Você já ouviu falar em geração sanduíche? Talvez o nome ainda seja pouco familiar, mas uma pesquisa recente ajuda a mostrar a dimensão dessa realidade. Nos Estados Unidos, 29% dos cuidadores familiares de adultos também têm filhos menores de 18 anos em casa, segundo o relatório Caregiving in the U.S. 2025, produzido pela AARP e pela National Alliance for Caregiving.
Entre os cuidadores com menos de 50 anos, a proporção é ainda maior: 47% fazem parte da chamada geração sanduíche. O levantamento estima que 63 milhões de adultos norte-americanos exerçam algum tipo de cuidado familiar.

O termo descreve justamente adultos que estão no meio de duas gerações e precisam administrar simultaneamente as necessidades dos filhos e os cuidados com pais ou outros familiares adultos. A essa rotina geralmente se somam trabalho, relacionamento, tarefas domésticas, compromissos financeiros e a necessidade de cuidar da própria saúde.
Brasil envelhece enquanto famílias ficam menores
No Brasil, ainda não existe uma estatística oficial que permita afirmar quantas pessoas fazem parte da geração sanduíche. Mas dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) ajudam a compreender por que essa realidade tende a ganhar espaço.
A proporção de brasileiros com 60 anos ou mais passou de 8,7% da população, em 2000, para 15,6% em 2023. Para 2070, a projeção é de que esse grupo represente aproximadamente 37,8% dos habitantes do país.

Ao mesmo tempo, os brasileiros têm menos filhos. A taxa de fecundidade caiu de 2,32 filhos por mulher em 2000 para 1,57 em 2023, segundo as projeções populacionais do IBGE.
As duas transformações ajudam a modificar a estrutura das famílias. Adultos podem continuar responsáveis pelos filhos enquanto seus próprios pais chegam a idades em que passam a necessitar de acompanhamento, apoio financeiro ou cuidados cotidianos.
Mulheres ainda concentram o trabalho do cuidado
Nesse cenário, existe outra característica importante da realidade brasileira: o cuidado ainda é distribuído de maneira desigual entre homens e mulheres.

Em 2022, as mulheres brasileiras dedicaram, em média, 21,3 horas por semana aos afazeres domésticos e/ou ao cuidado de pessoas, enquanto os homens dedicaram 11,7 horas. São 9,6 horas semanais de diferença.
A desigualdade permanece mesmo entre pessoas que estão no mercado de trabalho. Entre as ocupadas, as mulheres dedicavam 17,8 horas semanais aos afazeres domésticos e cuidados, contra 11 horas entre os homens, 6,8 horas a mais por semana.
Para quem está no meio desse “sanduíche”, a rotina pode envolver levar os filhos à escola, acompanhar atividades e necessidades, trabalhar e cuidar da casa enquanto, do outro lado, surgem consultas médicas dos pais, exames, medicamentos, questões financeiras e outras demandas associadas ao envelhecimento.
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Quando quem cuida também precisa de cuidado
O impacto dessa combinação de responsabilidades já vem sendo investigado por pesquisadores.

Um estudo publicado em 2024, com adultos de 35 a 64 anos nos Estados Unidos, encontrou uma distinção importante: apenas estar em uma família com filhos e pais potencialmente dependentes não significava necessariamente apresentar pior saúde. Os efeitos negativos apareceram principalmente quando havia prestação efetiva de cuidados e transferência de tempo para as duas gerações.
Nesse grupo, as chances de apresentar sofrimento psicológico grave foram quase duas vezes maiores em comparação com pessoas que não realizavam transferências de tempo para ambas as gerações.
Outras pesquisas também apontam para o risco de burnout relacionado ao cuidado. Um estudo publicado em 2023 comparou pessoas que cuidavam dos filhos, dos pais, de ambos e aquelas que não exerciam essas funções. Os integrantes da geração sanduíche e aqueles responsáveis pelos pais apresentaram níveis significativamente maiores de burnout relacionado ao cuidado do que quem cuidava apenas dos filhos.
Dividir o cuidado também é uma questão de saúde
Em um país que envelhece rapidamente e no qual o trabalho de cuidado continua concentrado principalmente sobre as mulheres, discutir quem cuida de quem, e em quais condições, tende a se tornar cada vez mais importante.
Compartilhar responsabilidades entre companheiros, irmãos e outros integrantes da família, construir redes de apoio e preservar momentos destinados ao descanso e à própria saúde podem ajudar a evitar que todas as demandas se concentrem sobre uma única pessoa.

Quando sinais como esgotamento, ansiedade, tristeza, alterações importantes do sono ou dificuldade para realizar atividades cotidianas se tornam persistentes, a avaliação de um profissional de saúde pode ser necessária.
No Brasil, essa discussão ganha peso diante das projeções demográficas. Se atualmente 15,6% dos brasileiros têm 60 anos ou mais, esse percentual poderá chegar a 37,8% em 2070.
Para quem vive entre as necessidades dos filhos e o envelhecimento dos pais, o desafio pode estar justamente em encontrar espaço para uma terceira pessoa nessa equação: quem cuida.
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