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Pensar arquitetura

Entusiasta de atividades que estão em extremos opostos, como os esportes radicais e a tranquilidade da vida marinha, Mauricio Toscano, 37, é um arquiteto  que equilibra e harmoniza as diferentes atividades que pratica - e transforma todas elas em alimento intelectual para inspiração do seu trabalho. Sempre “antenado” com o que há de mais moderno na tecnologia, ele confessa ter como um de seus maiores defeitos o perfeccionismo com tudo o que faz.

Com participação confirmada no Casa Cor Pará 2013, Maurício vive e respira arquitetura. Casado com a arquiteta e sócia Heluza Sato, ele revela como a cultura oriental e sua essência fazem parte de seu processo de criação e atuação - não só no campo profissional, mas na própria rotina. O site da Revista Leal Moreira bateu um papo com ele, que vê alternativas para amenizar o estresse cotidiano em um trabalho bem projetado de arquitetura e acredita que ainda há um longo caminho a se percorrer para que seu ofício faça a diferença na vida das pessoas. Confira:

Revista Leal Moreira – Quando você pensou "quero ser arquiteto"?

Maurício Toscano – Eu tive uma experiência com mercado internacional, legalização de cargas importadas, aduaneira... Em 2000, o dólar mudou e eu vi a necessidade de fazer uma faculdade. Foi quando eu conheci a arquitetura. E gostei muito, por ser dinâmico - que é muito meu estilo de vida. Não sou de ficar parado. Na arquitetura, você tem que trabalhar muito com sensibilidade, tem que ter olhar, visualizar o espaço... Essas coisas foram me chamando atenção. Foi bem interessante para mim. Eu me encontrei.

Revista Leal Moreira – Você tem muitos hobbies. Como eles influenciam no seu trabalho de arquiteto?

Maurício Toscano – Eu gosto muito de fotografia. Ela veio para somar bastante no meu trabalho. Com ela, eu treinei muito meu olhar. Com a fotografia, a gente vê de onde vem a luz, de onde ela tá chegando; o enquadramento que você quer dar, o que você quer enxergar. Nos meus projetos, eu consigo visualizar o que o meu cliente vai ver daquele ângulo, qual será a fotografia que ele vai ter de determinado espaço. O paraquedismo me trouxe a autoconfiança. Saber lidar com grandes situações, administrar grandes desafios. A vencer barreiras, obstáculos; trabalhar com muitas pessoas e coordená-las. No paraquedismo, eu encontrei muito essa parte. Do aquarismo já vem o relaxamento, o contemplar, visualizar novas formas sempre. O aquarismo é dinâmico, ele está fazendo novos desenhos sempre. Vive em mudança, nunca é a mesma coisa. Fazer aquário é muito interessante porque cada um tem um perfil, um tipo. Nunca uma arquitetura é igual a outra. Tem sempre que ser de acordo com o cliente, a gente procura “ler” o cliente e fazer voltado para ele.

Revista Leal Moreira – Como o aquarismo aparece no seu trabalho?

Maurício Toscano – O aquarismo, diferente do que as pessoas acham, é muito difícil, muito complexo. Normalmente requer uma mão de obra muito especializada. Eu tive muita dificuldade aqui em ter as pessoas e determinados apoios para fazer esse meu aquarismo. Tive que estudar para saber o que eu queria fazer para poder dar saúde para os meus peixes. Isso está relacionado diretamente ao ecossistema, que é o que dá saúde para os peixes. Tem gente que pensa “o peixe não dura muito”, mas na verdade depende do que a gente está fazendo com ele. Eles vivem em um ecossistema fechado, ele tem que estar todo estabilizado. Se ele não estiver estabilizado, quem sofre é o peixe. Se eu tenho a chance de colocar em projetos os lagos, eu coloco, indico. Mas tem que ter uma atenção direta, tem que ter uma técnica, lago tem que ter muito cuidado.



Revista Leal Moreira –  Em Belém tem espaço para essa proposta?

Maurício Toscano – Tem, existe demanda. Temos muitos peixes legais. Aqui a gente não sofre, por exemplo, com o frio. Tem peixe que sofre com diferenças brutais de temperatura, e não temos isso. Então aqui é tranquilo, a gente consegue fazer um aquarismo forte. Existem peixes que demandam um tratamento bem minucioso, peixes bem sensíveis, mas temos peixes bem mais fortes, também.

Revista Leal Moreira – Por que ter um aquário ou lago em casa?

Maurício Toscano – Eu adotei como inspiração. Eu aconselho como se fosse um canto de contemplação. Eu acho que falta isso para as pessoas hoje em dia. Elas não se permitem mais contemplar. Não se permitem parar, respirar. Tá difícil isso hoje em dia. As pessoas são muito aceleradas. Eu sou também - e eu vi nessa atitude a necessidade de, de vez em quando, dar uma parada, uma relaxada. Quando o arquiteto procura a forma e a beleza na arquitetura, é justamente com essa intenção, de que o cliente contemple. Que ele se sinta bem ao ver aquela arquitetura, ou um lago, ou um peixe bonito.



Revista Leal Moreira –  Você acha então que investir em aquarismo é uma maneira de “desestressar”, de fugir do caos da rotina corrida em busca da tranquilidade?

Maurício Toscano – O aquarismo está ligado a isso, porque ele te traz sempre essa leveza. Eu sempre sugiro esse tipo de proposta para o meu cliente, relacionada à contemplação, a um espaço do qual você pode tirar proveito. O meu filho tem sete meses e é alucinado por esse aquário. Quando ele olha, ele brinca e ri, se diverte, é legal.

Revista Leal Moreira –  Você tem muitos elementos orientais no seu ambiente de trabalho. Isso faz parte da sua inspiração?

Maurício Toscano – Sim, eu gosto. Trabalho bastante com o Feng Shui. Gosto e acredito nesse trabalho. O escritório é assim, minha casa é assim. Porque trabalha muito com as energias, a gente acredita nisso.


Revista Leal Moreira –   Mas do que se trata essencialmente o Feng Shui?

Maurício Toscano – Cada ambiente tem uma energia, e ela pode ser tanto melhorada quanto enfraquecida. Então o Feng Shui é uma técnica milenar chinesa que consegue ativar esses pontos energéticos, potencializá-los nas pessoas. O lago, por exemplo, entrou em um espaço que estava perdido. Com a  ajuda do Feng Shui, identificamos que o lago era algo que a gente precisava e seria um ponto chave na casa, que poderia enriquecer energeticamente. Foi quando surgiu a ideia do lago. Também gosto muito da cultura japonesa. Costumo dizer que eu fui japonês em outras vidas. Já fiz Jiu Jitsu, Judô... Ou seja, me encontrei neste lado disciplinado do japonês. Eu gosto de ser disciplinado, gosto de organização.


Revista Leal Moreira –   O que você acha que está faltando na arquitetura atualmente?

Maurício Toscano – Em Belém já melhorou bastante. Hoje em dia o paraense consome arquitetura. Antigamente a gente não tinha isso. De uns 10 anos pra cá melhorou bastante o consumo de arquitetura. Acho que os profissionais começaram a se envolver, a divulgar o seu trabalho. Há 15 anos, quando eu comecei a me envolver em arquitetura, existia um pensamento de que não se fazia propaganda, era um negócio bem fechado. Com a divulgação da profissão, o paraense começou a se acostumar e ver a necessidade do profissional no mercado. Nós tivemos um boom, e nos últimos tempos tem uma demanda muito grande para o profissional.

Revista Leal Moreira –  Nesses 10 anos de trabalho, o que você vê como mudança na cidade?

Maurício Toscano – A nossa cidade precisa bastante de atenção na arquitetura. Nós tivemos um cara que mudou a cidade nesse âmbito, que foi o Raul Ramos. Ele mudou muito a arquitetura dos prédios. Ele tinha uns conceitos muito legais - como por exemplo, a ideia de que a arquitetura tinha que integrar na paisagem da cidade. Isso ele conseguiu trabalhar muito bem. Pena que muita gente não consegue ter essa linha. Temos uma poluição muito grande relacionada a tudo, formas, cores...  Não há nenhum esforço para minimizar isso. Por exemplo, a gente viaja e anda em cidades que não se vê um poste de fiação elétrica, é tudo subterrâneo. Tem tecnologia para fazer isso. É caro, mas tem um valor muito especial para cidade, porque você tira esse visual, deixa a cidade mais leve.

Revista Leal Moreira –  Qual a maior diferença de Belém para as cidade de fora que você identificou em suas viagens?

Maurício Toscano – Aqui temos um potencial enorme. Recebo visitas de estrangeiros que ficam enlouquecidos com a nossa cultura, culinária, e a gente não consegue ordenar o trabalho em Belém. Paulo Chaves foi um arquiteto que mudou muito a cara da cidade com projetos que valorizam o turismo em Belém. Ele teve essa visão. É necessário dar continuidade a esse trabalho. Como arquiteto, eu sinto muito a falta da inserção da arquitetura nos pontos turísticos. O trânsito, por exemplo, poderia ser solucionado por meios arquitetônicos. Lá fora, você percebe a situação do pensar, projetar, programar; isso é muito forte. Você sente isso, vê que tem um trabalho sendo feito. Aqui estamos completamente defasados nesse quesito. Estamos só solucionando, não estamos projetando. Não estamos olhando para frente. É preciso projetar. A Heluza Sato tem um projeto voltado para centro histórico muito interessante - até hoje nunca foi feito nada nesse sentido de centro histórico. É preciso projetar urbanisticamente a cidade.

Revista Leal Moreira – O que é primordial quando se pensa em arquitetura na atualidade?

Maurício Toscano – O arquiteto tem que pensar na beleza sim, mas não pode esquecer da função. Ela é que vai trazer a comodidade e a satisfação para o ser humano. Nós temos a obrigação de ter essa preocupação. Aqui no escritório discutimos muito essa relação beleza versus função. Tem que ter harmonia entre elas. Hoje em dia eu vejo muito esquecimento nessa parte. Às vezes se passa por cima da função e esquece a beleza ou o inverso acontece. Às vezes a função fala mais alto e a beleza fica esquecida.

 

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