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Gigante pela própria desnatureza

Ás vezes, fico observando a cidade de São Paulo, nas suas mais diversas e específicas nuances e me pergunto qual a razão de ser de um lugar assim tão grande e tão denso. Para onde caminha esta humanidade e esta enorme desumanidade? Para onde vai este mega aglomerado humano, que gera uma insana confusão de prédios, de ruas, de viadutos, de túneis, de automóveis, de fumaças, de vontades, de interesses, de problemas e de soluções?

Falo de São Paulo porque é a cidade que está no meu país, cidade que conheço mais, embora ainda a  conheça muito pouco. Se é que alguém pode conhecê-la bem. Mas poderia estar falando de Mumbai, Xangai, Istambul ou Délhi. Estes gigantescos centros urbanos desafiam a inteligência e o rumo humano, a capacidade de inventar, de reinventar, de criar, de viver e de conviver, desenham novas convivências entre pessoas e as relações das pessoas com o dinheiro, com a riqueza, a pobreza, com o trabalho, o meio-ambiente e com a própria existência. São Paulo é um desafio para encontrar sentido em cada gesto de um mundo que, consciente ou ao acaso, ergue este tipo de lugar surreal. Antes de São Paulo, existia o ser humano. A partir de São Paulo, está surgindo o ser urbano. Uma espécie de simbiose que permite vantagens e desvantagens recíprocas.

Em São Paulo, as pessoas não vivem na cidade, a cidade vive nas pessoas.Impacta-lhes, interfere em suas fisionomias, em seus sistemas nervosos e amorosos. A cidade intervém vigorosamente no aproveitamento do bem mais valioso que um ser humano pode ter: seu tempo. São Paulo impõe a todos os seus habitantes um comportamento submisso ao seu gigantismo. É a ditadura da aberração. Seja para com um dos seus muitos moradores de alto poder aquisitivo, ou um dos seus milhões e milhões de moradores invisíveis, gente com renda muito baixa ou sem renda alguma. A sensação que se tem ao olhar mais atentamente para São Paulo é que a cidade vive muito mais em resolver problemas do que buscar soluções. É uma cidade ocupada e, por vezes, competente e criativa na busca por sanar as dificuldades que seu próprio tamanho descomunal cria. Assim, todos nós sabemos que o trânsito e os transportes coletivos nesta cidade não têm solução que a vista alcance: tem amenização (com maior ou menor grau de eficiência, mas apenas paliativos para conviver com um monstro terrível e crescente a cada minuto). Isto excita São Paulo. E a irrita, com um charme só seu.

A experiência humana num lugar como São Paulo é talvez o maior laboratório para o desenvolvimento de dores e delícias que a civilização poderia criar. O que pode explicar tanta gente vivendo apertada, por temores, limitadores e opressores, estimuladores, num espaço tão pequeno (se levarmos em consideração a dimensão geográfica do Brasil)? E mais, o Brasil só tem uma São Paulo. A América do Sul só tem uma São Paulo. Os fatores dos mais diversos foram deixando de  lado a ideia de criação de outros centros urbanos que descentralizassem a força econômica, política e cultural da cidade. O que se vê no Brasil é São Paulo cada vez mais influente, comandante, central, arrogantemente São Paulo.

Como bem disse o poeta, tudo em São Paulo parece que ainda é construção e já é ruína. Se São Paulo houvesse tido um plano feito no século 18, deveria estar a toda hora fazendo revisões, ajustes e adaptações. Imagine essa cidade crescendo vertiginosamente sem projeto, sem missão, sem valores, sem plano, sem ordenamento? Na verdade, não precisa imaginar, basta tentar pegar um trem, um ônibus, andar por suas ruas de comércio, para sentir na pele, nos olhos, nas narinas, na alma e no coração os efeitos de uma construção improvável, ingovernável, inviável e, por isso mesmo, tão provocadora e geradora de possibilidades.

É preciso viver assim? Tanta gente junta, dividindo os mesmos vírus? São Paulo é descomunal. É ajuntamento sem que ninguém consiga estar junto. É a produção e consumo em escala, de comida, de material de escritório, de hábitos, de costumes e falares, já que tudo tem que ser “mais que muito”. Um cafezinho em São Paulo é “zinho” só no nome carinhoso. Um cafezinho é uma enormidade de volumes, de toneladas, de cadeias produtivas e elos de negócios, é um planeta numa xícara. É a cara de São Paulo.

A cidade é uma grande fábrica de lições, várias receitas do que fazer e muito mais do que não fazer. Lições para pequenas cidades, para cidades médias, grandes ou megalópoles. Lições para pessoas físicas e para pessoas jurídicas. Lições para pensar o Brasil e para o mundo. São Paulo não é modelo para ninguém, mesmo porque se sente que aqui ainda não existe claramente um sonho feliz de cidade. Existe uma realidade e só. Realidade que a história vai dizer se é boa ou desastrosa. Aqui se tem a sensação de que tudo é possível. O tudo jamais imaginado por qualquer ousado ou lunático empreendedor. Mas uma cidade que faz com que ações aparentemente simples se tornem impossíveis, como conseguir rapidamente um táxi quando chove muito.
 

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