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O nome dele é Selton Mello

Uma carreira longa e um início precoce. Uma inquietude constante e um ar resoluto. Uma voz mansa e compassada. Isoladas, nenhuma dessas características definiria Selton Mello. Seguindo à risca o que se espera de grandes artistas, o mineiro é um e é muitos. Saído de Passos (MG) ainda criança, o ator-diretor-dublador-produtor cresceu em tamanho diante dos nossos olhos na tela habitual da sala. Depois, de lá sumiu - para crescer em conceito e tornar-se um dos nomes mais promissores de sua geração.

Longe das novelas desde 1999, quando atuou em "A Força de um Desejo", o mineiro dedicou boa parte da última década à sétima arte. A postura engajada o fez recusar inúmeros papéis na televisão para participar de filmes que se tornariam memoráveis no cenário nacional - dos menos acessíveis, como o denso "Lavoura Arcaica"; aos mais carismáticos, como "O Auto da Compadecida". A recompensa acompanhou a intensidade do empenho: Selton escreveu seu nome no imaginário do grande público e na lista de queridinhos da crítica cultural. O longo caminho - mais de trinta anos na dramaturgia, iniciados aos sete - culminou no momento especial que o (ainda) jovem ator vive hoje, como grande debutante do baile que é a retomada do cinema nacional.

Hoje, aos 39 anos, Selton segue multiplicando-se, sempre fiel àquelas qualidades que, juntas, o consagraram. Ele continua recusando trabalhos grandes - como um papel na próxima novela das oito e outro no hollywoodiano "Star Trek II", do celebrado J.J. Abrams - em defesa da sua prioridade: o amor às telas grandes. Porém, o nível da aposta agora é outro. Seu último filme, "O Palhaço" (onde atua como protagonista e diretor), foi agraciado com mais de 1,4 milhão de espectadores - a quinta maior bilheteria nacional do ano passado. Ciente de que, quanto mais se anda, menos se pode regredir, o menino do interior quer mais. E não diminui a marcha nunca - só no primeiro semestre emplaca duas novas produções nas telonas: "Billi Pig" e "Reis e Ratos", ambos promessas de blockbuster para 2012.

Em entrevista exclusiva à Leal Moreira, o mineiro deixa claro que não é do tipo que se perde. A voz continua mansa e compassada, assim como inquietude e determinação não perderam suas proporções. Selton continua sendo muitos, e sendo exatamente quem é. Confira toda essa pluralidade:

Revista Leal Moreira: Vamos começar falando sobre o filme "O Palhaço". Foi uma surpresa para você a grande bilheteria de mais de um milhão de ingressos vendidos?
Selton Mello: Não fiquei surpreso. Sei bem que o público espera algo assim, delicado, que o faça sonhar. Temos que ter a capacidade de produzir filmes com essa "pegada" também. Fiz um filme que pudesse se comunicar com muita gente sem abrir mão de ser refinado esteticamente. Fiquei bem feliz que a aposta tenha dado certo.

RLM: As produções brasileiras vêm ganhando cada vez mais espaço na grade dos cinemas nacionais. Você vê isso como um processo irreversível que tende a crescer mais?
SM: Sem dúvida, o público gosta de ir ao cinema e se ver, ouvir sua própria língua, suas histórias. A tendência é só crescer.

RLM: Nos últimos anos o Brasil voltou a entrar na rota de set de filmagens e produções hollywoodianas e tem sido cenário de lançamentos dessas superproduções. Como avalia este momento?
SM: O Brasil está na moda, tem potencial artístico e financeiro. Por isso cada vez mais o mundo se aproximará de nossos talentos e de nossa cultura e isso é muito bom, em minha opinião. É bastante saudável em vários aspectos.

RLM: Você também declarou recentemente a um grande jornal que não se vê, neste momento, numa carreira no exterior, falando outra língua e vivendo cultura estrangeira. Por que? Não lhe atrai a possibilidade de participar de uma grande produção de Hollywood? Você não gostaria de ter maior projeção internacional?
SM: Tenho muita vontade de participar de filmes estrangeiros, desde que não desvirtuem dos meus caminhos aqui no Brasil. Não penso em parar tudo
aqui pra começar do zero em outro país. Sou imensamente grato ao que consegui aqui. Se eu fizer algo aqui, que venha a reverberar lá fora e isso renda algum convite do exterior, receberei com alegria.

RLM: Alice Braga e Rodrigo Santoro são exemplos de artistas brasileiros extremamente requisitados em produções de Hollywood. O ator Wagner Moura também participa atualmente de uma grande produção no exterior. Você vê isso como o ápice de uma carreira?
SM: Sem dúvida! É importante poder levar sua arte para outras culturas, mas não pode ser tratado como algo vital. Emocionar e divertir o público de meu país é algo comovente e que me traz grande realização pessoal.

RLM: Em sua opinião, qual o ápice na carreira de um artista? Um Oscar, uma grande bilheteria ou um papel que marque a sua vida?
SM: Não sei te responder porque o conceito de arte é algo subjetivo. Às vezes você pode se sentir muito gratificado, altamente realizado por algo que foi pouco visto. O ápice, o momento mais memorável depende muito dos trabalhos.


RLM: Ainda falando sobre Oscar, o Brasil nunca levou o seu na categoria melhor filme. Como você vê esta lacuna?
SM: Alguma hora isso vai acontecer naturalmente e não ter acontecido até agora não é demérito pelas coisas belas que produzimos.

RLM: Qual foi o personagem que mais te marcou?
SM: O personagem mais popular de toda minha história sem dúvida foi o Chicó de "O Auto da Compadecida". Até hoje sinto o carinho das pessoas por conta desse trabalho luminoso.

RLM: Qual foi a cena mais difícil que você protagonizou?
SM: Talvez tenha sido a morte de Jean Charles, em um metrô de Londres. Foi algo estranho e desconfortável de viver. Tive pesadelos com isso na época. Muito triste a história dele.

RLM: Você contracenou, ao longo de sua carreira, com atores mais experientes, com histórias fantásticas. Com qual ou quais deles você se sentiria à vontade para chamar de "mestre"?
SM: Paulo José é um mestre, um artista inquieto, apaixonado e apaixonante. Depois da experiência com ele em "O Palhaço" saí um ator modificado.

RLM: Rodrigo Santoro declarou recentemente que foi convencido por você a atuar no filme "Reis e Ratos". Parece que você mesmo estava encantado com seu personagem... Por que estar nesse filme, como um agente da CIA (que veio a trabalho para o Brasil às vésperas do golpe de 64) foi tão atraente para você?
SM: Foi atraente a maneira com que o Mauro (Lima, diretor do filme) conduziu o filme. Ele conseguiu falar de coisas sérias, mas com uma linguagem que flerta com os filmes noir dos anos 40, 50. Achei o tom escolhido muito curioso e instigante.

RLM: O filme está sendo apontado como uma das grandes apostas do cinema brasileiro para este verão. Qual a sua expectativa?
SM: Nunca dá para saber! Espero que seja bastante visto, mas realmente não dá para apostar. Billi Pig (filme de José Eduardo Belmonte, em que Selton contracena com Grazi Massafera), outro filme que fiz e que estreia agora, em março, também tem
potencial de ser recorde de público. Espero que eles façam muito sucesso!

RLM: Como foi trabalhar novamente com o diretor Mauro Lima (Reis e Ratos), com quem você já havia trabalhado nos filmes "Lisbela e o Prisioneiro" (Mauro Lima foi um dos produtores) e "Meu Nome não é Johnny" (Lima dirigiu e co-roteirizou o longa)?
SM: Tenho muita afinidade com o Mauro e foi um prazer retomar a parceria com ele. "Meu Nome Não é Johnny" foi um sucesso gigante em nossas carreiras e sempre é um prazer quando trabalhamos juntos.

RLM: No começo do ano você recebeu uma homenagem durante a 15ª Mostra de Cinema de Tiradentes (que ocorreu de 20 a 28 de janeiro deste ano), em Minas Gerais. Como você viu esse reconhecimento ao seu trabalho?
SM: Foi bastante emocionante. É a hora em que você se dá conta de sua trajetória, que consegue ver em perspectiva tudo o que já produziu. Senti-me bastante honrado pela homenagem em um festival tão cheio de prestígio.

RLM: Esse evento (Mostra de Cinema de Tiradentes) também foi palco para debates, inclusive o da busca de novos talentos. Como você avalia o surgimento desses novos nomes? Você acha que ainda há uma dependência grande da visibilidade dada pela TV ou acredita que o Cinema nacional tem mais força para fazer seus próprios nomes?
SM: Perfeita sua colocação! Existem sim grandes chances de alguém tão novo conseguir visibilidade sem estar atrelado a um trabalho na TV. Vivemos um período democrático do audiovisual. Pode-se produzir algo e exibir no youtube, por
exemplo, e isso virar um grande acontecimento. A Internet tem mudado cada vez mais os parâmetros de audiência pelo mundo - não apenas no Brasil - e isso é excelente.

RLM: Houve uma época em que a qualidade técnica do áudio era o principal desafio do cinema brasileiro? Como diretor, para você qual é hoje o principal desafio?
SM: O grande desafio não é mais o técnico, há bastante tempo. Para mim o desafio maior é chegar ao público, fazer com que ele saiba o que está sendo produzido, tocá-lo. Que se apaixone pela história que está sendo contada; que queira sair do conforto de sua casa para ver algo que saiu do meu coração, da minha mente.

RLM: Você se afastou das novelas há cerca de dez anos para se dedicar ao Cinema. Pensa em voltar a atuar em novela?
SM: Penso sim, mas não tem nada em vista por ora.

RLM: Já pintou algum convite, recentemente, de emissoras para novelas?
SM: Fui sondado para a próxima novela das 8,mas não tinha nenhum personagem que se encaixasse em meu perfil.

RLM: Que tipo de projeto o inquietaria e o faria voltar à Televisão?
SM: Gostaria de dirigir algo em TV, mas adoraria fazer o que o Guel Arraes fazia nos anos 90. Adaptações de obras literárias brasileiras. Isso me encantaria muito.

RLM: E além dos novos projetos para o Cinema, Teatro e Televisão podem ter algum espaço na sua agenda?
SM: No momento estou começando a tatear o que posso fazer num futuro próximo, mas não cheguei a conclusão alguma. Agora é o momento de se alimentar, ler tudo, ver tudo e já, já algo se apresenta com uma força suficientemente grande para virar um projeto que me apaixone.

RLM: Já são cerca de trinta anos de carreira. Você começou ainda criança...
SM: A grande coisa de ter começado tão cedo foi a dimensão real de minha profissão. Hoje posso ser apontado como o melhor ator do ano e amanhã, o mais lamentável intérprete de minha geração. Hoje posso ser o "homem do ano" e na semana seguinte, ser considerado
o pior ator de todos os tempos (risos). Sucesso e fracasso andam lado a lado, separados por uma linha tênue, então não me deslumbro facilmente, nem me deprimo tão violentamente num mau momento. Apenas sigo trabalhando, criando, exercendo minha imaginação... Enfim, sigo fazendo o que sei fazer.

RLM: Você ainda lembra como foi o início?
SM: Comecei tão cedo que nem me lembro como era antes de fazer isso (risos). Com sete anos de idade já estava em um estúdio de gravação. Aos 10, fiz minha primeira novela que foi "Dona Santa" na Tv Bandeirantes... Desde sempre, minha vida se mistura com a Arte.

RLM: Qual a maior dificuldade que o diretor Selton Mello teria ao dirigir o ator Selton Mello hoje?
SM: Isso aconteceu em "O Palhaço". Eu era diretor de mim mesmo, mas o ator foi bem obediente ao diretor e tudo correu sem grandes percalços (risos).

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