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Um toque feminino na arquitetura

Março é o mês das mulheres. E quem melhor para falar do assunto do que elas mesmas? As irmãs e profissionais Ana Cecília Lima e Patrícia Matos acreditam que há muito de psicologia, sensibilidade  - para perceber e poder realizar o sonho das pessoas que as procuram - e muita intuição feminina na hora de dar o toque especial em seus projetos - dentre os quais se destacam trabalhos premiados em eventos como a Casa Cor Pará.
 
Essas paraenses se juntaram e começaram juntas uma jornada de sucesso, cujo início aconteceu num tempo em que a arquitetura ainda não era bem um habitat para o sexo feminino - afinal, a profissão ainda apresentava alguns resquícios de uma atmosfera essencialmente masculina. O site da Revista Leal Moreira conversou com as duas sobre essa paixão que carregam desde a infância, para a qual foram atraídas pela arte e pelo poder transformar sonhos em realidade.
 
Revista Leal Moreira - A arquitetura é um ramo igualitário? Vocês sentem alguma distinção por serem mulheres?
Patrícia - Tem campo para os dois gêneros. Mas a mulher consegue transitar com muita facilidade, e o toque feminino faz toda a diferença. São toques delicados em lugares mais sérios e duros. A mulher harmoniza bem as coisas. Tem uma sensibilidade diferenciada. Às vezes, as esposas dos clientes gostam de fazer essa parte. Quando não sabem como, nos chamam para aconselhá-las.


Revista Leal Moreira - Esse toque feminino e essa sensibilidade acontecem como para vocês?
Ana Cecília - Primeiro olhamos a personalidade do cliente, o tipo de ambiente, o estilo a ser usado; e instintivamente vamos descobrindo o que vai entrar ou não. Além, é claro, de fazer um estudo para unir ao projeto a personalidade e o estilo dele ou dela. Mas a mulher tem um instinto, né?  E eu acho que isso é muito útil nessa profissão.
Patrícia - E tem também o conhecimento prévio. Por exemplo, se vamos fazer um quarto feminino, já pensamos no melhor lugar para guardar a bolsa, as bijuterias, as maquiagens... Os homens já vão ter que fazer uma pesquisa mais apurada para entender este lado. Quando o assunto é ambiente masculino, nós fazemos uma boa pesquisa. Mas o instinto já mostra o caminho a seguir, de qualquer forma.


Revista Leal Moreira - O que seria o toque feminino em um trabalho de arquitetura?
Patrícia - Os detalhes mínimos. Mas pensamos no geral. Não dá pra deixar o toque feminino prevalecer, ainda mais se for um ambiente para um casal. O ideal é sempre dosar nos detalhes.
Ana Cecília - Colocar uma vegetação, um objeto que mude, um móvel que dê uma tonalidade diferente ou que realce alguma coisa... São pequenos detalhes que vão fazer a diferença. E nós trabalhamos muito isso.
Patrícia - É importante destacar que esse toque não quer dizer que a mulher vai colocar um monte de florzinhas, bolinhas ou listrinhas. Não, são particularidades mesmo essenciais e especiais que vão fazer toda a diferença no ambiente.


Revista Leal Moreira - Durante muito tempo a arquitetura era uma profissão masculina. Vocês sentiram algum desconforto ao se inserir neste ramo?
Ana Cecília - Na parte de decoração, não. Na parte de obra, sim. Tinha um pouco de preconceito, até por não confiar totalmente na capacidade da mulher.

Patrícia - Uma vez um senhor na obra me disse: " Mas é uma 'fedelha' fazendo isso aqui, querendo mandar em mim?". Era um pedreiro de uma cliente que eu fui orientar. Hoje não é mais assim.


Revista Leal Moreira - E como vocês lidavam com isso?
Patrícia - Eu sempre procurava contornar, dizendo que eu estava lá apenas para orientar, ajudar. Fazer uma parceria. Porque afinal de contas tudo se trata de parceria. Não adianta querer mandar no pedreiro, no pintor. Não. Tem que ser parceiro, senão eles não fazem nada.
Ana Cecília - Uma das formas de driblar isso também foi mostrar o nosso trabalho, o profissionalismo com horário e tudo o mais. Se impor, mas de forma respeitosa.


Revista Leal Moreira -  Isso ainda existe atualmente?
Ana Cecília - Não. Já mexeram muito com a gente em obra, mas agora temos uma equipe formada e todos são bem respeitosos. Antes, quando essas coisas aconteciam, chamávamos eles e conversávamos. Deixamos sempre clara a diferença do papel profissional para o pessoal. Hoje não tem mais isso.


Revista Leal Moreira - Diferente do passado, hoje em dia a maior parte das pessoas que ingressam no ramo da arquitetura é do sexo feminino. Vocês percebem o aumento desse interesse feminino no dia a dia?
Patrícia - Tem muito mais mulheres na profissão hoje. E acredito que muitas vão por esse lado da beleza, da arte.
Ana Cecília - Muita gente vê os trabalhos do arquiteto e pensa "é só glamour". E não é. Nós pegamos no pesado também. É um trabalho de dedicação total. E também é preciso entender o sonho do cliente, porque é com isso que você trabalha. Você tem essa responsabilidade de fazer do jeito que ele sonhou. Não adianta fazer uma casa ao nosso gosto, tem que ser do jeito dele. Com um toque do nosso conhecimento.


Revista Leal Moreira -  E no visual, a arquiteta pensa mais no glamour e elegância?
Patrícia - Sempre buscamos roupas confortáveis, porque o dia a dia é muito corrido. E tem que estar de acordo para ir para obra e visitar clientes, lojas etc. Tudo muito básico. Até a maquiagem é sempre mais neutra.
Ana Cecília - Estamos sempre ligadas no visual, afinal nossa imagem é super importante. Jamais alguém vai contratar um arquiteto que está mal vestido, porque passa a imagem de que ele não tem bom gosto - afinal, é um trabalho que envolve arte e beleza. Sempre buscamos estar adequadas às situações, porque vamos da loja chique à marcenaria. Por isso, temos que conciliar.


Revista Leal Moreira -  E isso é uma coisa só com as mulheres?
Patrícia - Não, é com os dois. Todo mundo nota quando um arquiteto não está arrumado. E é bom estar na moda, afinal isso demonstra que você está antenado com as tendências. A arquitetura está muito ligada à moda. As cores da moda geralmente refletem na arquitetura. Por exemplo, atualmente as cores fortes estão em foco - azul turquesa, amarelo e tudo mais. Temos que estar ligadas a isso também, porque tudo se relaciona.


Revista Leal Moreira - E a vida pessoal? Ser mãe, dona de casa, arquiteta... Quais os desafios dessa jornada tripla?
Patrícia - Hoje é mais fácil, mas no início foi bem difícil. Tive um pouco de restrição do meu marido por chegar tarde, ou por atender pessoas do sexo oposto etc. Sempre tive que ter cuidado com a imagem e uma boa postura. Mas a profissão agrega valores à família também. Eu sou mais realizada trabalhando profissionalmente, e deu tempo de fazer tudo. Dei um jeito. Até por ser uma profissional liberal, foi mais flexível. Fui mãe desde a faculdade e tive que conciliar isso.
Ana Cecília - Tenho uma filha de nove anos e tenho que conciliar também. Não é nada fácil. Eu sou separada, tive que ter uma estrutura familiar - de pai e mãe - para me dar todo esse apoio. Então não é só beleza, como as pessoas as pensam. Temos uma carga muito pesada. Temos que ter ideias 24 horas. A cabeça e o corpo têm que estar bem. Com filho pequeno é complicado, mas a gente consegue. Temos que saber dividir os horários. Você consegue conciliar se tiver organização e uma boa estrutura familiar.


Revista Leal Moreira - O que é arquitetura para vocês?
Ana Cecília - Transformar sonhos em realidades. Criar ambientes funcionais, harmoniosos e aconchegantes. Mas, no geral, é mesmo unir tudo isso e deixar o cliente satisfeito.
Patrícia - Ser ecologicamente correto também. Hoje a sustentabilidade é uma busca constante. Nos preocupamos com isso também, e levamos isso para a vida dos nossos clientes, até para conscientizá-los. Fazemos nossa parte: economizar energia, usar madeira de reflorestamento... Tudo isso é válido.


Revista Leal Moreira - Uma dica de mulher para mulher em homenagem ao seu dia?
Ana Cecília - Procure sempre ser realizada. Saber conciliar a relação profissional, a parte de mulher, mãe... Tem que ter todas essas realizações, ser moderna, sofisticada, empreendedora, sem deixar nada de lado. Encontrar um tempo para tudo. Tudo é uma questão de organização do tempo.
Patrícia - Você tem que trabalhar feliz e fazer o que gosta. Não adianta pensar só na renda. Hoje eu faço o que eu gosto e ainda ganho dinheiro. O legal é trabalhar por amor, e não só por dinheiro.

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