Não tem muito tempo que Woody Allen levou aos cinemas a história de um escritor apaixonado por Paris que gostaria de ter vivido na cidade durante a década de 20 – até que é transportado para o período e conhece uma francesa, que por sua vez gostaria de ter vivido a Belle Époque na Cidade-Luz. O filme, chamado Meia-Noite em Paris, aborda o que se convencionou chamar de “síndrome da era de ouro” – aquela sensação, que ocasionalmente temos, de que antigamente as coisas eram melhores.

Sucesso na sétima arte, o saudosismo também está presente no mundo real. É claro que no dia a dia, essa vontade de vivenciar outro período pode ser muito mais sutil que a dos personagens do aclamado diretor. Você, por exemplo, já ouviu alguém dizer (ou disse você mesmo) que “nasceu na época errada”? Já se deparou com alguém que tem hábitos diferentes daqueles de hoje em dia? Pois é. Não são poucos os que levam a vida com certo ar retrô. Demonstrando verdadeira paixão pelo vintage (antigo), essas pessoas trazem para seu cotidiano alguns comportamentos que ficaram na geração dos nossos pais e avós - uma tendência que desperta interesse por onde passa, e que foi abraçada por muita gente moderninha. O site da Revista Leal Moreira conversou com alguns adeptos desta afeição por outras épocas, em diferentes aspectos – e ainda com uma especialista, para saber os prós e os contras de se “apaixonar” pelas influências ancestrais. É o caso da estudante de jornalismo Clarice Sequeira.
Clarice parece ter saído de um filme dos anos 50. Sua ligação com o período é a estética visual que adotou para si: um estilo emblemático, que remonta à época das modelos desenhadas em cartazes – as “Pin-Ups”. Para ela, que começou a conhecer este estilo aos 14 anos, sua aparência reproduz sua preferência musical e histórica. “As décadas de 40 e 50 são muito importantes pra mim porque foi o boom dos movimentos feministas e de libertação da mulher. Além disso, sempre fui muito fã de jazz, principalmente da Ella Fitzgerald, e por causa dessa paixão conheci o soul, o rockabilly, depois o psychobilly. Com o passar do tempo, fui cada vez mais aderindo ao estilo na forma de me vestir”, explica.
Inspiração é o que não falta. Ela esclareceu que a sua vem “muito da cultura da dança burlesca, mas minha maior inspiração vem das ‘pin-ups’, principalmente a Bettie Page. Por exemplo, cortei a franjinha por causa dela, inclusive o nome dessa franja é ‘Bettie bangs’”. O estilo causa estranhamento e chama atenção das pessoas, que eventualmente até pedem para fotografá-la. Porém Clarice não está sozinha: existem eventos voltados para este público. “Há festivais de rockabilly e psychobilly [derivação do rockabilly, misturado com o punk] ao redor do mundo. Inclusive tem um aqui no Brasil, o Psychocarnival”.
Como nossos pais
Já Diego Ventura, fotógrafo, não se veste com elementos de nenhuma época específica. E nem por isso deixa de ter seu pé no “antigamente” – Diego é apaixonado por escutar vinis em sua vitrola, hábito que ele não troca por nenhum mp3 ou equipamento moderno de som. Sua história com os discos começou há algum tempo. Diferente de Clarice, ele chegou a viver um pouco da realidade da vitrola e do vinil. “Nasci no fim dessa era. Cheguei a comprar alguns discos com meus pais quando eu ainda bem novo, mas tenho lembranças de vários discos infantis – os clássicos discos da Xuxa, do Balão Mágico, do Trem da Alegria...”, relembra. E tenta explicar o que sente pelos itens da coleção: “é mais um fetichismo do que uma paixão. O prazer pela coisa começa com os ruídos, o som da agulha...”.
Tal e qual o bom aficionado pelas “bolachas”, ele garante que a qualidade do vinil é incomparável. “O que me fez começar a acumular discos foi a ideia de eles foram a última mídia feita para durar. Eles tem altíssima durabilidade, enquanto os CDs riscam com facilidade. Vários discos da minha coleção tem escrito na embalagem ‘feito para durar’. Isso me agrada”, argumenta. Ele – que coleciona obras antigas de grandes nomes como Louis Armstrong, Led Zeppelin e Frank Sinatra – garante que os amigos adoram. “Na verdade é difícil alguém não gostar, ainda mais quando se tem uma vitrola prontinha para tocar. É quase mágico. Tenho alguns amigos que colecionam também e acabamos trocando informações de lojas e lugares aonde buscar por novas aquisições”. O amor pela mídia é compartilhado pela família – desde o pai até o irmão mais novo, que pôde experimentar a sensação de consumir música como se fazia “nos velhos tempos” graças a Diego. “Meu pai ficou super empolgado quando comecei a colecionar e me ajudou bastante. E eu pude mostrar pro meu irmão mais novo, de 13 anos, como colocar um disco e o som que saía. Esse, acho eu, foi o prazer mais legal que tive, devido a minha ligação forte com meu irmão”.
Poesia revelada
A professora de artes e química Luana Lobato também dedica um carinho especial a um comportamento que andou esquecido: fotografar com câmera analógica e revelar os resultados à moda antiga. Essa preferência, segundo ela, se deve à verdadeira magia do processo de produção da imagem. “Prefiro as câmeras analógicas porque elas proporcionam um experimentar atemporal da fotografia. Elas nos remetem a uma sensação mista de mágica com ciência. Com as câmeras analógicas, eu sinto que a fotografia é muito mais do que o aparato técnico ou a máquina como ferramenta em si. É uma experiência com a luz, com a própria natureza e suas leis físicas e químicas, que se desvelam em arte”, declara.

Praticante deste processo de fotografia desde 2009, ela conta que o amor pela “escrita com luz” nasceu quando, já professora de química, voltou para universidade no curso de artes visuais e conheceu o método de revelação fotográfica. “Como minha primeira formação é em química, me fascinei com os estudos da revelação e procurei estudar mais um pouco como isso poderia se transformar em uma linguagem poética”. Além de exercitar essa admiração individualmente, Luana ainda faz parte de um grupo que compartilha desse mesmo fascínio e que também a influenciou a adentrar este universo. “No fundo, devo isso também aos meus amigos do Coletivo Câmera Aberta [integrado por alunos e ex-alunos do curso de Artes Visuais da UFPA e de outras graduações], que me convidaram para participar de diversas experimentações em fotografia. Hoje há um laboratório equipado no MIS graças aos esforços conjuntos e ações educativas e sociais que realizamos desde 2011”.
Equilibrar é preciso
Segundo Luciana Castelo Branco, especialista em Psicologia Clínica e Gestalt Terapia, não há problema nenhum em promover esse “revival”, desde que o adepto não se desligue do presente. “Vivenciar essas tendências é uma escolha permeada de sentimentos e sensações, o que pode ser uma vivência enriquecedora para o indivíduo – que, naturalmente, fará uma espécie de ‘releitura’ desse passado. O risco é quando essa volta ao passado se cristaliza em comportamentos e ajustamentos nas suas relações consigo, com o outro e com o mundo. É viver permeado por esse olhar ‘nostálgico’ e sem a crítica e atualização do processo que o mundo já viveu depois da época reverenciada”, considera. Em outras palavras, “o indivíduo que idealiza o passado, chegando a colocá-lo num lugar em que este passado foi melhor que o presente, corre o risco de se ausentar de sua vida no momento presente e, por conseguinte, deixar de ‘viver’ contatos atuais que poderiam ser nutritivos e enriquecedores – e com isso poderá vir o processo de adoecimento psíquico”.
Para a psicóloga, a medida é o equilíbrio – como, aliás, quase tudo na vida. Ela diz que a paixão pelo passado pode oscilar “desde uma saudade considerada natural por uma fantasia/ideologia de como era viver em épocas mais antigas até um movimento considerado patológico – em que o indivíduo despreza o presente e vive em ‘contato’ somente com um passado idealizado. O ideal é que a pessoa admire o passado, mas consiga incluí-lo no presente, experimentá-lo sem que isso distorça a sua relação com a época em que vive”.
Foto: Reprodução/arquivo pessoal
