
Quando temos um passado que traga alguma adorável lembrança, ele se torna tão vigoroso quanto o presente – às vezes, mais. De fato, existem muitas maneiras para que o nosso subconsciente possa trazê-lo de volta. Desejos dos doces da mamãe, brinquedos não mais fabricados, a vitrola do seu tio-avô ou aquele camafeu que sua avó deu com muito carinho. E a partir daí, desse ar saudosista, todo um processo começou a girar. As pessoas adotaram estilos que trazem, por meio da moda ou decoração, essa nostalgia. A maneira de fazer isso varia: pode ser desde a forma mais tradicional até a mais moderna. Tomada a decisão de reviver outros tempos, chega-se a uma linha tênue que separa opções estilísticas. É justamente esta linha que, para muitos, fica confusa: seria eu adepta do vintage? Identifico-me mais com o retrô? Sim, engana-se quem acredita que estas terminologias são sinônimas. Derivado do latim “vindêmia” (palavra que significava que o vinho era de uma boa safra), o vintage é algo tradicional, clássico, original, que permanece hoje como sempre foi. Já o retrô é uma adaptação: traz a modernidade camuflada no aspecto antigo.
Para desmitificar ambas as escolas e diferenciá-las melhor, convidamos pessoas que fazem desses gêneros verdadeiros estilos de vida. Converso primeiramente com Alessandra Lourenço, cake designer e planejadora de eventos. Totalmente adepta à trama old school, ela personifica esse contexto: suas escolhas ao se vestir e até mesmo seu trabalho estão totalmente ligados ao estilo vintage. Ela nem mesmo sabe localizar no espaço-tempo onde tudo começou, mas pensa inclusive que nasceu na época errada, tamanha é a paixão. Ultimamente, devido ao trabalho, sente com mais força a preferência. “Sempre providencio um ambiente decorado na exposição que tenha esse toque vintage bem presente, desde o coquetel de lançamento até mesmo às apresentações de música nesse estilo durante o evento. Tudo da minha cabeça!”, afirma.
Quanto à moda, por considerar o estilo atemporal, Alessandra acredita que seu estilo preferido pode aparecer no seu visual o tempo todo – mesmo que seja apenas em detalhes do look escolhido. Quando pergunto como fazer essas opções sem ser over, ela dispara: “Essa parte não é tão difícil. Normalmente, quem adota esse estilo tem muito bom gosto, e o usa com razoabilidade. Mesmo assim, o bom senso deve prevalecer. Onde e quando usar deve ser o ponto de partida, junto com o cuidado que se tem para se arrumar entre rendas, camafeus e pérolas – que são, pra mim, uma combinação perfeita”. Para além de uma deliciosa mania atrelada ao seu gosto, o vintage ultrapassa seu vestuário e invade sua escolha de leituras, filmes, lugares para passear, músicas e até mesmo a decoração da casa. Alessandra transparece extrema felicidade quando chega à conclusão de que o estilo ganha cada vez mais espaço – apesar de tempos atrás confessar que só o veria em revista, pelo menos no Norte do país.

Sem chance alguma de mudar, o vintage domina o relacionamento entre a cake designer e a moda. “Por mais que pareça ‘esnobe’ ou um tanto ‘fresca’, dentro do que for razoável eu não abro mão do meu estilo. É público e notório!”, comenta entre risos. Pergunto se existe algum tipo de encontro entre pessoas que têm a mesma preferência: “Não que eu saiba”, ela pondera, “mas seria ultradivertido se acontecesse algo do tipo. Amei a ideia!”, empolga-se.
Amanda Lourenço, filha de Alessandra, também nutre grande simpatia pela estética “de antigamente”. Porém, diferente da mãe, adotou o retrô para si. A tendência é marcada por seguir em direção ao futuro com um olho nostálgico do passado. Não sem certa (e, ao mesmo tempo, apesar da) influência de Alessandra, aos poucos a jovem foi trazendo o gênero para o guarda-roupa e para a maneira em maquiar-se. Quando tinha 18 anos, decidiu assumir isso. “Sempre achei muito charmosos os penteados, as maquiagens e principalmente os figurinos das atrizes dos anos 50, 60... Mas me faltava coragem de aderir a eles”, confessa.
Apesar de ser um ponto em comum entre os amigos que também usam a mesma linguagem de vestuário, a jovem admite que a moda retrô possa passar, mas deixa claro que sempre irá usar o estilo tão charmoso. Para ter as peças desejadas, Amanda escolhe modelos em revistas e na internet, compra os tecidos e manda fazer, adaptando ao seu gosto. Apesar de não se sentir dominada pelo estilo, ela tampouco o mistura. “Quando o uso, o faço por completo. Acho que fica mais puro assim, mais especial. Eu sou dessas: uso o que me atrai, o que acho que fica bom em mim, e que combina comigo e com os lugares aonde vou”, defende orgulhosamente.
Um mundo (e um tempo) à parte
Almofadas, luminárias e poltronas são alguns itens de decoração que absorveram o estilo da década de 60, presente nas últimas temporadas de grandes marcas, como Louis Vuitton e Marc Jacobs. As estampas geométricas, listradas e psicodélicas aparecem nos acessórios de casa. Quem gosta do retrô não ignora esse tipo de tendência. E para tornar-se adepto ao estilo, nada melhor que trocar figurinha com Milene Fonseca, empresária. Com a paixão escancarada por história, é por meio dos objetos decorativos que ela viaja no tempo: “Adoro imaginar quem usou tal peça, como era sua casa e o ambiente que a envolvia”. Desde o casamento, aos 16 anos, ela trouxe de herança alguns móveis de família. Tinha tudo para ser vintage... Mas com certos toques, sem interferir muito nas peças para que elas não percam seu valor, Milene trabalha bem com a customização e dá aos itens uma nova vida. Isso fez com que sua casa sempre tivesse uma personalidade forte e marcante, naturalmente. “Pura intuição”, ela sorri.
Para não exagerar, a empresária diz que a mistura é um dos grandes segredos. Sobre ambientes retrô, conta: “Em vários lugares, a gente consegue perceber esse retorno ao aconchego da casa da vovó, aquele lugar que traz a magia de abraçar cada pessoa, quem entrar nele, e que se sente que faz parte daquele universo... Restaurante, lojas, bares...”, suspira ela. Não sendo colecionadora, Milene explica que são aquisições soltas. “São todos objetos garimpados aqui e ali, de oportunidades, paixão à primeira vista... É um encontro, e isso quando cabem na mala ou numa caixinha! Acho que cada um tem seu lugar distinto... Estou respondendo às suas perguntas no meu iPad, sentada confortavelmente numa poltrona retrô anos 60... Completamente feliz!”, brinca.
Após um bombardeio de modernidade no papo com a Milene, subo escadas com corrimão de madeira Acaú e sento no centro de um salão repleto de castiçais e lampadários em cristal e prata, ânforas de porcelana azul, vasos de alcobaça (porcelana terracota), louças europeias e imagens barrocas invejáveis para qualquer colecionador ou proprietário de antiquário. Volto no tempo diante daquela magnitude de peças – e concluo estar no lugar mais vintage dos últimos tempos.
Diante do simpático e fleumático “empresário e proprietário de casa de show e recepção para eventos sociais e empresariais” – como o próprio se define – Atanagildo Martins, pergunto, de cara, como tudo aquilo foi parar em suas mãos. Ele conta: “Comprei da família Salame esse conjunto de casas antigas aqui no Reduto, que são do ano de 1904. Estavam em ruínas e abandonadas. Tentei ao máximo manter o original que ainda existia. É quase um patrimônio histórico... Contam muito do nosso passado”. A coleção de seu interior veio naturalmente com o estilo da casa, para dar harmonia. “Elas pediam por isso, é amplitude demais para serem destruídas e esquecidas. Elas têm a mesma essência”, defende.
O empresário trabalha para que as peças não fiquem isoladas, e tenta criar efeitos interessantes com os conjuntos de época: “A porcelana espanhola e inglesa estão uma ao lado da outra, porque se complementam em beleza e história”. Fico curiosa se tamanho zelo é solitário. De fato é, mas Atanagildo não reclama: “Faço tudo sozinho, com muito prazer. É pra resgatar uma época bela, e só quem gosta muito consegue fazer isso. Vou atrás de informação pelos livros. Para comprar, é preciso conhecer. Adquiro tudo pela sua delicadeza e sensibilidade, e não pelo preço”, já que alguns de seus apetrechos são de acervo familiar e outros adquiridos em leilões montados por antiquários locais.
Os clientes gostam. “Foi uma boa sacada para o negócio! Antigamente, ninguém se preocupava em arrumar um bar para a noite. Sou pioneiro neste segmento. Hoje, existem vários e isso é ótimo pra cidade. O cliente se sente num lugar aconchegante e agradável. Na minha casa de recepção, eles não precisam gastar com decoração, normalmente só trazem uma iluminação. É um lugar pronto!”, afirma, empolgado.
De peito aberto, Martins revela: “Essas peças me trazem, muito além de números, emoção. Uma vez o filho do artista e pintor local Benedito Melo encontrou a obra dele na minha casa. Ele não tinha nada de acervo do pai. Repassei para ele e sua tia, que saíram felizes e emocionados daqui, e fiquei muito realizado com isso”. Triste, ele afirma que já perdeu peças. “Não é comum, mas acontece com as peças menores.” Para evitar que o prejuízo se repita, seus funcionários são treinados sempre para entenderem o contexto histórico e saberem naturalmente valorizar a peça – que não tem como substituir. Funciona, segundo ele.
Quando questiono até quando essa paixão vai durar, serenamente ele responde: “Vamos ver se a família vai ter amor por isso também. Eu espero que sim”. Nós também, Atanagildo, acredite.
E então, afinal, o vintage e o retrô são amigos ou inimigos? Nem uma coisa nem outra: são quase parentes. Andam até pertinho um do outro, lado a lado, encantando, abraçando e envolvendo todos os seus adeptos, mesmo que discretamente. Prova disso, aliás, é que ainda que eu não finalize esse texto com o charmoso tec-tec de uma máquina de escrever, termino de digitá-lo ao som do tilintar das pérolas do meu colar.
Para quem tem pouco tempo, mas quer estar por dentro de onde encontrar roupas, acessórios e peças decorativas de ambos estilos, seguem alguns sites de compra e troca:
www.vintagechicbrecho.com.br
www.certascoisasvintage.com.br
www.fashionretro.com
www.retro63.com.br
www.fashionretro.com
