O Brasil é o país do futebol. Essa é uma marca reconhecida mundialmente. Mas a realização pela segunda vez de um campeonato mundial do esporte mais popular da Terra aqui no nosso país está revelando que também somos cada vez mais o país da demagogia. E quem está batendo um bolão neste campo não são só os políticos, como seria de se esperar.
A Copa do Mundo de 2014 no Brasil está revelando grandes craques da demagogia e da distorção em todos os setores da mídia e na dita inteligência brasileira. O que mais se vê e se ouve é gente falando ou brigando pelos direitos dos estudantes de pagarem meia entrada nos jogos. Há ainda os que exigem que as pessoas da chamada ‘terceira idade’ tenham algum tipo de gratuidade. Ocupa-se grande espaço no noticiário falando da “paixão do nosso povo pelo futebol” e coisas do gênero. Não nos esqueçamos também dos que clamam pela soberania nacional e protestam contra a venda de cerveja nos estádios nacionais durante os jogos no Brasil.
Essa visão populista é muito útil pra quem quer fazer média com a galera, passar por defensor dos fracos e oprimidos ou revela uma enorme ignorância sobre o papel de um evento desta magnitude num país com as necessidades do Brasil. É claro que para um menino humilde ou para um aposentado, assistir a um jogo do mundial de futebol é uma experiência de vida inesquecível, uma emoção linda e memorável. Mas espera-se um olhar muito bem ampliado, além de responsabilidade, de quem diz defender os interesses da população mais carente numa oportunidade histórica, como esta.
Muito mais importante do que pagar meia entrada ou até mesmo ganhar uma cortesia pra ver as seleções em campo, é ganhar obras inteiras.
Para a população das grandes regiões metropolitanas que vão servir de cidades-sede, o importante é que o sistema de trens urbanos seja implantado ou ampliado, onde já existe. É importante que a mobilidade melhore muito, que o saneamento passe a existir, que estádios sejam feitos, criando alternativas de lazer gratuito em suas dependências e que tenham equipamentos para a formação de atletas, durante este século que está só começando. A Copa tem que ajudar a diminuir o distanciamento e distância entre o centro e a periferia. Essa é a vitória, essa é goleada. O drible no atraso.
O campeonato de futebol é apenas um detalhe num evento chamado Copa do Mundo no Brasil. O importante neste momento, a grande luta, é brigar por um legado de grande alcance social, urbanístico e ambiental, que gere benefícios para o maior número possível de famílias em 2014, 2015, 2020, 2040. O futebol mudou muito, hoje a arquibancada é a televisão. As populações das cidades cresceram muito e os estádios diminuíram bastante. Futebol deixou de ser esporte e passou a ser um grande produto de entretenimento de massas, numa cadeia de negócio que envolve TV aberta, TV paga, internet, marcas globalizadas e mercados consumidores.
Se eu fosse um menino do subúrbio de Salvador ou do Rio de Janeiro em 2014, adoraria estar na arquibancada de um jogo do mundial, mas vamos todos vibrar muito mais se soubermos que a Copa deixou realizações que vão mudar para muito melhor o cotidiano das pessoas. É evidente que terá que existir algum tipo de cota para facilitar o ingresso da população local nos estádios. Mas não é essa a grande bandeira a ser levantada agora. Nem o futebol regional será beneficiado com a Copa. Ninguém pense que o ABC de Natal ou o São Raimundo de Manaus vão ganhar expressão nacional e sul-americana só porque a Copa foi jogada em suas cidades.
A Copa do Mundo vai chegar, vai passar, milhares de estrangeiros vão entrar no país, fazer turismo, talvez até ver um ou mais jogos e depois vão voltar pra casa, carregando sacolas cheias de souvenirs. Mas o mundial de 2014 tem que deixar algo bem mais valioso do que a lembrança de um gol, de uma grande defesa, de festas ou de uma foto na arquibancada. Se a Copa de 2014 não deixar um legado efetivo de obras e novos serviços urbanos, o evento não terá valido nada, mesmo que a seleção brasileira seja campeã mundial invicta com o estádio cheio de estudantes e velhinhos que entraram sem pagar nada.
