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O império dos sentidos
Eliza e Arthur: parangolés inspiram vídeo, poesia e música

Para o impulsivo artista plástico carioca Hélio Oiticica, que arrematou o mercado das artes nas décadas de 60 e 70 com ideias inusitadas, as obras expostas em museus, nos moldes tradicionais, eram uma chatice. A opinião radical resume apropriadamente a personalidade excêntrica deste grande nome da arte contemporânea, considerado um dos brasileiros que participaram mais ativamente do circuito artístico mundial, com exposições pelos Estados Unidos e Europa.

Hoje, mais de 20 anos após a morte de Hélio Oiticica, a obra de um artista assumidamente anarquista que fazia questão de excitar sensações com seus trabalhos ainda causa reflexões por onde passa. E foi exatamente isso que aconteceu nos meses de maio e junho, quando a exposição “Museu é o Mundo” esteve em Belém.

Pela primeira vez uma cidade do norte do país pôde conferir de perto alguns dos penetráveis – conceito de obra criado por Oiticica que tem como propósito criar uma experiência sensorial, além da visual –, entre eles o “Tropicália”, que batizou o movimento musical brasileiro. Entre as obras que passaram por aqui, o “Parangolé” chamou atenção, tanto do público como de artistas. O resultado: uma explosão de manifestações que dialogam com os sentimentos causados pelo movimento do estandarte que envolve o corpo e o transforma em arte.

Obra que se revela

Em 1964, Oiticica “descobriu” o Parangolé. Era assim que ele costumava se referir a sua criação: como uma descoberta. As referências da cidade que amava, em que nasceu, são perceptíveis no conjunto da sua obra. Tanto que o Parangolé remete ao gingado do samba e, assim como o ritmo, é completamente relacionado ao movimento do corpo. A sua “anti-obra”, como ele mesmo definia, é o tecido sobre a pele, que a cada nuance torna-se algo novo.

Com uma câmera em punhos, quando foram ao Museu Histórico do Estado do Pará, o cantor Arthur Nogueira e a designer Elisa Kunz não tinham pretensões maiores, somente registrar a experiência de brincar com o “Parangolé”. No vídeo gravado por Elisa, Arthur dança e se diverte.

Não deu outra: após uma boa edição, o registrou inspirou uma poesia, que se transformou em música. Assim como Oiticica, Arthur e Elisa se deixaram levar pela experimentação e fizeram arte. “Quis fazer uma composição que fosse fácil e que falasse dos conceitos por trás dos panos do ‘Parangolé’. É uma obra que traz inquietude. Com estes versos, quis dividir minhas sensações de forma mais didática”, conta Arthur, que em 2007 esteve em uma exposição do Oiticica no Rio de Janeiro. A visita resultou em uma poesia publicada na revista “Cult”.

 A intervenção de Lucas impressionou pelo inusitado

O mesmo “Parangolé” que inspirou o sambinha gostoso de Arthur Nogueira também repercutiu na mente criativa do artista visual Lucas Gouvêa, integrante do “qUALQUER qUOLETIVO” (https://qualquerquoletivo.com/). O rompante de Lucas surgiu como crítica à subversão do discurso de Oiticica.

“O Hélio renegava o distanciamento causado pelas paredes da galeria, que muitas vezes sufocavam sua obra. Para mim, é como se ele morresse cada vez mais”, diz o artista, que durante uma programação oficial da exposição fez a intervenção “MorteOiticica”, em que queimou uma réplica do “Parangolé” sobre o próprio corpo.

Entre tantos olhares sobre o famigerado artista brasileiro, restam as provocações que só fortalecem a cena local. “A passagem da exposição suscitou manifestações e reflexões importantes”, analisa Arthur. “É por meio deste debate que a obra do Oiticica se mostra viva”, diz Lucas.

Abaixo, veja o resultado da visita despretensiosa de Arthur Nogueira e Elisa Kunz à exposição “Museu é o mundo”, o vídeo-canção “Estandarte”, divulgada em primeira mão pelo site da Revista Leal Moreira. Confira:

Conheça mais o trabalho de Arthur Nogueira: https://flavors.me/arthurnogueira

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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