
Na infância em Abaetetuba - interior do Pará, onde nasceu - o ainda menino João de Jesus Paes Loureiro entrou em contato com o que seria uma longa jornada em direção à paixão de sua existência. Nas declamações da mãe e nas histórias que o pai contava à luz do candeeiro, João começava a enxergar além, vislumbrar outros mundos em sua imaginação. Com o amor pela leitura e pela escrita, veio a ideia de se tornar advogado - já que na época o curso de letras não era tão popular como atualmente. Ao fim de três anos de Direito começou a lecionar Literatura, com mérito próprio de quem tinha amor por estudar acima da média.
Paes loureiro - como é conhecido e gosta de ser chamado, é apaixonado por sua carreira na educação e não faz cerimônia ao declarar sua fascinação por ser professor e ter uma relação bem dinâmica com seus alunos. Como escritor, já viajou para vários lugares do mundo para lançar e divulgar suas obras, mas nunca deixou Belém. Seus amigos e família o seguram aqui, como em nenhum outro lugar. Ele explica isso: “O lugar não é uma geografia apenas material, é uma geografia emocional também”.
O artista das palavras, que perpassa por vários estilos literários, hoje em dia se dedica também a um blog, onde conta as ocasiões do cotidiano com uma pitada de poesia. A Revista Leal Moreira convida você a conhecer o escritor que figura na seleta biblioteca de um imperador do Japão, e que é simples e carismático quando o assunto é fazer dos seus alunos verdadeiros companheiros de vida e aprendizado. Confira:
Revista Leal Moreira – Como nasce um poeta?

Paes Loureiro - O poeta nasce no momento em que ele faz seu primeiro poema. Assim como a poesia nasce do poeta, o poeta nasce também da poesia. Há uma dupla forma de nascer, um dá nascimento ao outro.
Revista Leal Moreira – Depois de estudar Direito em um primeiro momento, como foi sua entrada no campo da educação?
Paes Loureiro - Eu fui autodidata no ensino da Literatura, pelo meu interesse pela leitura e pelo fato de considerar uma necessidade harmonizar a minha vida profissional com a minha carreira de escritor. Por isso, depois de lecionar Literatura, eu fiz vestibular para Letras, e o fiz todo. Abracei de vez a carreira do magistério. Enquanto eu leio e preparo as minhas aulas, estou alimentando a minha dimensão de escritor; e como escritor, enquanto eu leio e escrevo, eu sou também alimentando minha condição de professor.
Revista Leal Moreira – E as pedras no caminho para se tornar escritor?
Paes Loureiro - As pedras são as pedras do estilo. A dificuldade do aprendizado poético. A compreensão e absorção de técnicas que permitam fazer a poesia do modo como se deseja fazer. Eu sempre fui um leitor de poesia fanático. Sempre gostei dos vários estilos da poesia, desde a medieval até a moderna, até a poesia atual. E sempre lia muito todos estes estilos, e fazia exercícios, treinamentos de como fazer poema nas várias modalidades das escolas literárias, nos vários estilos. Desde o classicismo da canção trovadoresca até a poesia de verso livre, moderna, concretista etc. Eu pude aprender a técnica de escrever poesia nos vários estilos da história da própria poesia. São pedras, não de ferir, mas de dar para você o impulso para continuar a caminhada.
Revista Leal Moreira – E quanto a viver de literatura?
Paes Loureiro - Isso não acontece no Brasil. Sempre tive minha vida profissional, e a atividade literária sempre foi paralela. Mesmo os direitos autorais que eu recebi ou recebo são sempre muito poucos. Nas publicações de livros, a menor parcela é que vai para o autor. Não se tem muito essa possibilidade no Brasil, a não ser no caso de autores que caem no gosto popular de grandes vendas - principalmente na área popular de certos tipos de romances, de gosto popular mais acentuado. No Brasil, são poucos os autores que tem uma profissão literária, vivendo exclusivamente delas. Fico com pena, porque isso impede que a gente possa se dedicar plenamente ao que gostaria, que é escrever. Mas de qualquer maneira, é uma soma – que, no meu caso, dá um prazer enorme.
Revista Leal Moreira – Você tem livros traduzidos em vários idiomas. Qual a sensação de o mundo poder conhecer sua obra?
Paes Loureiro - É uma sensação de extremo prazer, agrado... E surpresa, muitas vezes. Quando eu fui traduzido para o Japão, o poeta que traduziu foi Kikuo Furuno, considerado o maior poeta e tradutor do período no país. Um professor também, da Universidade de Kyoto. Esse meu livro lá teve, digamos, uma repercussão literária muito boa - tanto que foi um dos livros escolhidos naquele ano para fazer parte da biblioteca do imperador. O palácio fica numa ilha no centro de Tóquio. Estive lá, diante deste palácio. Não dá para colocar todas as publicações que saem, então eles fazem uma seleção. Eu fiquei muito comovido quando soube que um dos livros selecionados para ser incorporado na biblioteca do imperador foi o meu. E quando o imperador e a imperatriz vieram aqui a Belém, eu fui convidado para uma conversa mais reservada com algumas outras pessoas que foram convidadas também. É sempre uma surpresa muito emocionante a tradução para outra língua.

Revista Leal Moreira – O que mais inspirou suas obras?
Paes Loureiro - A vida e a cultura amazônica são duas coisas muito presentes na minha poesia, inclusive porque eu sempre achei que a cultura amazônica tem uma dimensão poética inerente a ela, uma dimensão poética mítica. É um lugar de uma grande originalidade, seja como paisagem, seja como cultura. É um lugar que tem uma aura especial. O mundo tem uma imagem muito positiva, muito encantadora da Amazônia. Quando se está fora, quando as pessoas sabem que você é brasileiro da Amazônia, isso dá uma espécie de emoção diferente para as pessoas também. A Amazônia é um tom, é uma nota, é um mito muito forte ainda no mundo que nós vivemos. Se a gente pensar bem, a vinda dos primeiros navegadores para esta América do Sul é a busca do chamado paraíso na terra, que estaria dentro da Amazônia. A Amazônia foi uma atração que encantou o mundo desde o período do final do renascimento e continua até hoje. A região, para mim, tem uma forma de cultura muito especial, de uma riqueza extraordinária, e é essa riqueza que tem fundamentado muito a minha poesia.
Revista Leal Moreira – Como foi que a literatura chegou para você, ainda em Abaetetuba?
Paes Loureiro - À noite, a cidade tinha uma luz muito fraca, e realmente a leitura se fazia à luz de candeeiro. Éramos numerosos filhos, eu o mais velho. Então meu pai acendia o candeeiro e sentávamos. Ele lia capítulos de romances. Cada noite era um ou dois capítulos, enquanto a gente não dormisse. Ele gostava de ler, também, poemas que tinham uma história, que tinham um enredo, como Juca Pirama, Navio Negreiro - coisa que a gente podia compreender, porque a gente ficava ligado na história. Esse foi um ponto de partida. Meu pai era um homem muito simples, mas ele gostava de ler. E esse costume também se transferiu para mim. Eu sempre fui um amante da leitura. A leitura é uma das maiores sementes para a criação. Ela alimenta o processo de criação e aperfeiçoa o estilo de quem escreve. Não é possível apenas escrever. É necessária essa associação, essa intercorrência entre escrever e ler.
Revista Leal Moreira – Mas, nem sempre quem lê muito escreve...
Paes Loureiro - É verdade, escrever é uma decisão diferente da de ler. Você pode ser um leitor bem constante, até apaixonado pela leitura, mas pode não ter inclinação para escrever. O talento criador é outro departamento. Você pode gostar de ler, mas não se sentir à vontade ou na condição de escrever criativamente. Pra escrever de uma forma criativa, precisa ser escritor. E essa é uma qualidade que independe, como origem, da leitura. É uma qualidade humana fortalecida e alimentada pela leitura e pela constância. Quer dizer, você não pode escrever eventualmente, tem que escrever sempre.
Revista Leal Moreira – Com tantos trabalhos já publicados, vão ficando raros os temas a serem abordados?
Paes Loureiro - Não, os temas vão se multiplicando. Por exemplo, eu ultimamente tenho feito poemas diretamente para o meu blog, que é um blog de poemas. São poemas a partir de circunstâncias do dia a dia. O que muita gente coloca no blog, no Twitter e outras formas sociais de rede, eu transformo em poesia. Eu faço poemas sobre pequeninos fatos, pequeninas situações ou situações graves que normalmente não resultariam em um poema, mas que fazem parte da vida.

Revista Leal Moreira – Você teme a morte do livro?
Não, eu acho que o livro não tem essa morte anunciada. São novas formas, modalidades de leitura. Novas formas que surgem, que vêm enriquecer aquelas já existentes. O livro, culturalmente, durante séculos, adquiriu uma autonomia, uma independência, certa magia própria que dificilmente será abandonada. E a pesquisa que os editores têm sobre isso diz que é o contrário. Que o livro eletrônico e essas digitalizações todas têm aumentado o interesse pelo livro. Eu acho que o livro é um objeto cultural e artístico que irá permanecer convivendo com esta outra mídia que deverá ganhar cada vez mais espaço, sem dúvida nenhuma.
Revista Leal Moreira – O que você acha dos best-sellers juvenis que viram fenômenos literários, como Harry Potter, Crepúsculo etc.?
Paes Loureiro - É ótimo. É um tipo de literatura que não faz parte da minha preferência, porque a história - que é de uma imaginação extraordinária - se sobrepõe ao estilo e a qualidade literária do estilo. Mas são livros muito bem escritos, são fascinantes como leitura, tanto que o mundo inteiro celebra, são vendas incríveis. É uma forma de leitura. Nenhuma forma de leitura é indigna, todas as formas de leitura são dignas. E como cada um de nós tem o temperamento e o gosto diferente, você tem que ler aquilo que faz a sua felicidade na leitura, seu gosto. Esses livros fascinam milhões, é o que todo escritor gostaria que ocorresse com o seu livro.

Revista Leal Moreira – Qual o conselho que você daria para quem quer seguir a carreira literária?
Paes Loureiro - Que siga o seu impulso, sua emoção, seu desejo. Que colabore com esses impulsos, lendo, lendo e lendo, convivendo com a vida das outras artes também; todas enriquecem a literatura. Escrever, escrever, escrever, procurando aperfeiçoar cada vez mais a sua escrita. Não podemos esquecer que a literatura, a poesia, é um mundo que o artista cria. A arte é um mundo que se cria a partir dos muitos que temos dentro de nós. Eu tenho que enriquecer esse mundo que eu tenho dentro de mim, para que eu possa transferi-lo para esses que eu crio por meio dos poemas, do romance ou de uma peça de teatro. Minha sugestão é que se entregue com amor, com seriedade ao ato de escrever. Mas não deixe ficar por conta do impulso momentâneo.
