aprender, eu aprendo mais rápido e melhor. Essa coisa minha de entalhe é trabalho manual. Eu deixei o Gringo [Cardia] usar no encarte porque achei bem o jeito desse disco. Tem uma inocência e fica ali meio misturado às letras, não dá pra saber direito o que é o entalhe.

 

O disco também valoriza muito as lendas indígenas. Numa das letras, Chico César cita a índia velha. O que te inspira na figura do índio?

Posso detalhar: gosto do corpo nu, gosto de ele ter pouco pêlo, gosto de eles serem estranhos, bichos do mato, de não gostarem de muita conversa, de saberem se esconder. Acho bonito isso. O Chico César fez a música O Arco da Velha Índia pra mim e ela tem um dos versos mais bonitos que alguém já me dedicou: “a corda vocal insubmissa”. Isso é muito grande. Quando o Chico me deu, eu fiquei muito contente, muito feliz e logo em seguida eu perguntei pra ele se eu podia dedicar à Rita Lee. Ele respondeu: “eu fiz pra você, é sua, agora você faz o que você quiser”. Falei: então está dedicada à Rita (risos). Acho que a Rita tem a sabedoria da velha índia. Acho lindo ela ter o cabelo vermelho.

 

Pela primeira vez você gravou uma canção de Leandro Fragonesi (Povos do Brasil). Como você conheceu o trabalho dele?

Ele me mandou um disco com inúmeras boas canções. Coincidiu de, no meio dessas canções, ter Povos do Brasil, que estava dentro do meu assunto. O Leandro é um compositor carioca, novo, já começando a despontar. Ele é muito criativo, trabalhador, compõe muito e isso é bom de ver. Mas antes de eu gravar o Leandro, a Beth (Carvalho) gravou. Ele é sambista, a especialidade dele é samba. E a Beth tendo gravado, claro que eu passo a palavra a ela, mestra em samba.

 

Você sente saudade da sua infância? 

Eu não sinto saudade de nada da infância porque eu carrego ela comigo. O disco tem um pouco de melancolia sim, é normal. Portanto, se eu consigo fazer um disco assim, é porque isso está em mim. Não me sinto saudosa. Eu vou para Santo Amaro e é igual ao que era. Sinto falta dos meus que já partiram, mas também estão vivos em mim. A menina está aqui, é ela quem faz tudo. A caçula de Zezinho e Canozinha. É ela que fica aprendendo tudo.

 

Este CD tem uma sonoridade camerística. Isso foi uma opção para valorizar a poesia?

Ninguém pensou em fazer isso desse jeito, foi-se fazendo ali, todo mundo junto, os mesmos músicos. Um tocava, chegava mais cedo, fazia de um jeito, me mostrava. Às vezes discordavam antes de me mostrar (risos)... Foi um recreio maravilhoso, um trabalho bem coletivo, sem nenhuma pretensão mesmo. Foi bem solto, com todo mundo querendo e gostando de fazer aquilo.

Haverá turnê desse novo disco?

No ano que vem, eu faço 50 anos de carreira e tenho vontade de fazer uma comemoração, por tudo o que tenho vivido. Minha ideia é usar esse disco no ano que vem, como contraponto dos momentos grandiosos que eu vivi nesses 50 anos – desde Opinião, quando eu estreei como cantora profissional, até hoje. Mas, pra mim, o Meus Quintais é um contraponto para a vida em cena, para a necessidade de viver em centros urbanos grandes, sofisticados, então, eu acho que ele vai me dar um jogo de cintura neste momento.

 

Por que você escolheu um poema de Clarice Lispector para falar sobre a Iara?

Primeiro porque Clarice é uma das minhas grandes paixões. E mais porque o jeito que ela escreve é para as crianças. Eu queria que as lendas, como a Moda da Onça e a Iara, trouxessem o Brasil, as lendas brasileiras – mas também com uma coisa meio criança, por isso eu falei que o disco tinha essa cara. Ao mesmo tempo, tem a Mãe Maria, que sou eu mesma. Por isso eu pedi para as crianças cantarem, desenharem. Sinto que está tudo misturado.

 

Uma das fotos mais lindas usadas para ilustrar o disco é uma que retrata sua mãe deitada em seu ombro. Qual a história daquela foto?

Aquela foto foi tirada quando minha mãe completou 100 anos. O Santuário de Aparecida fez a homenagem mais bonita a ela, a homenagem que ela mais esperou e festejou: a visita de Nossa Senhora Aparecida a Santo Amaro, no centenário dela. Naquele momento, tivemos uma procissão, na hora em que a santa chegou. A cidade inteira acompanhou. Depois teve a entrada na Igreja da Purificação, a missa, a benção, eu cantei para a chegada dela... Minha mãe estava profundamente comovida. A cidade inteira chorava de emoção. Foi uma coisa muito bonita, inesquecível. Não temos como agradecer aquele milagre, aquela visita deslumbrante. Estávamos extenuados de tanta emoção. Eu estava sentada porque também já tinha chorado muito, assim ela veio e recostou assim em mim... É bonita essa foto... nós estamos de costas, mas parece que todo mundo consegue ver que a gente tá feliz ali, sorrindo. Cansadas, mas felizes. A foto é do Alan, um amigo da família que mora em São Paulo. E o Gringo fez esta homenagem a mim e a ela, usando a imagem no encarte do disco e usando as palavras do Aloisio de Oliveira, de Dindi: “Histórias que são minhas, e de você também...”.

 

Apesar de tantos anos e com um domínio tão completo, você ainda se encanta e parece deslumbrada com o seu cantar. Qual o segredo?

Eu nunca fiquei acostumada a nada. Aliás, tudo pra mim é tão novo, inesperado. Tudo pra mim é quente, é vivo.

 

Para você, qual a importância da infância para a formação do ser? Você gosta de crianças?

Eu gosto muito de crianças, e elas gostam muito de mim. Acho que a infância é o broto de tudo. Eu tive a felicidade de ter uma família linda, numa cidade linda, numa região linda, com uma música linda, com uma padroeira deslumbrante. Tive uma educação boa, escola pública rigorosa. Meus pais sempre se amaram muito, sempre tive muito amor. Isso era nítido, o tempo todo. E muitos irmãos, primos, sobrinhos, afilhados. Acho que a infância ajuda a construir a pessoa.

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